terça-feira, 3 de setembro de 2013

A representação do negro na literatura infantil de Ana Maria Machado e Ruth Rocha


A literatura continua sendo um espaço privilegiado para a discussão de assuntos que extrapolam o meramente convencional. No caso específico da Literatura Infantojuvenil, uma série de obras chama a atenção pelo fato de, sem abrir mão da fantasia e do maravilhoso, abarca temas que dizem respeito à realidade do leitor, levando-o a olhar o mundo a partir de uma perspectiva diferenciada e questionadora. É importante salientar que a incursão pela fantasia não descarta a realidade. Pelo contrário, pode iluminá-la sob outros prismas e provocar sua releitura a partir da ficção.
Atualmente, a inclusão do negro na Literatura Infantojuvenil atende, em geral, à preocupação política de valorizar sua identidade cultural, seus costumes, sua autonomia expressiva, entre outros aspectos, colocando-o como o herói de sua própria história, como vemos em O amigo do rei, de Ruth Rocha, e em Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado.

No livro “O amigo do rei”, Matias é um menino negro, escravo e é o personagem principal. Na sua utopia,  a condição de escravo seria superada no momento em que reencontrasse seu povo: “um dia eu vou ser rei”, afirmava Matias com otimismo.

Ioiô, filho dos senhores donos do engenho e dos escravos, era o melhor amigo desse "rei", apesar da diferença de classe social. Certo dia, depois de uma surra que ambos levaram do pai de Ioiô, como represália a uma “trela” cometida pelos dois, Ioiô, que não estava acostumado com os castigos, propõe uma fuga. Assim é que, guiado pelo protagonista, os dois chegam ao reino dos negros, onde o herói Matias é reverenciado com honras de rei. Enfim, chegara o seu dia...

No segundo texto “Menina bonita do laço de fita, abrindo a história com a magia do “era uma vez”, o narrador nos apresenta traços da beleza negra: “uma menina linda”, de olhos brilhantes como “duas azeitonas pretas”, “cabelos enroladinhos”, “pele escura e lustrosa, que nem o pêlo da pantera negra quando pula na chuva”. Tudo isso na ótica de “um coelho branco” que morava ao lado da tal menina. Em vários momentos do enredo, observa-se a insistência do coelhinho para que esta revelasse o segredo de sua linda cor: “Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?” Após algumas tentativas frustradas do coelho, para se tornar pretinho como aquela menina, e de justificativas infundadas da menina, “a mãe dela, que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter”, dizendo tratar-se de “Artes de uma avó preta que ela tinha...” Então, o coelho branco se apaixonou por “uma coelhinha escura como a noite”; namoraram, casaram-se e tiveram uma ninhada de filhotes de diversas cores, “e até uma coelha bem pretinha” (...), que se tornou afilhada daquela Menina bonita do laço de fita. O desfecho da história, apesar dos argumentos não convincentes da menina bonita, há uma construção progressiva de um sentido positivo, cujo efeito, indiscutivelmente, projeta a valorização da raça negra.

Considerando-se os níveis temáticos  e estruturais, as duas histórias concedem importante destaque aos papéis desempenhados pelos protagonistas, destacando, no caso de O amigo do rei, a atuação do negro Matias, representando a busca da identidade cultural perdida, e a adesão de Ioiô, cujo papel coadjuvante representa o reconhecimento dessa identidade e a valorização da cultura negra. Em Menina bonita do laço de fita, vê-se uma belíssima representação de superação do preconceito; em cada cena/quadro, a construção narrativa corrobora para bem-humoradas ilustrações, representando um imaginário inclusivo de forma graciosa e afetuosa.


As histórias da série “vou te contar” foram escritas pela Ruth Rocha durante os anos de 1969 a 1981 em várias revistas infantis que ela dirigiu, publicações que faziam um grande sucesso entre os pequenos.
São histórias que mostram situações e personagens que valorizam a independência de pensamento e a ousadia: um coelhinho que não queria ser coelho de Páscoa e escolhe outra profissão, um menino fazendeiro que se torna amigo de um menino escravo, um macaco e um porco que são companheiros de aventuras e saem pelo mundo ajudando as pessoas e muitas outras coisas mirabolantes, que a gente lê, relê e sempre dão muito que pensar.
Na obra “Menina bonita do laço de fita” Ana Maria Machado convida o leitor para a leitura do texto do mundo. Sua obra contribui para que as crianças se apropriem de valores como o respeito a si próprias e aos outros, além de elevar a autoestima da criança negra.
Ambas as autoras colocam como personagem central o negro, tipo de personagem até então marginalizado na literatura. O belo está justamente nas diferenças e não nas igualdades e as obras fazem lembrar dessa forma, de que é preciso se preservar a identidade cultural do negro.
Sendo assim, a Literatura infantil contribui para o processo de formação do pensamento de cada criança na sociedade. A partir dela, pode-se descortinar o espelho da vida, na busca do conhecimento de si, dos outros e de mundo, frente ao jogo mágico da fantasia e da realidade.


Para visualização da história "O amigo do rei" Acesse o link:

 Assista agora o vídeo " Menina bonita do laço de fita".
 Fontes:
MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita. Ilustração de Claudius. 4. ed. São Paulo: Ática, 1999.

ROCHA, Ruth. O amigo do rei. Ilustração de FURNARI, Eva. São Paulo: Ática, 1993. 


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Ana Maria Machado: contribuições à Literatura Infantil


Quando abordamos Ana Maria Machado e sua carreira de escritora na literatura infantil, sentimos a necessidade de citar um nome importante que influenciou positivamente sua formação: Monteiro Lobato. Segundo a autora, a busca pela renovação da literatura infantil deve-se ao fato de que, no Brasil, ela era pouco valorizada e o que se encontrava em circulação eram apenas algumas obras traduzidas para o português, de modo que o contexto das histórias, assim como os sentimentos e os interesses nelas discutidos, eram distantes da realidade de nossas crianças.   A influência e a importância da obra infantil de Lobato é assumida por Ana Maria Machado ao declarar que  “cresceu lendo e vivendo o universo lobatiano, foi virando gente grande e começou a mostrar a marca disso.”  (apud LAJOLO, 1983, p.102).
Ana Maria Machado defende a presença simultânea do real e do faz-de-conta nas diversas situações sociais do universo infantil. Assim como Monteiro Lobato em sua época discutiu questões de seu tempo, ela se preocupa em tratar das preocupações dos seus contemporâneos quando escreve. É notável como, sem deixar de lado o encanto e singeleza da linguagem, Ana Maria Machado busca evidenciar e trabalhar as situações reais da sociedade quando escreve, discorrendo sobre seus valores e ideais, abordando e discutindo diferentes e relevantes temas sociais de forma clara e interessante.


Veja a seguir alguns exemplos de temáticas sociais apresentadas por Ana Maria Machado em suas obras de literatura infantil:

De olho nas penas (Colonização, exílio e crítica à tradição)
Um pra lá, outro pra cá (Separação conjugal)

Beto, o carneiro (Identidade e respeito às diferenças)

Menina bonita do laço de fita (O preconceito e a diversidade cultural)
Bento que bento é o frade (Solidariedade)

História meio ao contrário (Crítica à tradição)


        Ana Maria Machado trouxe para a literatura brasileira um novo olhar e uma nova maneira  de contar histórias sem deixar de lado a função social da literatura infantil, tão importante para a formação do indivíduo e de um cidadão participante e crítico. Por isso, para ela, escrever para crianças pode ser tão ou mais complexo do que criar para adultos. Talvez, por esta razão, Ana Maria Machado não se preocupe apenas com a criação literária infantil, mas também com a reflexão acadêmica sobre o gênero, conforme comprova sua pesquisa “Contador que conta um conto faz contato em algum ponto”, monografia em que mostra as semelhanças entre nossas histórias populares com as que foram reunidas pelos Irmãos Grimm. Neste trabalho, a escritora também levanta questões importantes sobre a qualidade da literatura infantil e principalmente das edições, colocando os livros para crianças em local de destaque, longe da imagem de “bobinhos e simples”, que leitores, pais e até educadores têm sobre esse gênero literário.

           O trabalho, dedicação e cuidado com a literatura infantil levou Ana Maria Machado à conquista de vários prêmios:

João de Barro (Pref. Municipal de Belo Horizonte)
Altamente Recomendável (Fund. Nac. do Livro Infantil e Juvenil)
Prêmio Maioridade Crefisul (Crefisul)
Altamente Recomendável (Fundalectura, Bogotá, Colômbia)
Américas Award for Children's and Young Adult Literature (CLASP)
Lista de Honra (IBBY) 
Lista Melhores do Ano (Fundalectura, Bogotá, Colômbia)
Melhor Ilustração-Noma (Japão)
Melhor livro (Fund. Nac. Livro Infantil e Juvenil)
Melhor Livro Infantil Latino-americano (ALIJA - Buenos Aires)
Os 40 Livros Essenciais (Nova Escola)
Prêmio Casa de Las Americas (Casa de Las Americas, Cuba)
Prêmio APPLE (Instituto Jean Piaget, Suiça)
Prêmio Ofélia Fontes - O melhor para a criança (FNLIJ)
Selo de Ouro (Fund. Nacional do Livro Infantil e Juvenil)
Prêmio Jabuti (Câmara Brasileira do Livro)

Fontes:

www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe.sys/start.htm?infoid=133&sid=92

LAJOLO, Marisa. Ana Maria Machado: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico crítico e exercícios. São Paulo: Abril educação, 1983.

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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O índio "bom selvagem" na Literatura Infantojuvenil

Nossas crianças são presenteadas com várias personagens indígenas desde os primeiros anos de vida. As histórias em que o índio é representado acompanham também a faixa juvenil chegando aos leitores adultos. A gama de publicações é imensa e, para cada público específico, mais lançamentos aparecem a cada ano.
Para a grande maioria da população, causa surpresa o fato de escritores consagrados que, não sendo índios, têm em sua biografia romances com essa temática e voltados para o público infantil.

Um exemplo é o livro “As aventuras de Tibicuera” de Érico Veríssimo, em que a personagem narra sua trajetória através de fatos históricos do Brasil. Trata-se de uma mistura de fatos reais e ficção que, além de ensinar, diverte e permite que a história se desenrole como "um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade".

Mas, como esse índio brasileiro é representado nessas histórias? A representação quase sempre é a do índio como bom selvagem, conforme nos aponta Bonin e Kirchof:

 “ (...) a representação do índio como bom selvagem, tanto na visão hegemônica de sujeito dócil quanto na visão romântica de personagem idealizado. Geralmente ele  (índio),incorpora essas identidades quando é cristianizado ou submetido a um projeto de civilização, e assim, numa perspectiva utilitária, passa, de alguma forma, a servir ao colonizador .”

Tanto em “As aventuras de Tibicuera” como em “Expedição aos martírios” e “Volta à serra misteriosa” de Francisco Marins, essa representação se repete e deixa evidente o intuito de caracterizar esse herói romântico: índio cristianizado, dedicado totalmente ao branco, cheio de bravura e coragem.

BIBLIOGRAFIA

 VERÍSSIMO, E. As aventuras de Tibicuera. São Paulo: Companhia  das Letras, 2005.

BONIN, I.T., KIRCHOF, E.R. Entre o bom selvagem e o canibal: representações de índio na literatura infantil brasileira em meados do século XX.  Disponível em: www.revistas2.uepg.br   Capa  Vol. 7 (2012)
MARINS, F., Volta à Serra Misteriosa. Coleção A Aventura de ler – São Paulo: Editora Melhoramentos. 1977.
MARINS, F., Expedição aos martírios. Coleção A Aventura de ler – São Paulo: Editora Melhoramentos. 2005.
                                          
                                                                                              
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domingo, 25 de agosto de 2013

Os aspectos sociais presentes em "O DONO DA BOLA" - de Ruth Rocha.

                                  Para entender a história...

Essa história fala sobre um menino que se chamava Carlos Alberto conhecido como Caloca, que tinha dificuldades em ter amigos. Ele era considerado, na sua rua, como o menino com melhor condição financeira, ele era também muito egoísta, não deixava ninguém brincar com seus brinquedos.
De vez em quando havia um grupo de amigos que jogava futebol com uma bola improvisada de meia, pois não tinham condições de adquirir uma bola de couro igual a de Caloca. Porém, Carlos Alberto não cedia a bola, a não ser quando ele estivesse participando da brincadeira, e exigia que fosse da sua maneira. Até que, depois de muita confusão, devido suas chantagens e exigências, ele teve que sair da equipoe. E mesmo procurando outros times para se inserir, a busca foi inválida, pois ninguém o aceitava por não ter um espírito esportivo. Depois de muitas rejeições, e isolamento Carlos Alberto voltou a procurar o time da sua rua, e teve que se redimir e aceitar as exigências do grupo, que exigiu que a bola fosse doada para eles: ele não poderia levá-la embora. Não tendo opção, Caloca aceitou. Iniciaram os treinos para o campeonato, e venceram. Assim, Caloca permaneceu no time da rua.

Algumas Reflexões...

O texto "O dono da bola", publicada em 1967  livro Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, de Ruth Rocha,em uma perspectiva crítica, busca em seu contexto relatar as questões sociais e políticas da época em que foi escrito, e a diferença entre a classe média e baixa, despertando o leitor para refletir sobre o que se passa na sociedade, como se percebe no decorrer da narração, e quando a autora detalha as características requintadas dos brinquedos de Caloca.

“Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha, vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô. E tinha bicicleta, com farol e buzina, e tinha tenda de índio, carrinhos de todos os tamanhos e uma bola de futebol, de verdade.”


Ruth deixa claro que o menino possuía mais recursos financeiros em comparação aos demais do bairro, possuía os melhores brinquedos, tinha uma linda bola de couro. Para deixar mais clara essa perspectiva social, a narrativa, no sexto parágrafo, acentua essa desigualdade entre os personagem que morava na mesma rua. Os supostos amigos estão à mercê das chantagens de Caloca, por não terem condições financeiras de adquirir uma bola de verdade, de couro, e só possuírem uma pequena bola de meia.

“O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Só bola de meia, mas não é a mesma coisa.”... “Bom mesmo é bola de couro, como a do Caloca.”

Conforme Heck (2010), “A autora utiliza em suas obras uma retórica de cunho crítico, no qual esses frutos se constituem de um protesto contra as injustiças sociais resultantes do sistema político, da época”. Ainda de acordo com Heck, as diferenças sociopolíticas que nossa sociedade enfrenta são temas eminentes em suas obras, como se percebe de uma forma mais delicada, quando a autora coloca o personagem Caloca de classe média, sendo o dono da bola de couro, e os colegas de classe baixa, possuindo a bola de meia. E continua ainda mais, quando deixa claro que o personagem Caloca é quem decide, dita regras, e faz com que os demais garotos se sujeitam as suas vontades, opiniões, por perceberem que não podem competir com igualdade.

“Carlos Alberto pulou, vermelhinho de raiva: – A bola é minha, eu carrego quantas vezes eu quiser!”

Por fim, a autora coloca nos últimos parágrafos da história, que seria bem mais positivo, se o rei começasse a reinar com igualdade de pensamento, com sutileza e democracia, desse modo ela coloca o personagem Caloca se redimindo de sua postura dominante, e se transformando em um personagem mais humilde.

“No domingo, ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico. Na segunda, levou o Beto para ver os peixes na casa dele. Na terça, me chamou para brincar de índio.  E, na quarta, mais ou menos no meio do treino, lá veio ele com a bola debaixo do braço. – Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?”... “Mas eu quero dar a bola ao time. De verdade!”

A autora, como narradora da história, solicita, no final do texto, a interferência do leitor, lhe sugerindo que faça de conta que Caloca tinha um diário e, por conseguinte,  escreva o diário de Caloca, e contando como ele se sentia desde quando ganhou a bola até quando deu ao time, chegando para problemática de quais seriam as reais ideias que levaram o personagem Caloca ser daquela forma, egoísta. 
Dessa forma, ela leva o leitor a outro lado da história, uma reflexão de meio social e mundo interior, da mesma maneira em que recria no universo infantil a problemática social, tão conturbada naquele período histórico,  abordando até mesmo questões étnicas, sobre a pluralidade de raças, por meio das ilustrações.

Embora a autora, em uma de suas entrevistas tenha deixado claro que distingue as coisas de crianças e as coisas de adultos, e que problema de adulto não é problema de adulto, na mesma entrevista ela diz escrever aquilo que sente, dessa forma, seria impossível não transmitir para sua escrita a realidade em que vive. Assim, mesmo que involuntariamente, ao recriar os problemas sociais em suas obras infantis e juvenis, ela proporciona ao leitor reflexões críticas acerca da meio social em que está inserido, ao mesmo tempo em que, ao fazer a criança de identificar com a narrativa, no sentido das “dificuldades de crianças” – que seriam as disputas por jogos, desejos por determinados brinquedos, conflitos de amizade, etc. - a autora auxilia seu leitor a lidar com essas dificuldades, observando os acontecimentos por perspectivas diferentes – no caso, as perspectivas da narrativa, do personagem (por meio do diário) e do próprio leitor. Assim, ressaltamos a afirmação de Cadermatori (1994):

“[...] a literatura infantil se configura não só como instrumento de formação conceitual, mas também de emancipação da manipulação da sociedade. Se a dependência infantil e a ausência de um padrão inato de comportamento são questões que se interpenetram, configurando a posição da criança na relação com o adulto, a literatura surge como um meio de superação da dependência e da carência por possibilitar a reformulação de conceitos e a autonomia do pensamento.”

Assim, a literatura infantil ultrapassa a simples perspectiva de “servir para criar o hábito de ler”, e atinge aspectos mais amplos, como interventora na produção do conhecimento e de um olhar mais crítico por parte da criança para o mundo à sua volta.
Sugerimos a leitura da história na íntegra, clicando aqui.
Se preferir, pode-se assistir ao vídeo narrando a história.

BIBLIOGRAFIA

HECK, Diana Milena; Nath-Braga, Margarete A. (Orientadora); Ruth Rocha: Um viés crítico de escritura - artigo publicado 08/10/2010- Cascavel-Pr, UNIOESTE. Disponível em:

CADEMARTORI, L. O que é literatura infantil?  6.ed.  São Paulo : Brasiliense, 1994. IN BASSO; C.M. a literatura infantil nos primeiros anos escolares e a pedagogia de projetos. Disponível em: http://coral.ufsm.br/lec/02_01/CintiaLC6.htm

ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. São Paulo: LIS Gráfica e Editora LTDA, 1976.

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Teresinha e Gabriela: as (in)diferenças na construção de uma amizade



 
A história de Teresinha e Gabriela foi lançada em 1976, pela editora Salamandra/SP, sendo a segunda de três histórias publicadas no livro: Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias.

Ruth Rocha em “Teresinha e Gabriela”

 
            A narrativa

A história fala sobre uma menina que se chamava Gabriela que em sua escola todas as crianças queriam brincar com ela. Até que um dia uma menina chamada Teresinha mudou-se para a sua rua.
Teresinha era completamente diferente de Gabriela, ela era loirinha, bonitinha, arrumadinha, usava vestido e era estudiosa enquanto Gabriela usava rabo- de cavalo no cabelo, era encapetada, sabia pular cordas e usava calças compridas.     
Gabriela começou a ter ciúmes de Teresinha, pois ela era arrumadinha e todos seus amigos só falavam dela. Por esse motivo, Gabriela menosprezava Teresinha antes mesmo de conhecê-la, pois essa só queria estudar, nem sabia correr e  não sujava  o vestido. Porém, Gabriela começou a mudar de comportamento ficando muito parecida com a Teresinha, tanto que até durante o recreio ela ficava fazendo tricô e, ao mesmo tempo, em contrapartida, Teresinha também mudava seu comportamento, ficando muito parecida com Gabriela. Quando as duas se viram pela primeira vez começaram a rir porque estavam mesmo engraçadas, se tornaram amigas e aprenderam muito uma com a outra.
 

 Algumas considerações
 

Nesta história, podemos notar que, além da arte, temos também o caráter utilitário da obra, ou seja, o caráter pedagógico. De uma forma bastante divertida e valendo-se de uma linguagem fácil e muitas ilustrações, Ruth Rocha aborda a temática das diferenças entre as pessoas. Nesse caso, a "moral", ou seja, o aprendizado que se pretende passar para as crianças é de que pessoas diferentes também podem ser amigas e que, além disso, pessoas diferentes podem aprender muito uma com a outra, exatamente por serem diferentes. Também podemos pensar que a autora aborda a questão do preconceito, pois as duas protagonistas, apesar de se conhecerem apenas pelo o que os amigos falavam para elas uma da outra, já não se gostavam.

"Acreditamos que boa parte da empatia, quase mágica, que o texto dessa autora estabelece com o leitor, origina-se em dois elementos chave. Em primeiro lugar, na linguagem utilizada, que é solta, coloquial, desprovida de artificialismos, muito próxima à do leitor, estabelecendo, por isso mesmo, um clima de cumplicidade entre narrador e ouvinte. Em segundo lugar, no olhar crítico com que a autora analisa e descreve situações e personagens, convidando o leitor a, ele mesmo também, analisar, criticar, julgar os fatos, numa postura mudancista, que rejeita o estabelecido e aposta no novo".(SILVA,2008, p.184).

Outro aspecto que também nos chama atenção nesta obra é a indagação que a autora faz para o seu leitor no final da história: “Você acha que foi bom ou que foi ruim Terezinha e Gabriela ficarem amigas?” o que a nosso ver é muito importante, pois a autora leva a criança leitora realizar uma reflexão.
 
Por ser uma história lançada em 1976, podemos nos atentar também para a descrição feita da personagem Teresinha: “Teresinha loirinha, bonitinha, arrumadinha. Teresinha estudiosa, vestida de cor-de-rosa”, que pode nos sugerir, por meio da figura de Teresinha, um discurso dos padrões que a sociedade da época esperava que as garotas seguissem - sempre arrumadinhas, quietinhas.

Para encerrar

Podemos concluir assim que a história de Teresinha e Gabriela transfere para seus leitores, por meio das palavras de Ruth Rocha, a conscientização de que não podemos ter um preconceito de uma pessoa só por aquilo que escutamos falar dela e, além disso, quando nos  aproximamos de pessoas com modos diferentes de viver do nosso, podemos ter um grande crescimento pessoal , pois é por meio das diferenças que aprendemos uns com os outros.

 
O vídeo a seguir, traz a história de Teresinha e Gabriela narrada e ilustrada. 
Vale a pena assistir.




BIBLIOGRAFIA:

SILVA, Vera Maria T. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores e promotores de leitura. Goiânia: Cânone Editorial, 2008, p.183-200.

ROCHA, R. Marcelo, Marmelo, Martelo e outras histórias. 
Disponível em: http://www.unilago.com.br/download/arquivos/20996/[Infantil]_Ruth_Rocha_-_Marcelo_Marmelo_Martelo.pdf 

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A verdade e a mentira na obra "Alvinho, a apresentadora de tv e o campeão", de Ruth Rocha

Para resumir a história...

O livro Alvinho, a apresentadora de tv e o campeão”, de Ruth Rocha, lançado em 1995, narra a história de um menino, chamado Alvinho, que conta muita mentiras. Na história, o personagem mente o tempo todo para sua mãe Dona Branca, para o pai, senhor Brigagão e para a professora, Dona Brites. Toda vez que ele se mete em apuros, inventa uma mentirinha. Num belo dia, Alvinho ficou vendo o campeonato de botão na escola e esqueceu-se da hora do almoço. Ao chegar em casa, sua mãe já estava zangada, então ele inventou que um furacão havia passado pela escola, dona Branca, que não era boba, começou a interrogá-lo. Para piorar, ele completou que o furacão era um bandido que gostava de furar e maltratar cachorros, por isso recebeu este nome. A mentira não colou e dona Branca ficou decepcionada mais uma vez com Alvinho.
No dia seguinte, ele chegou atrasado a escola, pois ficou vendo tv e perdeu a hora da aula. Como de costume inventou mais uma mentira para se safar, disse à professora que uma pedra enormíssima que estava no meio do caminho não o deixou passar. Dona Brites não acreditou, então Alvinho disse que era um bicho, de nada adiantou, mais uma vez passou por mentiroso.  Na saída da escola, enquanto esperava pelo ônibus passou um carro que abriu a janela e jogou um pacote. Curioso, Alvinho pegou o pacote, o abriu e percebeu que ele continha uma quantia em dinheiro. 
Mais do que depressa correu atrás do carro e devolveu o dinheiro. Para sua surpresa, quem estava dentro do carro era uma linda apresentadora de tv e o campeão mundial. Em agradecimento, os dois levaram Alvinho para conhecer Interlagos e depois lanchar. Em seguida deixaram-no em casa e prometeram voltar outro dia. Ao entrar em casa o menino levou uma bronca, pois mais uma vez chegou atrasado, além disso, a família estava desesperada com seu sumiço.
A esta altura da narrativa algo inesperado acontece, Ruth Rocha entra em cena e decide optar por dois finais para a história, no primeiro final Alvinho continua mentindo para seus pais.

Puxa vida, pai, eu esqueci da hora, fiquei assistindo à final do campeonato de pingue-pongue...

No segundo final ele relata a verdade para os pais sobre o pacote de dinheiro e o passeio com a apresentadora de tv e o campeão mundial, mas eles não acreditam em Alvinho, como penalidade seu Brigagão e Dona Branca colocam-no de castigo.
 
O pai resolveu:
-  Um mês sem videogame.
A mãe completou:
- Um mês sem refrigerante!
Geralda muito xereta, também palpitou:
- Um mês sem batata frita...
O pai continuou:
- Um mês sem televisão!
- A mãe completou:
- Um mês sem jogar jogo de botão.

De repente a campainha toca e aparece a apresentadora de tv e o campeão mundial com vários presentes, todos ficam boquiabertos, pois Alvinho estava dizendo a verdade.
 Este final diferencia-se um pouco das obras infantis tradicionais, pois não apresenta um final pronto. O narrador, após descrever a cena dos pais de Alvinho bravos e preocupados, entra em cena nas páginas finais e conversa com o leitor propondo finais diversificados para história, ou melhor, é o leitor que decide o melhor final para enredo. Assim, Ruth Rocha, ao escrever esta história, proporciona tanto aos pais quanto aos professores trabalharem uma das regras de conduta social, ou seja, o certo e o errado.
O livro “Alvinho, a apresentadora de tv e o campeão” faz parte da coleção “As aventuras de Alvinho” e é ideal para trabalhar a discussão sobre a “mentira e a verdade”, principalmente no período da infância, quando a criança inicia o primeiro ciclo escolar, entre 5 e 6 anos de idade e não consegue discernir o certo e o errado. A literatura infantil contribui para esse desenvolvimento da criança enquanto ser pensante e cidadão.

Para começar a conversa...

Conforme Coelho (2000. p. 27) “a literatura infantil, é antes de tudo, literatura, ou melhor; é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra”. A criança ao ter contato com a literatura infantil nos primeiros anos escolares dialoga com inúmeras situações e aventuras que estão ligadas ao seu cotidiano. Conforme Lajolo e Zilberman:

(...) Através das várias situações e aventuras, vão se desenvolvendo amor à pátria, sentimento de família, noções de obediência, práticas das virtudes civis. São crianças modelares, cuja presença nos livros parece cumprir a função de contagiar de iguais virtudes e sentimentos seus jovens leitores (Lajolo; Zilberman, 1999, p.33).
 
Por meio das histórias a criança além de se transportar para o mundo da fantasia também aprende algumas lições que são primordiais para o seu desenvolvimento social, psíquico e intelectual. Ruth Rocha, de forma lúdica e engraçada coloca em discussão o ato de mentir e como isso pode sair do controle e causar sérias consequências. No caso do protagonista “Alvinho” a consequência é a falta de confiança dos pais e pessoas próximas, pois ele é considerado o rei da mentira.  Conforme o trecho abaixo:

O alvinho andava muito mentiroso...
A mãe reclamava, a professora implicava e o pai, seu Brigagão, já estava ficando furioso:
- Olha aqui, Alvinho. Da próxima vez que eu pegar você mentindo vou lhe dar um castigo que você nunca mais vai esquecer...

Além disso, a obra desenvolve um caráter pedagógico ou utilitário, que pode ser notado através da linguagem empregada (simples), as imagens (que preenchem a maior parte do livro), os personagens (pai, mãe e professora) marcados no diálogo com o protagonista “Alvinho” e a ambientação (a casa e sala de aula). Porém, a narrativa não apresenta o “maravilhoso” típico dos contos de fadas, isto é, os seres sobrenaturais como fadas, bruxas, dragões entre outros, mas fatos contemporâneos e atuais características das obras de Ruth Rocha.  A autora ao desenvolver a temática sobre a mentira e a verdade permite a criança a sua emancipação enquanto ser no mundo, uma vez que a criança passa a refletir e formular suas próprias hipóteses, consequentemente enriquecendo sua aprendizagem e proporcionando, desta forma, a assimilação dos valores da sociedade. Percebemos que a linha de pensamento de Rocha, em suas obras, não impõe à criança a lei do mais forte ou o pensamento do adulto, mas a reflexão diante das situações que vivencia, seja no âmbito familiar ou escolar.

Leia a história na íntegra aqui.

Segue abaixo sugestões de leitura.
Coleção “As aventuras de Alvinho”, boa leitura!
                                        

BIBLIOGRAFIA

COELHO, NELLY NOVAES. Literatura Infantil: teoria, análise e didática. São Paulo: Ática Moderna, 2000.
LAJOLO, MARISA E ZILBERMAN, REGINA. Literatura Infantil Brasileira. História &história. São Paulo: Ática, 1999.
ROCHA, RUTH. Alvinho, a apresentadora de tv e o campeão/Ruth Rocha; Ilustração Ivan Zigg. – 4. ed. – São Paulo: FTD, 1999.

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