terça-feira, 3 de setembro de 2013

A reconstrução da personagem feminina no conto "História de Dona Baratinha"

O conto História da Dona Baratinha é um conto popular português que faz parte da tradição oral. Ele foi publicado pela primeira vez em 1890 com o título original História da Carochinha  pelo linguista e pedagogo português Adolfo Coelho, que recolheu e transcreveu diversos contos portugueses tradicionais.  Em 1896, o jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel publica no Brasil, pela Livraria do Povo de Pedro Silva Quaresma, a coletânea Os contos da Carochinha, reunindo 61 contos, entre eles o conto intitulado História da Dona Baratinha.
 
 A publicação deste livro  é um marco para a literatura infantil, dado que  antes deste todos os livros infantis eram editados em Portugal.
 
Os Contos da Carochinha compreende contos de Perrault, Grimm e Andersen, fábulas, apólogos, alegorias, contos exemplares, lendas, parábolas, provérbios, contos jocosos, etc.
 
Em 1996, Ana Maria Machado publica pela  primeira vez uma adaptação da História da Dona Baratinha,  pela editora FTD, na coleção Lê pra mim. Em 2002, o mesmo título faz parte da sua nova coleção Histórias à Brasileira, publicada  pela editora Companhia das Letrinhas, composta de três volumes com diversos contos tradicionais europeus e fábulas. A História da Dona Baratinha faz parte do primeiro volume que, segundo a autora, é o resultado de uma soma de pesquisas e de um mergulho na memória e na tradição, mas também, acrescentamos, de sua contribuição crítica - pois ela mesmo confessa adaptar e narrar as histórias de maneira pessoal e de acordo com seu estilo literário.
 
Em História da Dona Baratinha, Ana Maria Machado vai adaptar o conto ao contextualizá-lo  no Brasil dos anos 90, ou seja, em uma sociedade em plena mutação dentro de um país em desenvolvimento, aberto às mudanças do século XX, mas, paradoxalmente, ainda apegado a valores tradicionais como o casamento e a religião.  Neste contexto, Dona Baratinha representa a mulher moderna, independente e senhora de si, que trabalha, tem poder financeiro e legitimidade social para tomar decisões. Entretanto, carrega a herança de gerações anteriores, ou seja, a visão de que para se realizar e ser feliz tem obrigatoriamente que se casar e constituir uma família.


Dona Baratinha, a dona do seu nariz.
É importante salientar que este conto, oriundo da tradição oral e  popular do norte de Portugal, não fazia parte do repertório da literatura infantil e juvenil. Somente a partir da versão de Figueiredo Pimentel é que ele passa a ter como público alvo a criança, inclusive se vê de maneira explícita a função pedagógica e moral que vai sendo incorporada às diversas modificações que o transformam em um discurso mais próximo desse novo leitor.
 
A versão do conto por Ana Maria Machado também é narrada na terceira pessoa e inicia com a célebre frase: “Era uma vez”, frase esta que estabelece o contrato com o maravilhoso e que também se encontra no fato de ele se inscrever na tradição dos bestiários (contos protagonizados por animais): todas as personagens fazem parte do mundo animal. A personagem principal, Dona Baratinha é antropomórfica, tendo todas as características e ocupações da mulher dona de casa. Já na primeira ação do conto, encontramos ela varrendo a casa.


         A aclimatação (adaptação de temas, personagens, linguagem etc.) à realidade de um público leitor diverso do original já tinha sido feita por Figueiredo Pimentel na primeira versão. Uma carochinha é o diminutivo de carocha, um besouro dourado originário do norte do Portugal. No Brasil, tal inseto era desconhecido, razão pela qual Pimentel o  transformou em barata, um inseto comum a todas as regiões do país.
 
Essa primeira ação é a peripécia que vai desencadear a história: ao achar uma moeda quando está varrendo a casa, Dona Baratinha pensa ter ficado rica e que já pode se casar. É importante destacar que, na versão original, Dona Carochinha acha o dinheiro e não sabe o que fazer com ele, razão pela qual vai pedir conselhos às vizinhas. Resposta de uma delas: ir para a janela e procurar um marido. Na versão de Figueiredo Pimentel,  a preocupação também está centrada na moralidade, Nela, Dona Baratinha procura por toda parte o dono do dinheiro, mas dado que não o encontra, resolve fazer um rico enxoval e sai em busca de um marido.
 
Já Ana Maria Machado constrói sua Dona Baratinha como a representação da mulher moderna, tal como discorremos mais acima. Sua personagem não necessita de conselhos, pode decidir sozinha que vai por uma fita no cabelo e ir para a janela procurar um marido. O individualismo da sociedade brasileira dos anos 90 está presente nessa ação da personagem.  No entanto, a relação entre o dinheiro e a ascensão social é novamente posto em evidência. É através do  dinheiro, representado pelo dote, que ela pode ascender ao casamento.
 
 
Nas primeiras  versão do conto, devido ao contexto histórico e cultural, é compreensível que o casamento seja o objetivo  principal na vida da mulher do século XIX.  Concluímos que a personagem recriada por Ana Maria Machado é uma Dona Baratinha moderna, cujo objetivo principal na vida não é apenas se casar. Entretanto, ela sofre do chamado  “complexo de  cinderela”, tese que defende que toda a mulher tem uma necessidade psicológica de ser dependente. Não importa o quanto ela  seja inteligente, bem-sucedida ou sofisticada, toda mulher quer se salva da sua própria independência.
 
Conforme o conto de Machado, Dona Baratinha vai para a janela e diz:
 
Quem quer casar com a Dona Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha”? (MACHADO, 1996, p. 51)
 
Com essa frase a personagem põe em evidência  duas qualidades: a beleza e a vaidade, pois ela tem fita no cabelo, mas também sua condição social, dado que ela tem dinheiro na caixinha. A segunda ação é a escolha do marido, a cada pretendente ela faz a seguinte pergunta:
 
“-E como é que você faz de noite?” (MACHADO, 1996, p. 51).
O boi, por exemplo, responde:
MUUUUUU! (MACHADO, 1996, p. 51)
Ouvindo as respostas dos pretendentes, que não se encaixavam no perfil procurado por ela, então contestava:
- Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir! Sai fora! (MACHADO, 1996, p. 52).
A resposta irreverente de Dona Baratinha mostra que ela é uma mulher segura de si e preocupada com seu conforto pessoal, que parece ser o principal critério de seleção do futuro marido. Ainda, é importante citar que na versão original de Adolfo Coelho, a personagem Dona Carochinha faz a mesma pergunta aos pretendentes, porém ao escutar a resposta diz:
 
- Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite. (COELHO, 1890, p.80)
Na versão analisada, entre os bichos que passam e que serão os futuros pretendentes, estão boi, burro, cachorro, bode, carneiro, gato, galo, papagaio, ratinho. Tais pretendentes são animais do mundo rural à exceção do papagaio, que introduzido por Ana Maria Machado é um elemento de aclimatação, que tem a função de abrasileirar o conto. O papagaio não aparece no texto original e tampouco no texto de Figueiredo Pimentel. Dona Baratinha escolhe o ratinho, o único animal que tem a fala discreta e que não vai incomodá-la.

A questão da classe social é novamente posta em evidência, Dona Baratinha contrata as abelhas para preparar o bolo e os doces; delega os preparativos, o que mostra que deve ser uma mulher burguesa, acostumada a delegar. O trabalho não é valorizado.
 
O ratinho, insatisfeito, diz que em casamento tem que ter feijoada, imaginamos que ele venha de uma classe social inferior. Devido a sua preocupação com a comida e por sua vontade de fazer uma refeição completa, isso mostra que talvez ele tenha passado necessidade e tenha conhecido a fome e a falta de alimentos.
 
Dona Baratinha cede ao pedido do noivo e contrata as melhores cozinheiras. Novamente ela delega o trabalho, encomenda os melhores produtos. Na versão original há apenas o feijão. A feijoada é um prato brasileiro derivado de um prato português do mesmo nome, mas os ingredientes indicam que se trata de uma feijoada brasileira, o que pode ser considerado como mais um elemento de aclimatação com intuito de abrasileirar o conto.
 
O casamento é na igreja. Ela se casa na igreja e tem um padrinho que vai acompanhá-la, como determina a tradição católica (na ausência do pai é o padrinho quem acompanha a noiva até o altar), o que mostra que, embora seja uma mulher moderna, independente, ela é apegada às tradições da sociedade em que vive. A questão do padrinho deixa em evidência que talvez ela seja órfã ou bastarda e que, com o casamento, ela busque completar esse vazio da presença paterna e masculina em sua vida.
 
Ela chega à igreja de caramujo, fazendo referência a uma suposta carruagem, e novamente evidenciando seu complexo de cinderela; a questão social é novamente trazida pelo tema dos convidados bem-vestidos. O noivo guloso come a feijoada antes do casamento e acaba caindo na panela, tendo como fim a morte.
 
Na segunda parte do conto, na versão transcrita por Adolfo Coelho, a morte de João Ratão vai desencadear uma série de ações que afetarão as outras personagens do conto. Ao fazê-lo, Coelho põe em evidência o fato de que a desgraça de um indivíduo pode afetar toda uma comunidade, assim valorizando o coletivo sobre o individual.
 
A solução para o desfecho da Dona Baratinha de Figueiredo Pimentel é que a personagem decide que nunca mais vai se casar. Já em Ana Maria Machado, Dona Baratinha decide aproveitar a vida:
 
 Coitado do ratinho! Mas para mim foi uma sorte. Não podia dar certo um casamento com um noivo que gosta mais de feijão do que de mim. Melhor eu ficar sozinha e gastar meu dinheiro para me divertir. E assim fez (MACHADO, 1996, p. 57).
 
Com a morte de João Ratão, ela finalmente se libera do seu “complexo de Cinderela” e vai enfim tornar-se mulher e dona do seu nariz. Ao mesmo tempo, ela passa a imagem de uma mulher extremamente egoísta diante da morte do noivo, uma vez que julga que o noivo não merecia se casar com ela e que sua morte não merece nenhuma consideração.
 
Ana Maria Machado produz em seu texto uma transvalorização, o que, segundo Gérard Genette, é uma transformação de natureza axiológica da imagem de uma personagem. Existem dois tipos de transformação: a revalorização - processo pelo qual uma personagem que era antipática ou que tinha uma imagem negativa vai se tornar simpática e ter uma imagem positiva ou neutra no hipertexto - e a desvalorização, que é o processo inverso.

Em História da Dona Baratinha de Ana Maria Machado temos uma desvalorização da personagem que, recriada segunda a imagem da mulher moderna dos anos 90, acaba aos olhos do leitor sendo vista como uma mulher fria e calculista.

Veja abaixo o  vídeo com a  versão  de Alberto Figueredo Pimentel.
 

Para visualizar a história na versão de Ana Maria Machado acesse o link:
 


 
Fontes:

COELHO, Adolfo. Contos Populares Portugueses. Lisboa: Dom Quichote, 1890
GENETTE, Gérard. Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982
MACHADO, Ana Maria. História da Dona Baratinha. São Paulo: FTD, 1996
PIMENTEL, Figueiredo. Contos da Carochinha. Rio de Janeiro- Belo Horizonte: Quaresma, 1992 
GT5

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