domingo, 25 de agosto de 2013

Metalinguagem e educação em "Marcelo, marmelo, martelo", de Ruth Rocha



A obra Marcelo, Marmelo, Martelo, da autora Ruth Rocha, lançado no ano de 1976, já motivou a criação de músicas, teatro, estudos linguísticos, e, claro, não poderíamos deixar de dizer o quanto esta obra motivou milhares de crianças e adolescentes de diversas maneiras, seja para estudos, ou para o simples prazer da leitura. Apesar de também haver no livro as histórias “Terezinha e Gabriela” e “O dono da bola”; é a história do Marcelo que inicia a obra, assim como é a história a ganhar o favoritismo do público, atraindo milhares de leitores das mais variadas faixas etárias, sendo o livro mais vendido da autora até os dias de hoje, com mais de dez milhões de exemplares vendidos.
 
Embora mantenha o foco narrativo nos questionamentos de Marcelo e em suas atitudes, a autora sustenta um segundo plano recheado de abordagens sobre questões ideológicas, linguísticas, sociais e familiares, por meio de uma linguagem simples e cativante. Para uma melhor compreensão da obra, recomendamos sua leitura na íntegra, clicando aqui, ou assistindo ao vídeo a seguir.



Basicamente, a história aborda os questionamentos infantis acerca dos nomes das coisas, assim como a importância de ser compreendido e poder se expressar da forma como achar melhor. Talvez por isso atraia tantos leitores adultos. Conforme LAJOLO (1999):

“Apesar de ser um instrumento usual de formação da criança, participando, nesse caso, do mesmo paradigma paradigmático que rege a atuação da família e da escola, a literatura infantil equilibra e, frequentemente, até supera – essa inclinação pela incorporação ao texto do universo afetivo e emocional da criança. Por intermédio desses recursos, traduz para o leitor a realidade dele, mesmo a mais íntima, fazendo uso de uma simbologia que, se exige, para efeitos de análise, a atitude decifradora do intérprete, é assimilada pela sensibilidade da criança.”(LAJOLO; 1.999, p. 14).
No caso de Marcelo, Marmelo, Martelo, a escritora alcança essa perspectiva literária para as crianças, unindo os eixos escola/família, e ainda vai além. Ela demonstra que os questionamentos devem e podem fazer parte do indivíduo, sendo isso uma maneira de se adquirir uma identidade própria frente à sociedade e a família. O personagem principal realiza questionamentos o tempo, como podemos ver no trecho a seguir.


Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo:
- Papai, por que é que a chuva?
-Mamãe, por que é que o mar não derrama?
- Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas?
As pessoas grandes às vezes respondiam. Às vezes, não sabiam como responder.
-Ah, Marcelo, sei lá...


Uma vez, Marcelo cismou com o nome das coisas:
- Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?
- Ora, Marcelo foi o nome que eu e seu pai escolhemos.
- E por que é que não escolheram martelo?
-Ah, meu filho, martelo não é nome de gente! É nome de ferramenta...
- Por que é que não escolheram marmelo?
Porque marmelo é nome de fruta, menino!
- E a fruta não podia chamar Marcelo, e eu chamar marmelo?


No dia seguinte, lá vinha ele outra vez:
- Papai, por que é que mesa chama mesa?
- Ah, Marcelo, vem do latim.
- Puxa, papai, do latim? E latim é língua de cachorro?
- Não, Marcelo, latim é uma língua muito antiga.


 Conforme Darós (2005) “A partir da década de 70, a Literatura Infantil sofre uma virada temática e passa a se sustentar em novos dogmas da educação: a valorização da criatividade, da independência e da emoção infantil, o chamado pensamento crítico”. Os constantes questionamentos feitos por Marcelo demonstram ao leitor que não é preciso sempre aceitar as coisas, sem precisar entender o “porquê” das coisas.
 
Essa leitura conduz a criança a uma meditação sobre coisas, pessoas, linguagem, família e sociedade, devido ao fato do personagem sempre observar os objetos, as coisas e suas funções, conforme vemos no trecho apresentado anteriormente. Marcelo não entende porque todos simplesmente aceitam as palavras como são e não questionam as origens de determinadas coisas, mesmo quando não possuem explicações convincentes para as suas dúvidas. O tema da linguagem encontra-se na reflexão que é realizada em torno das palavras e sua relação com o objeto; o da família encontra-se no papel desempenhado pelos pais de Marcelo, os quais procuram compreendê-lo e ajudá-lo com suas dúvidas e descobertas, não o recriminando. Por fim, o tema das relações com a sociedade encontra-se na presença da imagem dos vizinhos e na preocupação dos pais de Marcelo sobre o que eles pensariam ao ver Marcelo falando da forma como falava. 

Isso tudo nos conduziria também a possibilidade de se trabalhar a auto-aceitação que a autora proporciona ao leitor. Ruth demonstra a possibilidade de existir um indivíduo que seja aceito pela sua família e pela sociedade, apesar de ser capaz de criar ideias e realizar críticas e julgamentos sobre as coisas.

“Daí a alguns dias, Marcelo estava jogando futebol com o pai:

-Sabe, papai, eu acho que o tal de latim botou nome errado nas coisas. Por exemplo, por que é que bola chama bola?”
 
No trecho apresentado, conforme a parte em destaque, Marcelo já evolui de apenas questionamentos e começa a demonstrar sua opinião sobre o assunto. Até chegar o momento de assumir suas convicções, como percebemos em:
 
 “Pois é, está tudo errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo. E por que será que a bola não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E Bala? Eu acho que as coisas deviam ter o nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não quer dizer nada. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro, lógico! Também, agora, eu só vou falar assim”.

Essa história expõe os conflitos internos da criança em relação a quem ela é e seu lugar no mundo, deixando clara a necessidade de a criança ser compreendida e orientada pelos pais, assim como de se posicionar em relação àquilo em que acredita. Note-se também a representatividade que possui na história a imagem do pai e da mãe, sempre presentes.

Apesar de ser uma história infantil, voltada a um público pueril, a autora não se utiliza aqui do “maravilhoso”, entendido como um recurso literário que transporta a criança do mundo real para um mundo de fantasia, por meio de ações e personagens “fantásticos”, como animais que falam, casas que voam, etc., frequentemente encontrado nesse tipo de literatura. Todavia, recorre ao cotidiano do universo real da criança, como casa, família, pai, mãe, animais de estimação, etc., e produz, por meio da narrativa, a identificação consciente ou inconsciente do leitor com situações específicas. Assim, concordamos com Silva quando diz:

“Acreditamos que boa parte da empatia, quase mágica, que o texto dessa autora estabelece com o leitor, origina-se em dois elementos-chave. Em primeiro lugar, na linguagem utilizada, que é solta, coloquial, desprovida de artificialismos, muito próxima à do leitor, estabelecendo, por isso mesmo, um clima de cumplicidade entre narrador e ouvinte. Em segundo lugar, no olhar crítico com que a autora analisa e descreve situações e personagens, convidando o leitor a, ele mesmo também, analisar, criticar, julgar os fatos, numa postura mudancista, que rejeita o estabelecido e aposta no novo.” (SILVA, 2008, p.184).

Assim, podemos perceber nessa obra, entre outras coisas, o trabalho abordado por Ruth Rocha, o qual aborda vários aspectos psicossociais, linguísticos, pedagógicos, culturais, sociais, etc. Dentre os quais, nesta breve reflexão, enfatizamos o aspecto psicossocial, entendido como concernente simultaneamente à psicologia individual e à vida social, longe de pretendermos esgotar as análises realizadas por esse viés, ou por outras perspectivas.

BIBLIOGRAFIA

DARÓS; J. S. Oficina literária: Contos infantis podem servir de apoio à produção de textos. Revista do professor. Porto Alegre, 2005. P. 24-28
 
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história e histórias. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1999.
 
ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. Rio de Janeiro: Salamandra consultoria Editorial S.A, 1976.
 
SILVA, Vera Maria T. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores e promotores de leitura. Goiânia: Cânone Editorial, 2008, p.183-200. Disponível em:

GT 6

Um comentário: