domingo, 28 de outubro de 2012

O que os olhos de Ruth Rocha veem


 
Ruth Rocha é uma autora consagrada dentre os escritores de literatura infantil pelo caráter inovador de sua obra, entre outras características. Rocha concebe a criança como um ser ativo durante a leitura, considerando-a, portanto, capaz de julgar e optar. Em muitos momentos ela incumbe a criança a completar, recriar, construir a história, por meio da própria imaginação – como veremos melhor mais adiante. Assim como em suas histórias coloca os personagens diante de problemas que podem solucionar através das próprias ideias, espera que a criança se depare com problemas dos quais ela terá que lidar por conta própria. Além disso, em suas histórias a fantasia é utilizada de maneira alegórica, para aproximar a criança-leitora de sua realidade, fazendo-a refletir criticamente. Uma análise do texto abaixo,“O que os olhos não veem”, nos permitirá identificar aspectos chave de toda a obra de Ruth Rocha, e entender por que suas obras são consideradas tão adequadas ao público infantil, dado que seus livros já foram traduzidos para mais de 25 idiomas.

O que os olhos não veem

Havia uma vez um rei
num reino muito distante,
que vivia em seu palácio
com toda a corte reinante.
Reinar pra ele era fácil,
ele gostava bastante.


Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
nosso rei adoeceu.
De uma doença esquisita,
toda gente, muito aflita,
de repente percebeu...

Pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém.

Por isso, seus funcionários
tinham de ser escolhidos
entre os grandes e falantes,
sempre muito bem nutridos.
Que tivessem muita força,
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno,
da voz fraca, mal vestido,
não conseguia ser visto.
E nunca, nunca era ouvido.

O rei não fazia nada
contra tal situação;
pois nem mesmo acreditava
nessa modificação.
E se não via os pequenos

e sua voz não escutava,
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava.

E o pior é que a doença
num instante se espalhou.
Quem vivia junto ao rei
logo a doença pegou.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados,
toda essa gente cegou.

De uma cegueira terrível,
que até parecia incrível
de um vivente acreditar,
que os mesmos olhos que viam
pessoas grandes e fortes,
as pessoas pequeninas
não podiam enxergar.

E se, no meio do povo,
nascia algum grandalhão,
era logo convidado
para ser o assistente
de algum grande figurão.
Ou senão, pra ter patente
de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
no palácio se instalava;

e a doença, bem depressa,
no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ele tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menor conhecimento...

Seria até engraçado
se não fosse muito triste;
como tanta coisa estranha
que por esse mundo existe.

E o povo foi desprezado,
pouco a pouco, lentamente.
Enquanto que próprio rei
vivia muito contente;
pois o que os olhos não vêem,
nosso coração não sente.

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
que trabalhava bastante,
mas que nunca era atendido;
que por mais que se esforçasse
não era reconhecido.

Cada pessoa do povo
foi chegando à convicção,
que eles mesmos é que tinham
que encontrar a solução
pra terminar a tragédia.
Pois quem monta na garupa
não pega nunca na rédea!

Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram,
E chegaram à conclusão
Que, se a voz de um era fraca,
Juntando as vozes de todos
Mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau,
Então ficariam grandes,
E no palácio real
Seriam logo avistados,
Ouviriam os seus brados,
Seria como um sinal.
E todos juntos, unidos,
fazendo muito alarido
seguiram pra capital.
Agora, todos bem altos
nas suas pernas de pau.
Enquanto isso, nosso rei
continuava contente.
Pois o que os olhos não vêem
nosso coração não sente...

Mas de repente, que coisa!
Que ruído tão possante!
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante!
- Vamos olhar na muralha.
- Ai, São Sinfrônio, me valha
neste momento terrível!
Que coisa tão grande é esta
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geléia,

daquela grande assembléia,
como eu nunca imaginei!

E os grandões, antes tão fortes,
que pareciam suportes
da própria casa real;
agora tinham xiliques
e cheios de tremeliques
fugiam da capital.

O povo estava espantado
pois nunca tinha pensado
em causar tal confusão,
só queriam ser ouvidos,
ser vistos e recebidos
sem maior complicação.

E agora os nobres fugiam,
apavorados corriam
de medo daquela gente.
E o rei corria na frente,
dizendo que desistia
de seus poderes reais.
Se governar era aquilo

ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui
a história que estou contando.
O que se seguiu depois
cada um vá inventando.
Se apareceu novo rei
ou se o povo está mandando,
na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.

Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
que quando os olhos não vêem
nosso coração não sente.



                Primeiramente, é interessante refletir sobre o título do texto. O que os olhos não veem sugere a alienação e o descaso por parte do contente rei em relação ao povo esquecido, além de remeter logo de início ao ditado popular “o que os olhos não veem o coração não sente”, o que mostra a valorização dos provérbios populares e da cultura do povo. Isso éreforçado mais adiante quando a autora usa o ditado ” [...] quem monta na garupa não pega nunca na rédea!”. Por meio dessas citações, a autora propicia à criança um contato com dados da tradição oral muitas vezes distantes do seu mundo. Já no âmbito estrutural vale notar que predominam versos heptassílabos, ou em redondilha maior, o que denuncia uma linguagem leve, lúdica e por vezes irônica, muito pertinente para o gênero poesia infantil.
 
         Uma das características mais importantes de toda a obra de Ruth Rocha é a preocupação com a formação crítica dos leitores, como já mencionado anteriormente. Considerando-se que muitas obras da autora foram escritas no início da década de 70 – período inaugurado três meses após o AI5, caracterizado por forte repressão, autoritarismo e um regime militar ditatorial –e sabendo-se que um tema recorrente na maior parte dos livros de Rocha é o questionamento do poder dominante, é possível afirmar que o poema sobre o qual nos detemos possui evidente questionamento relacionado à estrutura social e política vigente. A figura do rei é bastante alegórica devido ao fato de que o rei é o mais legítimo representante do poder, e também, desta maneira, fica evidente a tensão existente entre dominante (rei e nobreza) e dominado (povo).  Além disso, o rei é uma figura paterna e masculina, e em uma sociedade patriarcal e predominantemente machista, deixar de apresentá-lo como a representação suprema da consciência, da virtude, do juízo, e do autodomínio é uma clara contestação ao poder dominante. O povo, por sua vez, é representado como pequeno e fraco, carente de uma administração que atendesse às suas necessidades, mas esta administração não o enxerga nem o atende. O problema então, não é como nas antigas histórias de contos de fadas, em que um obstáculo que prejudica o povo é superado pelo sábio rei; o problema é o rei, que é falho, doente, cego, preocupado apenas com aqueles que lhe servem. No poema em questão, o povo é ativo, e apenas unido pode solucionar o problema. Suas vozes, que isoladas não podem ser ouvidas pelo rei, juntas fazem com que a classe dominante toda tema o poder que eles têm.
 
         Diante disso alguém poderia dizer: “mas esta história é inverossímil e alienante, pois não temos reis em nossa estrutura governamental, e usar pernas de pau não poderia solucionar nenhum tipo de problema real”. Porém, o rei é uma alegoria para o poder dominante, e o uso das pernas de pau  (talvez uma possível alegoria das armas em uma revolução) é uma maneira de mostrar que o povo toma decisões coerentes com os problemas com que se depara – já que em “O que os olhos não veem” os pequenos não são vistos. E o mais importante: a narrativa aponta para o fato de "a união fazer a força", conforme o conhecido ditado popular, pois  os pequeninos (ou oprimidos) quando unidos têm voz mais impactante que todos os grandalhões juntos. A fantasia torna-se então instrumento iluminador da realidade: ambas não estão separadas. A criança é totalmente capaz de discutir os problemas reais, e por ser criança, entenderá melhor a realidade por meio da fantasia, por sua vez encarada como uma maneira de apresentar o real. Logo, se o povo pequeno encontra saída para as suas adversidades, a criança se sentirá estimulada a descobrir como encontrar as próprias soluções.
 
         O final, por fim, transmite a ideia (a oral) de que o povo deve unir-se, pois somente assim ele é capaz de ter voz e poder, o que lhe fará parecer  “um trovão” aos olhos dos poderosos.
 
 
 

Referências:
 

GT1: Poesia Infantil

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