sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A galinha de "Os saltimbancos": uma análise marxista


Dando continuidade à análise das músicas da peça Os saltimbancos, trazemos como conteúdo dessa postagem algumas considerações acerca da música A Galinha, de composição de Enriquez, Bardotti e Chico Buarque. Segue abaixo um vídeo em que Ana Cláudia Padilha  interpreta "A galinha":


 


A Galinha

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô
Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada
A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
"Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja"
Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada
Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda
Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
Com rimas que se alternam entre emparelhadas e alternadas, com palavras de fácil compreensão e colocando como centro de autoria do discurso a galinha, um dos quatro animais protagonistas do drama Os saltimbancos, a música A galinha figura em um primeiro momento como uma produção tipicamente infantil. Entretanto, lembremos, caro leitor, que não só estamos tratando de produções feitas no período da ditadura, em que a repressão e a censura se faziam da ordem vigente, como estamos falando de Chico Buarque, autor de inteligência e sensibilidade ímpares no processo de criatividade. Desse modo, é preciso aprofundar nosso olhar para algumas relações que se apresentam no nível do não dito, a fim de realizar algumas inferências que nos permitam chegar mais perto de uma compreensão significativa desta composição.
 
Atentemos inicialmente para a escolha do “narrador” da história em questão, ou melhor, da história relatada na canção. Mesmo se tratando de um texto fabular, em que os animais aparecem como protagonistas dos diálogos e das ações, percebemos que a escolha do personagem a partilhar as ideias presentes na letra da música não foi casual. Dentre os personagens, o único animal que fornece alimento, de modo direto, é a galinha (seja por meio de sua própria carne ou do ovo que a mesma bota). Sabemos, segundo algumas abordagens psicológicas que o corpo é instância inviolável do ser, aquilo que possui  de exclusivamente seu. Desse modo, a galinha apareceria como um dos personagens mais estigmatizados, o que justificaria a construção da composição em tons de lamento e desabafo.
 
No início da canção a galinha, que canta a música, diz: "Todo ovo/ Que eu choco/ Me toco/ De novo/ Todo ovo/ É a cara/ É a clara/ Do vovô". Quando verificamos o uso feito pela galinha do verbo tocar, precisamos ir além do que o significado tradicional com o qual estamos acostumados, ligado as questões sensitivas do tato. Temos aqui a multiplicidade dos sentidos em ação, trazendo para o texto a possibilidade de fazer remissão também à gíria “tocar”, em que o verbo aparece agora pronominalizado, ganhando como definição o "cair em si" sobre alguma coisa. No caso do texto analisado, "cair em si" sobre o fato de que todo o ovo que ela choca não vinga, ou seja, não vira um filho seu – um pintinho com as características hereditárias de seus ancestrais (o vovô) -, mas sim um ovo para consumo.
 
Na segunda estrofe, a galinha afirma que ficou bloqueada em relação à produção de ovos, e pela noite, ao invés de chocar, ela só sonha com gemadas. Essa estrofe parece ter dado humanização aos “sentimentos animais”, como se a galinha ao pensar que todos os ovos que bota fossem parar em gemadas, ficasse chocada e, por isso, bloqueada, ou seja, incapaz (por razões psicológicas) de botar os ovos. O termo bloqueada, aliado a simbologia do objeto ovo, pode também remeter ao cerceamento da liberdade, e, consequentemente, da vida por conta da repressão vivenciada nos anos de ditadura militar.
 
Passando a terceira estrofe do poema, temos uma remissão crítica aos processos de reificação e exploração do trabalho e ao fetiche da mercadoria, muito comentados nos trabalhos e abordagens socialistas de Lucáks e Goldman, em que o ser passa a ter seu valor de uso e de troca, tornando-se descartável quando sua produção não mais se concretiza. Da mesma forma, se um animal não produz com sucesso – se a galinha não bota mais como antes – ele é vendido ou abatido para virar alimento – no caso da galinha, uma canja -, e assim ainda gera lucro ao seu “dono”. A parte da canção “As galinhas sérias/ Jamais tiram férias” carrega forte carga de ironia, pois pauta-se em um grande oximoro. Para atender as necessidades do comércio, as galinhas produzem ovos durante todo o ano. Entretanto, quanto mais trabalham, sendo “mais produtivos”, mais se cansam, se degradam, passando a um estado de improdutividade. Tal reflexão nos remete diretamente ao estilo de produção fabril iniciado no final do século XIX, em que os funcionários eram submetidos a longas e penosas jornadas, quase ininterruptamente, a fim de contribuir fisicamente com seu quinhão para os lucros de quem tivesse a posse dos meios de produção.
 
Ressaltamos também um aspecto mais linguístico verificado na letra da música. A repetição dos pontos de exclamação e interrogação evidenciam que a galinha furiosa reclama ao seu “dono” pelo troco que ele a dá – a morte – por anos de choco, produção e lucro: Ah !!! é esse o meu troco/ Por anos de choco???/ Dei-lhe uma bicada/ E fugi, chocada”. Nas duas últimas frases percebemos o quão frágeis são os animais em relação ao homem, a única coisa que uma galinha podia fazer era bicar o homem, enquanto este pode matá-la facilmente.
 
Mais uma vez a galinha é humanizada, pelo fato de se expressar que ela queria cantar, enfim ser livre e feliz. E a canção termina com mais uma profunda crítica ao dizer que “um bico a mais/ Só faz mais feliz/ A grande gaiola/ Do meu país”, ou seja, um animal a mais é lucro a mais. Do mesmo modo podemos perceber uma transferência de sentido, no qual o bico simboliza um homem, um homem a mais num país, caracterizado como gaiola, é só mão de obra a mais. A gaiola é um elemento de forte correlação simbólica com aprisionamento, com uma visão fechada de mundo, com o conservadorismo que possibilita a visão, mas engessa a ação daquele que está dentro dela.         


Link para as outras análises das canções de Os saltimbancos:

Teatro, música e poesia: Os saltimbancos, de Chico Buarque

Um dia de cão : latidos e lamúrias em Os saltimbancos

Acomodação e consciência: as faces de um jumento em "Os saltimbancos"


GT 4 - Teatro e música infantojuvenis                            

2 comentários:

  1. Excelente postagem! Ótima análise sociológica (e marxista) da canção "A galinha". Parabéns! (prof. Marciano)

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  2. Não existe análise marxista ou capitalista, ou qualquer outro ISTA. O que há é uma análise mais acertada, como é o caso desta, e outras mais equivocadas. Por pressuposto, são todas incompletas, posto que sempre há algo a ser acrescentado ou que possa ser discutido.

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