terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Isto ou aquilo": a poesia infantil de Cecília Meireles

  Cecília Meireles, em seu poema Ou isto ou aquilo, dá um tratamento literário à poesia infantil e demonstra um profundo conhecimento de sua lógica. Nele, a conjunção alternativa não exclui, mas aproxima as oposições, colocando-as lado a lado, de modo que, ao final, elas se anulam enquanto opções e passam a construir um todo, com elementos equivalentes que se somam(PONDÉ, 1983, p. 98).


          Na literatura infantil, as histórias sempre suscitam o imaginário da criança, atingem um grau de curiosidade envolvente para com o final da história, atiçam perguntas e questionamentos, despertam interesses, estimulam criações no desenhar, no teatralizar, no musicar, no brincar e causam emoções. Estes mesmos efeitos acontecem também com aquelas crianças que se envolvem com a poesia, pois as brincadeiras infantis mostram claramente esse gosto especial pelos ritmos, pela musicalidade, pelas repetições, pelas aliterações, pelas onomatopeias, - que são também características poéticas - enfim, por diversas figuras de linguagem - que muitas vezes, mesmo sem reconhecê-las as crianças fazem uso frequente delas em suas atividades - e recursos lúdicos que vão ordenando o próprio universo infantil.

          A poesia é um meio privilegiado para despertar o amor pela língua materna e pela leitura. As estrofes em algumas vezes curtas, a rima, o ritmo, a sonoridade, os sentimentos que elas despertam e tudo o mais que ela envolve, permitem uma descoberta das potencialidades da linguagem escrita. Essa descoberta, que tanto encanta aos leitores, adquire assim um caráter lúdico. Brincar com os sons, descobrir novas ressonâncias, ouvir e ler pequenas histórias em verso, memorizar os poemas preferidos, desvendar imagens e sentimentos contidos na palavra, são situações de adesão imediata naqueles que se envolvem com a poesia e que se deixam render por ela.
          No âmbito da poesia infantil, Cecília Meireles é um nome que muito se destaca pela maneira como constrói seus versos e pela valorização que dá à leitura. Ela envolve em seus escritos um desejo de verdade e figuras de fantasia que envolvem a criança.


"Ah, tu, livro despretensioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... tu, sim, és um livro infantil, o teu prestígio será, na verdade, imortal" (MEIRELES, 1979).


Para iniciarmos nossa viagem pela poesia infantil de Cecília Meireles, apresentamos nesta postagem um poema que agrada tanto crianças quanto adultos:
 
OU ISTO OU AQUILO
 Cecília Meireles
Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
Ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
E vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 
          Neste poema, a problemática da dúvida e da decisão diante das possibilidades é colocada em evidência de uma forma sutil. São elas, dúvida e incerteza, as questões básicas de escolha que se fazem presentes no universo da criança, e ao lê-las, a criança se identifica com o que foi apresentado, remetendo para próprias situações já vividas, onde a faz pensar que não é a única que passa pelas mesmas incertezas. Pode lembrar-se também de situações presenciadas, onde leva a ideia de as ‘sérias decisões da vida adulta’, pois afinal de contas, é muito difícil ter de escolher, independente se você é criança ou não!
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No link que segue é possível encontrar o livro “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles, na íntegra: http://pt.scribd.com/doc/27795683/Cecilia-Meireles-Ou-Isto-Ou-Aquilo
 

Para mais informações sobre a autora, vide postagem ‘Cecília Meireles’, aqui no mesmo do blog.
 
Referências:
PONDÉ, Maria da Graça Fialho. Poesia para Crianças: a Mágica da Eterna Infância. In: KHEDÉ, Sônia Salomão (Org.). Literatura Infanto-juvenil: um Gênero Polêmico. Petrópolis: Vozes, 1983.
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária. Poesia. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
GT1: Poesia Infantil

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