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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tic-Tac... Tic-Tac...- Passa o tempo, mas a poesia de Vinícius permanece!


Por meio da união de sons, ritmos e harmonias e utilizando-se de vocábulos essencialmente metafóricos, a poesia é a forma de expressão linguística designada a evocar sensações, impressões e emoções. É também um gênero quase natural para a infância, pois ao contrário do que imaginamos, as metáforas e estruturas heterodoxas utilizadas nos poemas nada mais são que brincadeiras com palavras e sentidos.
 
Na Língua Portuguesa, os aspectos estilísticos (fônicos, lexicais, sintáticos e mórficos) fazem toda a diferença na interpretação dos poemas e o que diferencia um autor do outro é justamente a maneira como escreve, tornando esse estilo a sua marca registrada.
 
O Relógio é um dos poemas que faz parte do livro de poemas infantis A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes, lançado em 1970.  Ao escrever, o poeta do amor e da sensualidade profunda, reencontra a ingenuidade e a ludicidade próprias das crianças:

 

O Relógio

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu ti-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac...
           

Observamos nesse poema a Onomatopeia “tic-tac”, utilizado para dar ritmo e efeito sonoro de brincadeira ao poema. Além de reproduzir o mais próximo possível o som do relógio, esse recurso expressivo, o mais utilizado nas poesias infantis, concentra melodia e ritmo, reproduzindo um efeito todo especial. As palavras ao longo do texto relacionam-se ao próprio título do poema e o contraste é próprio do tempo que se encontra em constante movimento.
 
Esse poema encontra-se disponível em livros didáticos e na Internet, em formato de texto ou animação, o que facilita a leitura e ultilização do mesmo nas salas de aula com as séries iniciais e Ensino Fundamental. Foi apresentado em determinado episódio do programa infantil de televisão Castelo Rá-Tim-Bum, produzido e transmitido pela TV Cultura e direcionado ao público infanto-juvenil por possuir uma abordagem totalmente pedagógica.



 

GT1 - Poesia Infantil

domingo, 20 de novembro de 2011

Vinicius de Moraes

A Arca de Noé

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

E abre-se a porta da arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca.

Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.

Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: “Boa terra
Para plantar minhas vinhas!”

E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.

E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.

Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora as cabeças botam.

Grita a arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.

A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.

Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pêlo
Pela terra prometida.

"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre - "Não!"

Afinal com muito custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista...

Na serra o arco-íris se esvai...
E... desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória.

Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.

Biografia

Marcus Vinicius da Cruz Mello Moraes, conhecido popularmente como Vinicius de Moraes, nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Interessava-se por música e literatura desde a infância, provavelmente influenciado pelo constante contato com tais artes, pois seus pais eram músicos amadores e, além disso, seu pai era poeta. 
Estudou numa escola de padres – Santo Inácio – e aí formou-se em Letras. Bacharelou-se em Direito – Faculdade do Catete -, em 1933. No ano de 1938, ganhou uma bolsa para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, da qual retorna em 1939.
Esse consagrado artista brasileiro tinha inúmeros talentos: era poeta, compositor, dramaturgo, jornalista e foi também diplomata. Deixou uma extensa obra, principalmente na literatura e na música brasileiras. No cenário musical fez diversas parcerias famosas com Tom Jobim, Toquinho, João Gilberto e Chico Buarque. 
Vinicius de Moraes, era um exímio apaixonado, casou-se oito vezes: em 1939, com Beatriz Azevedo de Mello, com quem teve dois filhos (Suzana e Pedro); em 1951, com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli com quem teve duas filhas (Georgiana e Luciana); em 1958, com Maria Lúcia Proença; em 1961, com Nelita Abreu Rocha; com Cristina Gurjão, em 1969; com a atriz Gesse Gessy, em 1971, com a qual tem uma filha (Maria); com Marta Rodrigues Santamaria, em 1976; e, finalmente com Gilda de Queirós Mattoso em 1978, com quem permaneceu até a morte por edema pulmonar, em 1980.
 No ano de seu falecimento foi produzido e exibido o Musical A arca de Noé pela Rede Globo, inspirado no livro homônimo, muito famoso, que é direcionado para o público infantil.

Em parceria com Toquinho, fez compôs uma música que ficou marcada na memória dos brasileiros, pois foi usada no comercial (em diversos anos diferentes) do lápis de cor da marca Faber Castell.




Referências


MORAES, Vinicius. A Arca de Noé: poemas infantis. 14.ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.
http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/10918

postado por GT6 - Autores Consagrados na Literatura Infantil

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Casa - Vinícius de Moraes


Era uma casa
muito engraçada                                            
Não tinha teto,
não tinha nada                            
Ninguém podia
entrar nela, não                         
Porque na casa
não tinha chão                           
Ninguém podia
dormir na rede                           
Porque na casa
não tinha parede                        
Ninguém podia
fazer pipi                                   
Porque penico 
não tinha ali                              
Mas era feita
com muito esmero                       
Na rua dos bobos
número zero.                              



Sobre o autor: 

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, foi dramaturgo, poeta, diplomata, jornalista e compositor. Se tornou conhecido por suas músicas: "garota de Ipanema" e o "poetinha". Já na poesia foi eternizado com o poema "soneto de fidelidade":

"Que não seja imortal, posto que é chama  
mas que seja infinito enquanto dure."
 
O poema "A casa" foi adaptado para a música e, desde então, os leitores deixaram de reconhecê-lo como poema e passaram a recordar mais como música. 
 
Esse poema descreve a casa e, ao mesmo tempo, desconstroi sua imagem, dessa forma, o leitor passa a refletir sobre a existência desse referente no mundo. Essa característica imagética é ainda mais acentuada nas possibilidades de interpretação dos versos de 4 sílabas:

1- E - ra u - ma - CA (sa)

2- e - RA U - ma - CA (sa)

1- MUI - to en - gra - ÇA (da)

2- mui - TO EN - gra - ÇA (da)

Essa dupla possibilidade de leitura dos versos mostra uma tensão rítmica relacionada com o sentido: É ou não uma casa? E ainda: "engraçada" é a que faz rir?  

Confira o vídeo que ilustra a poesia:

 

Grupo 3: Poesia Infantil