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domingo, 22 de setembro de 2013

Irmãos Grimm: excelência e pioneirismo

Nascidos em Hanau, Jacob Grimm em 1785 e Wilhelm Grimm em 1786, os irmãos Grimm são “contadores de histórias”. Sua obra  (escreveram mais de uma centena de contos) são reconhecidos no mundo pela excelência de  escrita e pela importância da pesquisa folclórica, que resgatou inúmeras histórias da cultura popular.
 
De infância boa, os irmãos Grimm não passaram necessidades, apesar de terem perdido o pai quando ainda tinham onze anos de idade. E como o pai, estudaram direito, mas não seguiram carreira, pois largaram a faculdade para se dedicaram a literatura.
 
Como sabiam que os primeiros povos transmitiam suas histórias oralmente, resolveram escrevê-las. Registrar fazia parte da ideia inicial deles, assim se preservava a cultura do povo alemão. Além de redigir contos pulares e mitos antigos, o que trouxe um campo de investigação desconhecido para a época, escreveram várias obras, e marcaram história, até DICIONÁRIO ALEMÃO eles escreveram. Acreditavam que com este trabalho não somente valorizavam  a cultura do seu povo, mas também contribuíam decisivamente para a construção de uma cultura e identidade nacionais necessárias à consolidação da jovem nação alemã, que estava surgindo da união de diferentes etnias e Estados. Mitologia e Gramática também estão em suas obras e concorrem igualmente para o projeto nacionalista de consolidação do novo Estado alemão. Sobre a obras deles e o projeto político que a orienta, leia-se o artigo Os irmãos Grimm, entre romantismo, historicismo e folclorística, de Sérgio da Mata (UFOP) e Giuelle Vieira da Mata (UFMG).

 

Em 1812, os primeiros contos dos Grimm foram publicados levando o nome de “Histórias das Crianças e do Lar”, totalizando 51 histórias. Daí por diante ficaram mais famosos esses contos, e sua popularidade cresceu, no mundo todo. Inclusive tiveram várias outras versões baseadas nessas primeiras histórias de Jacob e Wilhelm Grimm, que tinham como característica, uma linguagem de fácil entendimento.

A princípio essas histórias coletadas não eram infantis e nem foram coletadas com o objetivo de serem direcionadas às crianças como literatura infantil, mas ao fazê-lo, os irmãos as adaptaram para uma narrativa mais suave, simples e com uma linguagem fácil, afinal crianças ouviriam essas histórias.

As histórias relatadas, que eram passadas de geração em geração, e coletadas pelos irmãos Grimm, tinham propósito de entreter adultos, e alguns dos seus finais eram trágicos, o que não poderia se adequava ao público infantil.
fontes virtuais:
 
GT 2

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Literatura, cidadania e meio ambiente: a literatura paradidática e o politicamente correto



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A coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”
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A coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, publicada pela Brasil Cultural, reúne oito livros paradidáticos que abordam histórias ligadas à cidadania e meio ambiente. Integra o projeto “Ler, conviver e aprender”, que se propõe a “estimular e desenvolver o prazer pela leitura” e “fortalecer o contato familiar”, segundo consta no site oficial da Brasil Cultural (2013). O site também disponibiliza uma sinopse de cada livro, apresentando a relação da história com o meio ambiente:
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O primeiro livro apresentado, Bafo de onça não quero, não!, aborda uma excursão escolar ao zoológico, quando dois amigos se surpreendem com o fato de que também os animais precisam de higiene bucal. O segundo livro, Cidadania a gente aprende, conta a história de dois amigos, João e Maria, que têm a oportunidade de exercer a cidadania, tendo como ponto de partida a arborização urbana. O terceiro exemplar, Não vem com essa, tô fora, trata da conscientização sobre os danos das drogas na vida das pessoas e na sociedade.
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Em A fada d’água, a garota Lívia faz uma viagem pelo mundo da fantasia e percorre todas as etapas do tratamento da água. Na história Lixo em lugar certo, o garoto Guilherme vive uma experiência comparativa entre passado e presente que o leva a pensar sobre o destino do lixo e as implicações ao meio ambiente. Já Maria Clara e o indiozinho Caruana são as personagens centrais do livro Amigos do meio ambiente. Em experiências conjuntas, os dois conhecem um a cultura do outro para aprender a cuidar do meio ambiente.
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Os dois últimos livros tocam em assuntos que também têm se destacado na educação escolar. Princesa Margareth retrata uma menina amável, tratada como princesa no ambiente familiar, mas que é vítima de bullying na escola. E, por fim, A turma da Naty contra a Denguemur focaliza ações coletivas que podem ser somadas às do poder público na luta contra a dengue.
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Trata-se, de fato, de uma coleção de livros paradidáticos que se constituem na relação com o literário, reunindo o ficcional e o ilustrativo, explorando cores e imagens. 
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Entre o paradidático e o literário



     Antes de discutirmos sobre a proposta ambiental presente na coleção “Criança consciente”, entendemos que, em se tratando de livro paradidático, precisamos, antes, discutir o que é a que se propõe esse tipo de material e que relações são possíveis de se estabelecer com a literatura.

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Ricardo José Duff Azevedo, escritor, ilustrador e doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo, no artigo intitulado “Livros para crianças e literatura infantil: convergência e dissonâncias”, publicado em 1999 e disponibilizado no site pessoal do autor, traz um levantamento dos tipos de livros encontrados em prateleiras de livrarias e direcionados a crianças: livros didáticos; livros paradidáticos; livros-jogo; livros de imagem; CD-rom; livros de literatura infantil.
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Nosso interesse está voltado à compreensão do paradidático e do que se compreende por literatura infantil. Quanto aos livros paradidáticos, Azevedo (1999, p. 2) observa que se tratam, assim como os didáticos, de um material essencialmente utilitário, reunindo informações objetivas para transmissão de “conhecimento e informação”. “Em geral, abordam assuntos paralelos, ligados às matérias do currículo regular, de forma a complementar os livros didáticos”. Em síntese, os temas focalizados pelos livros paradidáticos compreendem preservação do meio ambiente, educação sexual, prevenção de doenças, amor à natureza, características da vida no campo e na cidade, cidadania, prevenção contra uso de drogas, entre outros.
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Curiosamente, assim como os livros didáticos, os paradidáticos requerem atualização periódica, conforme esclarece o autor, pois tratam de assuntos pontuais, atuais, que se modificam com o passar do tempo. Como exemplo, podemos citar a dengue. O assunto passa a ser foco dos livros paradidáticos porque se trata de um problema em vigência. Se deixa de existir, de certa forma, perde o interesse utilitarista.
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Quanto à literatura infantil propriamente dita, Azevedo (1999, p. 5) explica que não tem a pretensão de defini-la, considerando que se trata de um assunto que dá margem a opiniões e explicações de teorias diversas. Contudo, considera ser possível afirmar que a literatura, “em termos, é uma arte (em oposição à ciência) feita de palavras”. Sempre recorre à ficção, caso contrário seria registro histórico, reportagem ou mesmo biografia, entre outros. Há, também, motivação estética, isto é, “em princípio não tem utilidade fora buscar o belo, o poético, o lúdico e o prazer do leitor”; não é, portanto, utilitária. Vincula-se à subjetividade, ao inesperado. Costuma ser ambígua, podendo brincar com as palavras e mesmo inventá-las, sem aprisionamentos à norma culta da língua.
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Interessante é que, pensando em literatura nacional para crianças, a perspectiva utilitarista já se faz inscrita de forma imbricada ao literário desde o início. Segundo Azevedo (1999), a obra de Monteiro Lobato, como fundadora, de certa forma, da moderna literatura voltada a crianças, reúne, ao mesmo tempo, aspectos do mágico, do original e do ficcional e uma perspectiva utilitarista, recorrendo, também, à intenção pedagógica. O autor se refere a isso como uma espécie de hibridismo entre o literário e o utilitarista/pedagógico. Com base na discussão aqui apresentada é que buscamos observar analiticamente a relação possível entre literatura e meio ambiente em livros paradidáticos da coleção “Criança consciente”.  

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O discurso do "ecologicamente correto"
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Pelas temáticas distribuídas entre os oito exemplares da coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, observamos, justamente, a presença de temas apontados por Azevedo (1999) como sendo geralmente focalizados pelos livros paradidáticos: preservação do meio ambiente, prevenção de doenças, amor à natureza, cidadania, prevenção contra uso de drogas, entre outros.
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Para fins de uma proposição analítica, focalizamos quatro desses oito livros que mais diretamente se relacionam com questões vinculadas ao meio ambiente: “Amigos do meio ambiente”, “Lixo tem lugar certo!”, “A fada d´água” e “A turma da Naty contra Denguemur”.  Os três primeiros de autoria de Denise Telles e o último de Eduardo Bento. “Amigos do meio ambiente” é ilustrado por Betina de Holanda, Salatiel de Holanda e Salu dos Santos. Marco Cortez faz a ilustração de “Lixo tem lugar certo!” e Betina de Holanda é a ilustradora de “A fada d’água” e “A turma da Naty contra Denguemur”.
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            Objetivando discutir como se dá a relação entre literatura e meio ambiente nesses livros, partimos de uma perspectiva de análise materialista do discurso, de vertente francesa. Esclarecemos, contudo, que a discussão aqui apresentada não se configura em interpretações provenientes, propriamente, de uma análise discursiva, mas são tateamentos iniciais de um percurso analítico, que pode auxiliar olhares outros para o material, ao menos geradores de incômodos e novas problematizações de lugares/sentidos estabilizados. 
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Ao considerarmos as condições de produção dos livros, o paradidático emerge como condição requerida para se pensar a relação entre formulação e funcionamento discursivo. Isso significa que não se pode desconsiderar que, frente às condições de produção de livros do gênero paradidático, está inscrito em sua constituição o princípio utilitarista e educativo padrão de moldar comportamentos tidos como “adequados” e “desejados” para a formação de um modelo padrão de  “cidadão”.
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No primeiro contato com a coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, o incômodo inicial surgiu da sustentação, pelo título, de sentidos estabilizados, como se fossem óbvios, transparentes. Referimo-nos aos termos “consciente” e “mundo melhor”, que aparecem no título e subtítulo da coleção. A naturalização desses termos, na relação com o meio ambiente e a educação, ocorre devido ao não questionamento sobre o que é ser consciente: ser consciente em relação a que, para que, para quem e em que lugar e situação social? O mesmo ocorre com relação à ideia do que seja um “mundo melhor”. Se é “melhor”, não há, como efeito, por que se questionar. Propõe-se apenas a adesão à “luta”; não se interroga o que é um “mundo melhor”. Melhor em relação a que, para que, para quem, sob qual ponto de vista?  Portanto, enunciar “criança consciente” e “mundo melhor” é positivar um lugar de defesa do mundo pela educação/formação de crianças supostamente comprometidas com esse mundo a vir a ser. Em termos mercadológicos, funciona a perspectiva do vendável, justamente ao se interditar a questionabilidade do maniqueísmo aí vigente: consciente X sem consciência; melhor X pior.
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O problema é que a ideia de “criança consciente” em relação ao meio ambiente e à cidadania, que tem sido propagada no e pelo discurso pedagógico, e que tende a se fazer presente nos materiais didáticos, paradidáticos e paradidáticos literários, se sustenta na propagação do discurso “ecologicamente correto” e do “discurso cidadão”, como espécies de tipologias discursivas. Daí que o foco é para o resultado (como produto) de “ser consciente” e do apagamento do processo necessário para a elaboração crítica da ideia do que seja consciência ou um mundo melhor.
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Exemplificando: Certa vez um menino de oito anos estava para atravessar a rua acompanhado da mãe. Então ele disse a ela que para atravessar a rua precisariam passar pela faixa de pedestre. A questão é que, nas proximidades, não havia faixa de pedestre. Então a mãe explicou isso ao menino e esclareceu como fariam para atravessar de forma segura, na ausência da faixa. O menino se recusou a atravessar, chorou, fez birra, e queria de toda forma fazer a mãe caminhar até que pudessem encontrar uma faixa de pedestre, alegando que a professora havia dito que não poderiam atravessar a rua fora da faixa. Então a mãe perguntou ao menino se a professora havia explicado sobre como proceder na ausência de faixas, e que a cidade, em sua (des)organização urbana, apresenta deficiências estruturais, que deveriam ser de responsabilidade do poder público. Também, perguntou ao filho se a professora discutia tais deficiências, e como, então, eles poderiam pensar essas questões. A criança, perdida, só conseguia voltar à ideia da proibição: É proibido porque é proibido. Ponto. Ou seja, todos os porquês estavam silenciados pelo “faça isso, que é a coisa certa, e ponto final”. Trata-se de um exemplo, de fato corriqueiro, que vem para ilustrar o que estamos chamando de visibilizar o produto e apagar o processo, ou seja, simplesmente tomar a ideia de consciência como algo cristalizado, inquestionável, assim como reproduzir a ideia de “mundo melhor”, utopicamente sustentado.
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Como afirma Orlandi (2001, p. 167), “a melhor maneira de preservar é construir condições para a preservação. E isto não se faz só com palavras de efeito [como criança consciente e mundo melhor, por exemplo], se faz construindo condições materiais básicas. Em consequência, a preservação viria por si”. Para ela, o que se tem feito é praticar “o discurso ecológico da irresponsabilidade”, no sentido de que “se fala na responsabilidade do indivíduo na falta de responsabilidade social do Estado”. E isso se põe na relação com o discurso da cidadania, que se apresenta, nele, como algo sempre a vir a ser. Contudo, ainda segundo a autora, “numa República já nascemos cidadãos. Não é preciso, pois, reivindicar a cidadania. Já a temos por direito. Qualificar cidadãos é tarefa do Estado e se ele não cumpre só podemos reivindicar qualificação se, no real de nossa história, esse sentido já tiver sido posto”.
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Orlandi (2001, p. 175) chama a atenção para o fato de que
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as leis que se discutem quando se trata do meio ambiente, se pensamos um ser histórico e simbólico, não são leis da natureza mas leis sobre a natureza a serem elaboradas e praticadas. É preciso além disso produzir um discurso que não se sustente apenas no que já é conquista do saber e da racionalidade, mas admita também a irracionalidade, a relação da sociedade com a história (nem sempre possível) e com o político e, principalmente, com o imaginário que rege as relações com o real e com o que faz sentido.
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            Considerando essa ideia de discurso “ecologicamente correto”, tomado como bandeira pela escola, especificamente quanto aos quatro livros tomados para tratamento analítico-discursivo, observamos que, na condição (e lugar) de livros paradidáticos, eles não têm como não ser utilitaristas e cristalizadores de sentidos. Embora, por si, tais livros não sejam literatura, recorrem a ela para cumprir sua eficácia utilitarista e pedagógica instrucional. E tal recorrência se faz calcada em personagens clássicas/estereotipadas da literatura, como a fada (A fada d’água), o vilão e o super-herói (A turma da Naty contra Denguemur).
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            Apenas em termos paradidáticos, os livros fogem, de certa forma, a representações totalmente estereotipadas na condução do enredo e à forma como tais personagens são retratadas. Em Amigos do meio ambiente, o indiozinho Caruana é filho de um professor universitário que coordena um projeto de preservação das matas ao redor dos rios e está se instalando na cidade. Foge, no sentido de que o índio não é posto como mero objeto de estudo, mas está ao lado de quem é apresentado como detentor do conhecimento científico, no caso, seu pai, professor-pesquisador, no contexto urbano. Também se trabalha a ideia de que o conhecimento geográfico da aldeia onde o indiozinho morava não é extensivo, de antemão, a outras áreas. O que problematiza a ideia de que índio e natureza seriam uma e a mesma coisa.  Trabalha-se, ainda, uma proposta de diversidade cultural e de valorização de especificidades culturais, além do intercâmbio entre culturas.
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Discursivamente, contudo, sustenta-se a ideia da autoridade acadêmico-científica regulatória das ações de preservação ambiental. Retrata-se o professor universitário, o projeto universitário de preservação, o tratamento de doutor a um pesquisador nomeado por cientista, o domínio do conhecimento sistematizado, a experiência em campo, a organização de campanhas de “conscientização”, mobilizadas por crianças, para divulgar a necessidade de preservação ambiental e a ideia de cidade em “perfeita harmonia com o meio ambiente”, enunciada ao final do livro. Isso tudo sinaliza que o foco é para questões pontuais do cotidiano, que se apresentam como responsabilidade da escola no sentido de instruir, orientar, “conscientizar”, e de responsabilidade da criança, a quem cabe seguir as orientações, no campo de inquestionabilidade, apresentadas pelas autoridades científicas/educacionais.
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Em Lixo tem lugar certo! aparece novamente a figura da professora. Há ficção, mas sempre girando em prol do educativo com fins utilitaristas. No caso da história A turma da Naty contra Denguemur, a dengue, como o mal ameaçador da sociedade, materializa-se na personagem vilã, Denguemur. O literário está na construção da história ficcional, calcada na disputa entre o bem e o mal, e na luta para se vencer o inimigo, embora preso a uma luta real, de fato, da sociedade contra o mosquito da dengue e sua proliferação. Ao final do livro, sob o título “Saiba mais”, como se fosse um almanaque, apresentam-se textos que explicam o que é a dengue, os tipos da doença, quem é o mosquito, como se proteger contra a dengue, além de curiosidades. A fada d’água também recorre ao mundo ficcional, centrado na figura da fada. A história traz a fantasia de viajar na e pela imaginação dos contos de fada. Contudo, mantém-se a finalidade instrutiva, de preservação do meio ambiente pelo não desperdício de água.
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A questão que se impõe frente ao funcionamento e aos efeitos desses livros é justamente como trabalhar com esse material, numa perspectiva literária, a ponto de não ser reducionista e ficar apenas preso a frases feitas, meramente decorativas, ou visões estereotipadas de educação ambiental e “consciência” ambiental, assim como de “literatura ambiental” funcionalista. Antes, requer-se entender que, frente às suas condições de produção, tais livros são paradidáticos. Dialogam com a literatura, mas não se propõem a ser literários. E isso, por si, já faz toda a diferença. Mas é possível criar outras histórias, com os alunos, a partir dessas, em que o literário advenha como elemento central, retirando o peso utilitarista e forçosamente pedagógico. Pensamos que, do lugar literário, da imaginação, da relação com o simbólico, o pedagógico se instaura como processo, não se reduzindo a função. Além disso, é mais propriamente pelo imagético, no caso dos livros da coleção, que as histórias se abrem ao literário, pois, nesse caso específico, não estão presas, propriamente, ao instrucional.
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Orlandi (2012, p. 144-155) esclarece que “um enunciado pode ter muitas versões, e nelas, os sentidos não são os mesmos”. Ao propor uma inversão do enunciado “O futuro dos recursos” para “Os recursos do futuro”, ela explica que, na primeira formulação “pressupõem-se que temos estes recursos e nos debruçamos sobre a vontade de mantê-los, expandindo-os ou sobre a ameaça de perdê-los”, enquanto na segunda formulação, parafrasticamente proposta por ela, admite-se “o não sabido, o não existente e o que poderá vir a existir”. Para ela, não determinamos o futuro mobilizados por nossas vontades, mas há como “refletir sobre o que temos e deixar aberta a porta do que se pode passar entre o irrealizado e o possível”.


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REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Ricardo. Livros para crianças e literatura infantil: convergência e dissonâncias.Disponível em: http://www.ricardoazevedo.com.br/wp/wp-content/uploads/Livros-para-criancas-e-literatura-infantil.pdf. Acesso em: 8 set. 2013.
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ORLANDI, Eni Puccinelli. A textualização política do discurso sobre a Terra. In: ______. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001. p. 163-177.
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______. Os recursos do futuro. In: ______Discurso em análise: sujeito, sentido, ideologia. Campinas: Pontes, 2012. p. 143-150.
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GT 4 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A reconstrução da personagem feminina no conto "História de Dona Baratinha"

O conto História da Dona Baratinha é um conto popular português que faz parte da tradição oral. Ele foi publicado pela primeira vez em 1890 com o título original História da Carochinha  pelo linguista e pedagogo português Adolfo Coelho, que recolheu e transcreveu diversos contos portugueses tradicionais.  Em 1896, o jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel publica no Brasil, pela Livraria do Povo de Pedro Silva Quaresma, a coletânea Os contos da Carochinha, reunindo 61 contos, entre eles o conto intitulado História da Dona Baratinha.
 
 A publicação deste livro  é um marco para a literatura infantil, dado que  antes deste todos os livros infantis eram editados em Portugal.
 
Os Contos da Carochinha compreende contos de Perrault, Grimm e Andersen, fábulas, apólogos, alegorias, contos exemplares, lendas, parábolas, provérbios, contos jocosos, etc.
 
Em 1996, Ana Maria Machado publica pela  primeira vez uma adaptação da História da Dona Baratinha,  pela editora FTD, na coleção Lê pra mim. Em 2002, o mesmo título faz parte da sua nova coleção Histórias à Brasileira, publicada  pela editora Companhia das Letrinhas, composta de três volumes com diversos contos tradicionais europeus e fábulas. A História da Dona Baratinha faz parte do primeiro volume que, segundo a autora, é o resultado de uma soma de pesquisas e de um mergulho na memória e na tradição, mas também, acrescentamos, de sua contribuição crítica - pois ela mesmo confessa adaptar e narrar as histórias de maneira pessoal e de acordo com seu estilo literário.
 
Em História da Dona Baratinha, Ana Maria Machado vai adaptar o conto ao contextualizá-lo  no Brasil dos anos 90, ou seja, em uma sociedade em plena mutação dentro de um país em desenvolvimento, aberto às mudanças do século XX, mas, paradoxalmente, ainda apegado a valores tradicionais como o casamento e a religião.  Neste contexto, Dona Baratinha representa a mulher moderna, independente e senhora de si, que trabalha, tem poder financeiro e legitimidade social para tomar decisões. Entretanto, carrega a herança de gerações anteriores, ou seja, a visão de que para se realizar e ser feliz tem obrigatoriamente que se casar e constituir uma família.


Dona Baratinha, a dona do seu nariz.
É importante salientar que este conto, oriundo da tradição oral e  popular do norte de Portugal, não fazia parte do repertório da literatura infantil e juvenil. Somente a partir da versão de Figueiredo Pimentel é que ele passa a ter como público alvo a criança, inclusive se vê de maneira explícita a função pedagógica e moral que vai sendo incorporada às diversas modificações que o transformam em um discurso mais próximo desse novo leitor.
 
A versão do conto por Ana Maria Machado também é narrada na terceira pessoa e inicia com a célebre frase: “Era uma vez”, frase esta que estabelece o contrato com o maravilhoso e que também se encontra no fato de ele se inscrever na tradição dos bestiários (contos protagonizados por animais): todas as personagens fazem parte do mundo animal. A personagem principal, Dona Baratinha é antropomórfica, tendo todas as características e ocupações da mulher dona de casa. Já na primeira ação do conto, encontramos ela varrendo a casa.


         A aclimatação (adaptação de temas, personagens, linguagem etc.) à realidade de um público leitor diverso do original já tinha sido feita por Figueiredo Pimentel na primeira versão. Uma carochinha é o diminutivo de carocha, um besouro dourado originário do norte do Portugal. No Brasil, tal inseto era desconhecido, razão pela qual Pimentel o  transformou em barata, um inseto comum a todas as regiões do país.
 
Essa primeira ação é a peripécia que vai desencadear a história: ao achar uma moeda quando está varrendo a casa, Dona Baratinha pensa ter ficado rica e que já pode se casar. É importante destacar que, na versão original, Dona Carochinha acha o dinheiro e não sabe o que fazer com ele, razão pela qual vai pedir conselhos às vizinhas. Resposta de uma delas: ir para a janela e procurar um marido. Na versão de Figueiredo Pimentel,  a preocupação também está centrada na moralidade, Nela, Dona Baratinha procura por toda parte o dono do dinheiro, mas dado que não o encontra, resolve fazer um rico enxoval e sai em busca de um marido.
 
Já Ana Maria Machado constrói sua Dona Baratinha como a representação da mulher moderna, tal como discorremos mais acima. Sua personagem não necessita de conselhos, pode decidir sozinha que vai por uma fita no cabelo e ir para a janela procurar um marido. O individualismo da sociedade brasileira dos anos 90 está presente nessa ação da personagem.  No entanto, a relação entre o dinheiro e a ascensão social é novamente posto em evidência. É através do  dinheiro, representado pelo dote, que ela pode ascender ao casamento.
 
 
Nas primeiras  versão do conto, devido ao contexto histórico e cultural, é compreensível que o casamento seja o objetivo  principal na vida da mulher do século XIX.  Concluímos que a personagem recriada por Ana Maria Machado é uma Dona Baratinha moderna, cujo objetivo principal na vida não é apenas se casar. Entretanto, ela sofre do chamado  “complexo de  cinderela”, tese que defende que toda a mulher tem uma necessidade psicológica de ser dependente. Não importa o quanto ela  seja inteligente, bem-sucedida ou sofisticada, toda mulher quer se salva da sua própria independência.
 
Conforme o conto de Machado, Dona Baratinha vai para a janela e diz:
 
Quem quer casar com a Dona Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha”? (MACHADO, 1996, p. 51)
 
Com essa frase a personagem põe em evidência  duas qualidades: a beleza e a vaidade, pois ela tem fita no cabelo, mas também sua condição social, dado que ela tem dinheiro na caixinha. A segunda ação é a escolha do marido, a cada pretendente ela faz a seguinte pergunta:
 
“-E como é que você faz de noite?” (MACHADO, 1996, p. 51).
O boi, por exemplo, responde:
MUUUUUU! (MACHADO, 1996, p. 51)
Ouvindo as respostas dos pretendentes, que não se encaixavam no perfil procurado por ela, então contestava:
- Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir! Sai fora! (MACHADO, 1996, p. 52).
A resposta irreverente de Dona Baratinha mostra que ela é uma mulher segura de si e preocupada com seu conforto pessoal, que parece ser o principal critério de seleção do futuro marido. Ainda, é importante citar que na versão original de Adolfo Coelho, a personagem Dona Carochinha faz a mesma pergunta aos pretendentes, porém ao escutar a resposta diz:
 
- Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite. (COELHO, 1890, p.80)
Na versão analisada, entre os bichos que passam e que serão os futuros pretendentes, estão boi, burro, cachorro, bode, carneiro, gato, galo, papagaio, ratinho. Tais pretendentes são animais do mundo rural à exceção do papagaio, que introduzido por Ana Maria Machado é um elemento de aclimatação, que tem a função de abrasileirar o conto. O papagaio não aparece no texto original e tampouco no texto de Figueiredo Pimentel. Dona Baratinha escolhe o ratinho, o único animal que tem a fala discreta e que não vai incomodá-la.

A questão da classe social é novamente posta em evidência, Dona Baratinha contrata as abelhas para preparar o bolo e os doces; delega os preparativos, o que mostra que deve ser uma mulher burguesa, acostumada a delegar. O trabalho não é valorizado.
 
O ratinho, insatisfeito, diz que em casamento tem que ter feijoada, imaginamos que ele venha de uma classe social inferior. Devido a sua preocupação com a comida e por sua vontade de fazer uma refeição completa, isso mostra que talvez ele tenha passado necessidade e tenha conhecido a fome e a falta de alimentos.
 
Dona Baratinha cede ao pedido do noivo e contrata as melhores cozinheiras. Novamente ela delega o trabalho, encomenda os melhores produtos. Na versão original há apenas o feijão. A feijoada é um prato brasileiro derivado de um prato português do mesmo nome, mas os ingredientes indicam que se trata de uma feijoada brasileira, o que pode ser considerado como mais um elemento de aclimatação com intuito de abrasileirar o conto.
 
O casamento é na igreja. Ela se casa na igreja e tem um padrinho que vai acompanhá-la, como determina a tradição católica (na ausência do pai é o padrinho quem acompanha a noiva até o altar), o que mostra que, embora seja uma mulher moderna, independente, ela é apegada às tradições da sociedade em que vive. A questão do padrinho deixa em evidência que talvez ela seja órfã ou bastarda e que, com o casamento, ela busque completar esse vazio da presença paterna e masculina em sua vida.
 
Ela chega à igreja de caramujo, fazendo referência a uma suposta carruagem, e novamente evidenciando seu complexo de cinderela; a questão social é novamente trazida pelo tema dos convidados bem-vestidos. O noivo guloso come a feijoada antes do casamento e acaba caindo na panela, tendo como fim a morte.
 
Na segunda parte do conto, na versão transcrita por Adolfo Coelho, a morte de João Ratão vai desencadear uma série de ações que afetarão as outras personagens do conto. Ao fazê-lo, Coelho põe em evidência o fato de que a desgraça de um indivíduo pode afetar toda uma comunidade, assim valorizando o coletivo sobre o individual.
 
A solução para o desfecho da Dona Baratinha de Figueiredo Pimentel é que a personagem decide que nunca mais vai se casar. Já em Ana Maria Machado, Dona Baratinha decide aproveitar a vida:
 
 Coitado do ratinho! Mas para mim foi uma sorte. Não podia dar certo um casamento com um noivo que gosta mais de feijão do que de mim. Melhor eu ficar sozinha e gastar meu dinheiro para me divertir. E assim fez (MACHADO, 1996, p. 57).
 
Com a morte de João Ratão, ela finalmente se libera do seu “complexo de Cinderela” e vai enfim tornar-se mulher e dona do seu nariz. Ao mesmo tempo, ela passa a imagem de uma mulher extremamente egoísta diante da morte do noivo, uma vez que julga que o noivo não merecia se casar com ela e que sua morte não merece nenhuma consideração.
 
Ana Maria Machado produz em seu texto uma transvalorização, o que, segundo Gérard Genette, é uma transformação de natureza axiológica da imagem de uma personagem. Existem dois tipos de transformação: a revalorização - processo pelo qual uma personagem que era antipática ou que tinha uma imagem negativa vai se tornar simpática e ter uma imagem positiva ou neutra no hipertexto - e a desvalorização, que é o processo inverso.

Em História da Dona Baratinha de Ana Maria Machado temos uma desvalorização da personagem que, recriada segunda a imagem da mulher moderna dos anos 90, acaba aos olhos do leitor sendo vista como uma mulher fria e calculista.

Veja abaixo o  vídeo com a  versão  de Alberto Figueredo Pimentel.
 

Para visualizar a história na versão de Ana Maria Machado acesse o link:
 


 
Fontes:

COELHO, Adolfo. Contos Populares Portugueses. Lisboa: Dom Quichote, 1890
GENETTE, Gérard. Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982
MACHADO, Ana Maria. História da Dona Baratinha. São Paulo: FTD, 1996
PIMENTEL, Figueiredo. Contos da Carochinha. Rio de Janeiro- Belo Horizonte: Quaresma, 1992 
GT5

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O índio "bom selvagem" na Literatura Infantojuvenil

Nossas crianças são presenteadas com várias personagens indígenas desde os primeiros anos de vida. As histórias em que o índio é representado acompanham também a faixa juvenil chegando aos leitores adultos. A gama de publicações é imensa e, para cada público específico, mais lançamentos aparecem a cada ano.
Para a grande maioria da população, causa surpresa o fato de escritores consagrados que, não sendo índios, têm em sua biografia romances com essa temática e voltados para o público infantil.

Um exemplo é o livro “As aventuras de Tibicuera” de Érico Veríssimo, em que a personagem narra sua trajetória através de fatos históricos do Brasil. Trata-se de uma mistura de fatos reais e ficção que, além de ensinar, diverte e permite que a história se desenrole como "um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade".

Mas, como esse índio brasileiro é representado nessas histórias? A representação quase sempre é a do índio como bom selvagem, conforme nos aponta Bonin e Kirchof:

 “ (...) a representação do índio como bom selvagem, tanto na visão hegemônica de sujeito dócil quanto na visão romântica de personagem idealizado. Geralmente ele  (índio),incorpora essas identidades quando é cristianizado ou submetido a um projeto de civilização, e assim, numa perspectiva utilitária, passa, de alguma forma, a servir ao colonizador .”

Tanto em “As aventuras de Tibicuera” como em “Expedição aos martírios” e “Volta à serra misteriosa” de Francisco Marins, essa representação se repete e deixa evidente o intuito de caracterizar esse herói romântico: índio cristianizado, dedicado totalmente ao branco, cheio de bravura e coragem.

BIBLIOGRAFIA

 VERÍSSIMO, E. As aventuras de Tibicuera. São Paulo: Companhia  das Letras, 2005.

BONIN, I.T., KIRCHOF, E.R. Entre o bom selvagem e o canibal: representações de índio na literatura infantil brasileira em meados do século XX.  Disponível em: www.revistas2.uepg.br   Capa  Vol. 7 (2012)
MARINS, F., Volta à Serra Misteriosa. Coleção A Aventura de ler – São Paulo: Editora Melhoramentos. 1977.
MARINS, F., Expedição aos martírios. Coleção A Aventura de ler – São Paulo: Editora Melhoramentos. 2005.
                                          
                                                                                              
 GT 3

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"O avesso da gente"



Para contar as histórias desta coleção, eu escolhi alguns fios e costurei com um bordado.Você já viu avesso de bordado? Tem nó, tem linha pendurada, é uma confusão! Não dá nem para acreditar que aquele lado feioso faz parte do lado direito, todo bonito. Pois é, o avesso da gente é parecido com isso. Tem coisas que às vezes a gente não quer mostrar, só quer esconder. A beleza, porém, está em saber que todo o direito da gente tem avesso, ou todo avesso tem seu direito, assim como toda sombra tem sua luz.(FURNARI, 1998, p.32)

            É com esse pequeno e simpático texto que Eva Furnari, renomada autora e ilustradora de livros infantis, define a coleção “O avesso da gente”. Publicada pela editora Moderna, a coleção conta com quatro volumes que, embora apresentem histórias distintas, partilham a mesma temática: o respeito às diferenças físicas, psicológicas e culturais de cada ser humano.
     

 
O primeiro livro da coleção se desenrola no tempo das cavernas e conta a história de Lolo Barnabé, um homem inteligente e cheio de ideias que aproveitava o melhor da vida ao lado de sua grande paixão, a namorada Brisa. Por ser um homem inquieto e muito criativo, Lolo decide construir uma casa no alto do morro para ter mais conforto e comodidade. Em seguida, resolve trocar as peles de animais que ele e a amada vestiam por roupas e calçados. Não contentes, Lolo e Brisa aprendem a confeccionar todo tipo de modernidade: televisão, fogão a gás, bicicleta, armário, mesa, cama e até mesmo uma tábua de passar.

Entretanto, a rotina cheia de conforto e de novas tecnologias, começou a parecer vazia. Assim, Lolo é levado a refletir sobre a felicidade que sentia quando ainda desfrutava da simplicidade e das sutilezas que a vida dentro da caverna proporcionava. A história de Lolo, contada com a linguagem simples e bem humorada característica de Eva Furnari, é também a história do homem moderno que vive e sofre a insatisfação quase crônica que o motiva a sair de casa todos os dias para trabalhar e adquirir bens de consumo com a pretensa, falsa e frustrada crença de que tais artifícios trarão como brinde a satisfação e a felicidade que procura.
 


 
        “Abaixo das canelas”, outro volume da coleção, tem como cenário a “Poscovânia”, onde era expressamente proibido aos pobres “poscovônios” mostrar os pés. Ninguém sabia ao certo de onde vinha essa lei pra lá de esquisita, mas o fato é que o assunto era um grande tabu, de forma que os moradores de “Poscovânia” nem mesmo pronunciavam a palavra pé, quando muito, utilizavam a palavra pedúnculo, nome científico daquilo que ficava abaixo das canelas. Um dia, com o aparecimento de uma terrível “chulezite aguda” que se alastra gerando o caos com a coceira ininterrupta e o odor peculiar que passou a atormentar e a constranger os cidadãos, as razões que instituíram a lei “anti-pés” são reveladas e os moradores são levados a questionar esse antigo e infundado hábito.

Assim como em “Lolo Barnabé”, a crítica da autora não se limita às personagens do livro infantil, uma vez que é possível interpretar a “Poscovânia” como uma metáfora da sociedade em que vivemos, onde muitas coisas que fazemos, que não fazemos, que acreditamos, ou que não acreditamos, não passam de imposições sociais. Não raramente, somos manipulados seja pela mídia, pela publicidade ou por premissas e paradigmas culturais que nos impelem a agir, pensar e gostar de certas coisas sem que, ao menos, nos demos conta do real motivo pelo qual estamos admirando um determinado cantor ou vestindo a roupa imposta pela ditadura dos padrões de beleza.
 


 

“Umbigo indiscreto” se passa na “Bolofofolândia”, país em que a comida é tão importante que até mesmo a anatomia dos “bolofofos” gira em torno do bom apetite dos glutões. O umbigo, centro emocional de todo “bolofofo”, muda de cor de acordo com o humor de seu dono, motivo pelo qual todos escondem seus umbigos na tentativa de não deixar transparecer aquilo que verdadeiramente sentem. No dia da festa do Chocolate Escarlate, Bunza, a menina mais rica da cidade, chega atrasada e acaba se vendo obrigada a dividir assento com pequena Pelúcia, que ela nem ao menos conhecia.

A antipatia foi imediata, gratuita e recíproca, quanto mais as duas garotas conversavam e contavam uma a outra sobre suas vidas, mas se estranhavam. Até que, um repentino rasgo no vestido de Bunza deixa à mostra seu umbigo amarelo-mostarda, cor que denuncia a inveja profunda que a menina rica sentia de Pelúcia e das pequenas coisas que cercavam a vida simples da menina. Assim, o flagrante do “umbigo indiscreto” de Bunza dissolve os julgamentos precipitados de ambas e acaba rendendo uma grande amizade.

Não é preciso muito esforço para perceber que a “Bolofofolândia” está mais perto de nossa realidade do que queremos supor. A vaidade de Bunza ao se gabar de suas riquezas, o preconceito de ambas ao tecerem julgamentos recíprocos totalmente infundados, a hipocrisia com que continuam conversando para manter o traquejo social, a inveja que permeou o primeiro contato das duas meninas e a necessidade de se esconder aquilo que realmente se sente, são temáticas extremamente presentes e recorrentes no universo das crianças e dos adultos.


“Pandolfo Bereba”, quarto e último volume da coleção, narra a história de Pandolfo, um príncipe que contraria toda e qualquer expectativa criada acerca dos padrões de beleza, educação e valentia dos príncipes que povoam os Contos de Fadas. O príncipe não conhecia sentimentos como o amor e a amizade, e talvez por isso, gostava de colocar defeitos em todas as pessoas que via pela frente, sendo sempre muito arrogante e mal educado com os súditos que habitavam o reino da “Bestolândia”.

Certo dia, Pandolfo conhece Ludovica, uma moça muito autêntica e cheia de personalidade que trata Pandolfo da maneira que ele merece, contrariando-o sempre que necessário. No início, o príncipe se estarrece com o tratamento sincero e espontâneo que ele nunca havia recebido antes, mas depois acaba sendo conquistado pela personalidade de Ludovica a tal ponto que os defeitos da moça, apesar de evidentes, já não faziam a menor diferença.

A história de amor de Ludovica e Pandolfo traz à tona uma importante reflexão sobre a hipocrisia que perpassa as relações de muitas pessoas que, assim como os súditos da “Bestolândia”, fazem de tudo para se adequar aos padrões estabelecidos pela classe dominante em busca de status e ascensão social. Em seu livro, Eva Furnari ressalta ainda a importância do respeito às diferenças físicas, psicológicas, sociais e culturais que possuímos, diferenças que quando toleradas e compreendidas podem nos completar ao invés de nos segregar.



Durante a leitura dos quatro volumes desta coleção, a autora nos convida, com palavras simples e bem humoradas, para um necessário passeio que tem como destino um lugar onde é possível conhecer o lado feio do bordado, o lado confuso, cheio de pontas soltas e fios desconexos que, juntos, formam um lindo desenho do outro lado do pano. Esse lugar, tão bem guardado quanto o umbigo indiscreto de Bunza, cheio de defeitos como os que Pandolfo aprendeu a tolerar, repleto de tabus como o “pedúnculo” dos “poscovônios” e ao mesmo tempo tão simples e singelo como a caverna de Lolo Barnabé, é o que Eva Furnari chama de “O avesso da gente”.

Referências

FURNARI, E. Abaixo das canelas. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Lolo Barnabe. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Pandolfo Bereba. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

FURNARI, E. Umbigo indiscreto. São Paulo: Editora Moderna, 2000. 

GT 2: Autores Consagrados