quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"O avesso da gente"



Para contar as histórias desta coleção, eu escolhi alguns fios e costurei com um bordado.Você já viu avesso de bordado? Tem nó, tem linha pendurada, é uma confusão! Não dá nem para acreditar que aquele lado feioso faz parte do lado direito, todo bonito. Pois é, o avesso da gente é parecido com isso. Tem coisas que às vezes a gente não quer mostrar, só quer esconder. A beleza, porém, está em saber que todo o direito da gente tem avesso, ou todo avesso tem seu direito, assim como toda sombra tem sua luz.(FURNARI, 1998, p.32)

            É com esse pequeno e simpático texto que Eva Furnari, renomada autora e ilustradora de livros infantis, define a coleção “O avesso da gente”. Publicada pela editora Moderna, a coleção conta com quatro volumes que, embora apresentem histórias distintas, partilham a mesma temática: o respeito às diferenças físicas, psicológicas e culturais de cada ser humano.
     

 
O primeiro livro da coleção se desenrola no tempo das cavernas e conta a história de Lolo Barnabé, um homem inteligente e cheio de ideias que aproveitava o melhor da vida ao lado de sua grande paixão, a namorada Brisa. Por ser um homem inquieto e muito criativo, Lolo decide construir uma casa no alto do morro para ter mais conforto e comodidade. Em seguida, resolve trocar as peles de animais que ele e a amada vestiam por roupas e calçados. Não contentes, Lolo e Brisa aprendem a confeccionar todo tipo de modernidade: televisão, fogão a gás, bicicleta, armário, mesa, cama e até mesmo uma tábua de passar.

Entretanto, a rotina cheia de conforto e de novas tecnologias, começou a parecer vazia. Assim, Lolo é levado a refletir sobre a felicidade que sentia quando ainda desfrutava da simplicidade e das sutilezas que a vida dentro da caverna proporcionava. A história de Lolo, contada com a linguagem simples e bem humorada característica de Eva Furnari, é também a história do homem moderno que vive e sofre a insatisfação quase crônica que o motiva a sair de casa todos os dias para trabalhar e adquirir bens de consumo com a pretensa, falsa e frustrada crença de que tais artifícios trarão como brinde a satisfação e a felicidade que procura.
 


 
        “Abaixo das canelas”, outro volume da coleção, tem como cenário a “Poscovânia”, onde era expressamente proibido aos pobres “poscovônios” mostrar os pés. Ninguém sabia ao certo de onde vinha essa lei pra lá de esquisita, mas o fato é que o assunto era um grande tabu, de forma que os moradores de “Poscovânia” nem mesmo pronunciavam a palavra pé, quando muito, utilizavam a palavra pedúnculo, nome científico daquilo que ficava abaixo das canelas. Um dia, com o aparecimento de uma terrível “chulezite aguda” que se alastra gerando o caos com a coceira ininterrupta e o odor peculiar que passou a atormentar e a constranger os cidadãos, as razões que instituíram a lei “anti-pés” são reveladas e os moradores são levados a questionar esse antigo e infundado hábito.

Assim como em “Lolo Barnabé”, a crítica da autora não se limita às personagens do livro infantil, uma vez que é possível interpretar a “Poscovânia” como uma metáfora da sociedade em que vivemos, onde muitas coisas que fazemos, que não fazemos, que acreditamos, ou que não acreditamos, não passam de imposições sociais. Não raramente, somos manipulados seja pela mídia, pela publicidade ou por premissas e paradigmas culturais que nos impelem a agir, pensar e gostar de certas coisas sem que, ao menos, nos demos conta do real motivo pelo qual estamos admirando um determinado cantor ou vestindo a roupa imposta pela ditadura dos padrões de beleza.
 


 

“Umbigo indiscreto” se passa na “Bolofofolândia”, país em que a comida é tão importante que até mesmo a anatomia dos “bolofofos” gira em torno do bom apetite dos glutões. O umbigo, centro emocional de todo “bolofofo”, muda de cor de acordo com o humor de seu dono, motivo pelo qual todos escondem seus umbigos na tentativa de não deixar transparecer aquilo que verdadeiramente sentem. No dia da festa do Chocolate Escarlate, Bunza, a menina mais rica da cidade, chega atrasada e acaba se vendo obrigada a dividir assento com pequena Pelúcia, que ela nem ao menos conhecia.

A antipatia foi imediata, gratuita e recíproca, quanto mais as duas garotas conversavam e contavam uma a outra sobre suas vidas, mas se estranhavam. Até que, um repentino rasgo no vestido de Bunza deixa à mostra seu umbigo amarelo-mostarda, cor que denuncia a inveja profunda que a menina rica sentia de Pelúcia e das pequenas coisas que cercavam a vida simples da menina. Assim, o flagrante do “umbigo indiscreto” de Bunza dissolve os julgamentos precipitados de ambas e acaba rendendo uma grande amizade.

Não é preciso muito esforço para perceber que a “Bolofofolândia” está mais perto de nossa realidade do que queremos supor. A vaidade de Bunza ao se gabar de suas riquezas, o preconceito de ambas ao tecerem julgamentos recíprocos totalmente infundados, a hipocrisia com que continuam conversando para manter o traquejo social, a inveja que permeou o primeiro contato das duas meninas e a necessidade de se esconder aquilo que realmente se sente, são temáticas extremamente presentes e recorrentes no universo das crianças e dos adultos.


“Pandolfo Bereba”, quarto e último volume da coleção, narra a história de Pandolfo, um príncipe que contraria toda e qualquer expectativa criada acerca dos padrões de beleza, educação e valentia dos príncipes que povoam os Contos de Fadas. O príncipe não conhecia sentimentos como o amor e a amizade, e talvez por isso, gostava de colocar defeitos em todas as pessoas que via pela frente, sendo sempre muito arrogante e mal educado com os súditos que habitavam o reino da “Bestolândia”.

Certo dia, Pandolfo conhece Ludovica, uma moça muito autêntica e cheia de personalidade que trata Pandolfo da maneira que ele merece, contrariando-o sempre que necessário. No início, o príncipe se estarrece com o tratamento sincero e espontâneo que ele nunca havia recebido antes, mas depois acaba sendo conquistado pela personalidade de Ludovica a tal ponto que os defeitos da moça, apesar de evidentes, já não faziam a menor diferença.

A história de amor de Ludovica e Pandolfo traz à tona uma importante reflexão sobre a hipocrisia que perpassa as relações de muitas pessoas que, assim como os súditos da “Bestolândia”, fazem de tudo para se adequar aos padrões estabelecidos pela classe dominante em busca de status e ascensão social. Em seu livro, Eva Furnari ressalta ainda a importância do respeito às diferenças físicas, psicológicas, sociais e culturais que possuímos, diferenças que quando toleradas e compreendidas podem nos completar ao invés de nos segregar.



Durante a leitura dos quatro volumes desta coleção, a autora nos convida, com palavras simples e bem humoradas, para um necessário passeio que tem como destino um lugar onde é possível conhecer o lado feio do bordado, o lado confuso, cheio de pontas soltas e fios desconexos que, juntos, formam um lindo desenho do outro lado do pano. Esse lugar, tão bem guardado quanto o umbigo indiscreto de Bunza, cheio de defeitos como os que Pandolfo aprendeu a tolerar, repleto de tabus como o “pedúnculo” dos “poscovônios” e ao mesmo tempo tão simples e singelo como a caverna de Lolo Barnabé, é o que Eva Furnari chama de “O avesso da gente”.

Referências

FURNARI, E. Abaixo das canelas. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Lolo Barnabe. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Pandolfo Bereba. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Umbigo indiscreto. São Paulo: Editora Moderna, 2000. 

GT 2: Autores Consagrados

Um comentário:

  1. esse livro e muito legal e ensina a nao ter inveja dos outro pois nao adianta esconder sempre sera descoberto. nossa prof. Audria nos contou a hitoria

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