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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Literatura, cidadania e meio ambiente: a literatura paradidática e o politicamente correto



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A coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”
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A coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, publicada pela Brasil Cultural, reúne oito livros paradidáticos que abordam histórias ligadas à cidadania e meio ambiente. Integra o projeto “Ler, conviver e aprender”, que se propõe a “estimular e desenvolver o prazer pela leitura” e “fortalecer o contato familiar”, segundo consta no site oficial da Brasil Cultural (2013). O site também disponibiliza uma sinopse de cada livro, apresentando a relação da história com o meio ambiente:
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O primeiro livro apresentado, Bafo de onça não quero, não!, aborda uma excursão escolar ao zoológico, quando dois amigos se surpreendem com o fato de que também os animais precisam de higiene bucal. O segundo livro, Cidadania a gente aprende, conta a história de dois amigos, João e Maria, que têm a oportunidade de exercer a cidadania, tendo como ponto de partida a arborização urbana. O terceiro exemplar, Não vem com essa, tô fora, trata da conscientização sobre os danos das drogas na vida das pessoas e na sociedade.
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Em A fada d’água, a garota Lívia faz uma viagem pelo mundo da fantasia e percorre todas as etapas do tratamento da água. Na história Lixo em lugar certo, o garoto Guilherme vive uma experiência comparativa entre passado e presente que o leva a pensar sobre o destino do lixo e as implicações ao meio ambiente. Já Maria Clara e o indiozinho Caruana são as personagens centrais do livro Amigos do meio ambiente. Em experiências conjuntas, os dois conhecem um a cultura do outro para aprender a cuidar do meio ambiente.
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Os dois últimos livros tocam em assuntos que também têm se destacado na educação escolar. Princesa Margareth retrata uma menina amável, tratada como princesa no ambiente familiar, mas que é vítima de bullying na escola. E, por fim, A turma da Naty contra a Denguemur focaliza ações coletivas que podem ser somadas às do poder público na luta contra a dengue.
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Trata-se, de fato, de uma coleção de livros paradidáticos que se constituem na relação com o literário, reunindo o ficcional e o ilustrativo, explorando cores e imagens. 
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Entre o paradidático e o literário



     Antes de discutirmos sobre a proposta ambiental presente na coleção “Criança consciente”, entendemos que, em se tratando de livro paradidático, precisamos, antes, discutir o que é a que se propõe esse tipo de material e que relações são possíveis de se estabelecer com a literatura.

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Ricardo José Duff Azevedo, escritor, ilustrador e doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo, no artigo intitulado “Livros para crianças e literatura infantil: convergência e dissonâncias”, publicado em 1999 e disponibilizado no site pessoal do autor, traz um levantamento dos tipos de livros encontrados em prateleiras de livrarias e direcionados a crianças: livros didáticos; livros paradidáticos; livros-jogo; livros de imagem; CD-rom; livros de literatura infantil.
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Nosso interesse está voltado à compreensão do paradidático e do que se compreende por literatura infantil. Quanto aos livros paradidáticos, Azevedo (1999, p. 2) observa que se tratam, assim como os didáticos, de um material essencialmente utilitário, reunindo informações objetivas para transmissão de “conhecimento e informação”. “Em geral, abordam assuntos paralelos, ligados às matérias do currículo regular, de forma a complementar os livros didáticos”. Em síntese, os temas focalizados pelos livros paradidáticos compreendem preservação do meio ambiente, educação sexual, prevenção de doenças, amor à natureza, características da vida no campo e na cidade, cidadania, prevenção contra uso de drogas, entre outros.
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Curiosamente, assim como os livros didáticos, os paradidáticos requerem atualização periódica, conforme esclarece o autor, pois tratam de assuntos pontuais, atuais, que se modificam com o passar do tempo. Como exemplo, podemos citar a dengue. O assunto passa a ser foco dos livros paradidáticos porque se trata de um problema em vigência. Se deixa de existir, de certa forma, perde o interesse utilitarista.
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Quanto à literatura infantil propriamente dita, Azevedo (1999, p. 5) explica que não tem a pretensão de defini-la, considerando que se trata de um assunto que dá margem a opiniões e explicações de teorias diversas. Contudo, considera ser possível afirmar que a literatura, “em termos, é uma arte (em oposição à ciência) feita de palavras”. Sempre recorre à ficção, caso contrário seria registro histórico, reportagem ou mesmo biografia, entre outros. Há, também, motivação estética, isto é, “em princípio não tem utilidade fora buscar o belo, o poético, o lúdico e o prazer do leitor”; não é, portanto, utilitária. Vincula-se à subjetividade, ao inesperado. Costuma ser ambígua, podendo brincar com as palavras e mesmo inventá-las, sem aprisionamentos à norma culta da língua.
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Interessante é que, pensando em literatura nacional para crianças, a perspectiva utilitarista já se faz inscrita de forma imbricada ao literário desde o início. Segundo Azevedo (1999), a obra de Monteiro Lobato, como fundadora, de certa forma, da moderna literatura voltada a crianças, reúne, ao mesmo tempo, aspectos do mágico, do original e do ficcional e uma perspectiva utilitarista, recorrendo, também, à intenção pedagógica. O autor se refere a isso como uma espécie de hibridismo entre o literário e o utilitarista/pedagógico. Com base na discussão aqui apresentada é que buscamos observar analiticamente a relação possível entre literatura e meio ambiente em livros paradidáticos da coleção “Criança consciente”.  

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O discurso do "ecologicamente correto"
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Pelas temáticas distribuídas entre os oito exemplares da coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, observamos, justamente, a presença de temas apontados por Azevedo (1999) como sendo geralmente focalizados pelos livros paradidáticos: preservação do meio ambiente, prevenção de doenças, amor à natureza, cidadania, prevenção contra uso de drogas, entre outros.
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Para fins de uma proposição analítica, focalizamos quatro desses oito livros que mais diretamente se relacionam com questões vinculadas ao meio ambiente: “Amigos do meio ambiente”, “Lixo tem lugar certo!”, “A fada d´água” e “A turma da Naty contra Denguemur”.  Os três primeiros de autoria de Denise Telles e o último de Eduardo Bento. “Amigos do meio ambiente” é ilustrado por Betina de Holanda, Salatiel de Holanda e Salu dos Santos. Marco Cortez faz a ilustração de “Lixo tem lugar certo!” e Betina de Holanda é a ilustradora de “A fada d’água” e “A turma da Naty contra Denguemur”.
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            Objetivando discutir como se dá a relação entre literatura e meio ambiente nesses livros, partimos de uma perspectiva de análise materialista do discurso, de vertente francesa. Esclarecemos, contudo, que a discussão aqui apresentada não se configura em interpretações provenientes, propriamente, de uma análise discursiva, mas são tateamentos iniciais de um percurso analítico, que pode auxiliar olhares outros para o material, ao menos geradores de incômodos e novas problematizações de lugares/sentidos estabilizados. 
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Ao considerarmos as condições de produção dos livros, o paradidático emerge como condição requerida para se pensar a relação entre formulação e funcionamento discursivo. Isso significa que não se pode desconsiderar que, frente às condições de produção de livros do gênero paradidático, está inscrito em sua constituição o princípio utilitarista e educativo padrão de moldar comportamentos tidos como “adequados” e “desejados” para a formação de um modelo padrão de  “cidadão”.
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No primeiro contato com a coleção “Criança consciente: construindo um mundo melhor”, o incômodo inicial surgiu da sustentação, pelo título, de sentidos estabilizados, como se fossem óbvios, transparentes. Referimo-nos aos termos “consciente” e “mundo melhor”, que aparecem no título e subtítulo da coleção. A naturalização desses termos, na relação com o meio ambiente e a educação, ocorre devido ao não questionamento sobre o que é ser consciente: ser consciente em relação a que, para que, para quem e em que lugar e situação social? O mesmo ocorre com relação à ideia do que seja um “mundo melhor”. Se é “melhor”, não há, como efeito, por que se questionar. Propõe-se apenas a adesão à “luta”; não se interroga o que é um “mundo melhor”. Melhor em relação a que, para que, para quem, sob qual ponto de vista?  Portanto, enunciar “criança consciente” e “mundo melhor” é positivar um lugar de defesa do mundo pela educação/formação de crianças supostamente comprometidas com esse mundo a vir a ser. Em termos mercadológicos, funciona a perspectiva do vendável, justamente ao se interditar a questionabilidade do maniqueísmo aí vigente: consciente X sem consciência; melhor X pior.
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O problema é que a ideia de “criança consciente” em relação ao meio ambiente e à cidadania, que tem sido propagada no e pelo discurso pedagógico, e que tende a se fazer presente nos materiais didáticos, paradidáticos e paradidáticos literários, se sustenta na propagação do discurso “ecologicamente correto” e do “discurso cidadão”, como espécies de tipologias discursivas. Daí que o foco é para o resultado (como produto) de “ser consciente” e do apagamento do processo necessário para a elaboração crítica da ideia do que seja consciência ou um mundo melhor.
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Exemplificando: Certa vez um menino de oito anos estava para atravessar a rua acompanhado da mãe. Então ele disse a ela que para atravessar a rua precisariam passar pela faixa de pedestre. A questão é que, nas proximidades, não havia faixa de pedestre. Então a mãe explicou isso ao menino e esclareceu como fariam para atravessar de forma segura, na ausência da faixa. O menino se recusou a atravessar, chorou, fez birra, e queria de toda forma fazer a mãe caminhar até que pudessem encontrar uma faixa de pedestre, alegando que a professora havia dito que não poderiam atravessar a rua fora da faixa. Então a mãe perguntou ao menino se a professora havia explicado sobre como proceder na ausência de faixas, e que a cidade, em sua (des)organização urbana, apresenta deficiências estruturais, que deveriam ser de responsabilidade do poder público. Também, perguntou ao filho se a professora discutia tais deficiências, e como, então, eles poderiam pensar essas questões. A criança, perdida, só conseguia voltar à ideia da proibição: É proibido porque é proibido. Ponto. Ou seja, todos os porquês estavam silenciados pelo “faça isso, que é a coisa certa, e ponto final”. Trata-se de um exemplo, de fato corriqueiro, que vem para ilustrar o que estamos chamando de visibilizar o produto e apagar o processo, ou seja, simplesmente tomar a ideia de consciência como algo cristalizado, inquestionável, assim como reproduzir a ideia de “mundo melhor”, utopicamente sustentado.
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Como afirma Orlandi (2001, p. 167), “a melhor maneira de preservar é construir condições para a preservação. E isto não se faz só com palavras de efeito [como criança consciente e mundo melhor, por exemplo], se faz construindo condições materiais básicas. Em consequência, a preservação viria por si”. Para ela, o que se tem feito é praticar “o discurso ecológico da irresponsabilidade”, no sentido de que “se fala na responsabilidade do indivíduo na falta de responsabilidade social do Estado”. E isso se põe na relação com o discurso da cidadania, que se apresenta, nele, como algo sempre a vir a ser. Contudo, ainda segundo a autora, “numa República já nascemos cidadãos. Não é preciso, pois, reivindicar a cidadania. Já a temos por direito. Qualificar cidadãos é tarefa do Estado e se ele não cumpre só podemos reivindicar qualificação se, no real de nossa história, esse sentido já tiver sido posto”.
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Orlandi (2001, p. 175) chama a atenção para o fato de que
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as leis que se discutem quando se trata do meio ambiente, se pensamos um ser histórico e simbólico, não são leis da natureza mas leis sobre a natureza a serem elaboradas e praticadas. É preciso além disso produzir um discurso que não se sustente apenas no que já é conquista do saber e da racionalidade, mas admita também a irracionalidade, a relação da sociedade com a história (nem sempre possível) e com o político e, principalmente, com o imaginário que rege as relações com o real e com o que faz sentido.
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            Considerando essa ideia de discurso “ecologicamente correto”, tomado como bandeira pela escola, especificamente quanto aos quatro livros tomados para tratamento analítico-discursivo, observamos que, na condição (e lugar) de livros paradidáticos, eles não têm como não ser utilitaristas e cristalizadores de sentidos. Embora, por si, tais livros não sejam literatura, recorrem a ela para cumprir sua eficácia utilitarista e pedagógica instrucional. E tal recorrência se faz calcada em personagens clássicas/estereotipadas da literatura, como a fada (A fada d’água), o vilão e o super-herói (A turma da Naty contra Denguemur).
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            Apenas em termos paradidáticos, os livros fogem, de certa forma, a representações totalmente estereotipadas na condução do enredo e à forma como tais personagens são retratadas. Em Amigos do meio ambiente, o indiozinho Caruana é filho de um professor universitário que coordena um projeto de preservação das matas ao redor dos rios e está se instalando na cidade. Foge, no sentido de que o índio não é posto como mero objeto de estudo, mas está ao lado de quem é apresentado como detentor do conhecimento científico, no caso, seu pai, professor-pesquisador, no contexto urbano. Também se trabalha a ideia de que o conhecimento geográfico da aldeia onde o indiozinho morava não é extensivo, de antemão, a outras áreas. O que problematiza a ideia de que índio e natureza seriam uma e a mesma coisa.  Trabalha-se, ainda, uma proposta de diversidade cultural e de valorização de especificidades culturais, além do intercâmbio entre culturas.
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Discursivamente, contudo, sustenta-se a ideia da autoridade acadêmico-científica regulatória das ações de preservação ambiental. Retrata-se o professor universitário, o projeto universitário de preservação, o tratamento de doutor a um pesquisador nomeado por cientista, o domínio do conhecimento sistematizado, a experiência em campo, a organização de campanhas de “conscientização”, mobilizadas por crianças, para divulgar a necessidade de preservação ambiental e a ideia de cidade em “perfeita harmonia com o meio ambiente”, enunciada ao final do livro. Isso tudo sinaliza que o foco é para questões pontuais do cotidiano, que se apresentam como responsabilidade da escola no sentido de instruir, orientar, “conscientizar”, e de responsabilidade da criança, a quem cabe seguir as orientações, no campo de inquestionabilidade, apresentadas pelas autoridades científicas/educacionais.
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Em Lixo tem lugar certo! aparece novamente a figura da professora. Há ficção, mas sempre girando em prol do educativo com fins utilitaristas. No caso da história A turma da Naty contra Denguemur, a dengue, como o mal ameaçador da sociedade, materializa-se na personagem vilã, Denguemur. O literário está na construção da história ficcional, calcada na disputa entre o bem e o mal, e na luta para se vencer o inimigo, embora preso a uma luta real, de fato, da sociedade contra o mosquito da dengue e sua proliferação. Ao final do livro, sob o título “Saiba mais”, como se fosse um almanaque, apresentam-se textos que explicam o que é a dengue, os tipos da doença, quem é o mosquito, como se proteger contra a dengue, além de curiosidades. A fada d’água também recorre ao mundo ficcional, centrado na figura da fada. A história traz a fantasia de viajar na e pela imaginação dos contos de fada. Contudo, mantém-se a finalidade instrutiva, de preservação do meio ambiente pelo não desperdício de água.
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A questão que se impõe frente ao funcionamento e aos efeitos desses livros é justamente como trabalhar com esse material, numa perspectiva literária, a ponto de não ser reducionista e ficar apenas preso a frases feitas, meramente decorativas, ou visões estereotipadas de educação ambiental e “consciência” ambiental, assim como de “literatura ambiental” funcionalista. Antes, requer-se entender que, frente às suas condições de produção, tais livros são paradidáticos. Dialogam com a literatura, mas não se propõem a ser literários. E isso, por si, já faz toda a diferença. Mas é possível criar outras histórias, com os alunos, a partir dessas, em que o literário advenha como elemento central, retirando o peso utilitarista e forçosamente pedagógico. Pensamos que, do lugar literário, da imaginação, da relação com o simbólico, o pedagógico se instaura como processo, não se reduzindo a função. Além disso, é mais propriamente pelo imagético, no caso dos livros da coleção, que as histórias se abrem ao literário, pois, nesse caso específico, não estão presas, propriamente, ao instrucional.
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Orlandi (2012, p. 144-155) esclarece que “um enunciado pode ter muitas versões, e nelas, os sentidos não são os mesmos”. Ao propor uma inversão do enunciado “O futuro dos recursos” para “Os recursos do futuro”, ela explica que, na primeira formulação “pressupõem-se que temos estes recursos e nos debruçamos sobre a vontade de mantê-los, expandindo-os ou sobre a ameaça de perdê-los”, enquanto na segunda formulação, parafrasticamente proposta por ela, admite-se “o não sabido, o não existente e o que poderá vir a existir”. Para ela, não determinamos o futuro mobilizados por nossas vontades, mas há como “refletir sobre o que temos e deixar aberta a porta do que se pode passar entre o irrealizado e o possível”.


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REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Ricardo. Livros para crianças e literatura infantil: convergência e dissonâncias.Disponível em: http://www.ricardoazevedo.com.br/wp/wp-content/uploads/Livros-para-criancas-e-literatura-infantil.pdf. Acesso em: 8 set. 2013.
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ORLANDI, Eni Puccinelli. A textualização política do discurso sobre a Terra. In: ______. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001. p. 163-177.
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______. Os recursos do futuro. In: ______Discurso em análise: sujeito, sentido, ideologia. Campinas: Pontes, 2012. p. 143-150.
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GT 4 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A reconstrução da personagem feminina no conto "História de Dona Baratinha"

O conto História da Dona Baratinha é um conto popular português que faz parte da tradição oral. Ele foi publicado pela primeira vez em 1890 com o título original História da Carochinha  pelo linguista e pedagogo português Adolfo Coelho, que recolheu e transcreveu diversos contos portugueses tradicionais.  Em 1896, o jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel publica no Brasil, pela Livraria do Povo de Pedro Silva Quaresma, a coletânea Os contos da Carochinha, reunindo 61 contos, entre eles o conto intitulado História da Dona Baratinha.
 
 A publicação deste livro  é um marco para a literatura infantil, dado que  antes deste todos os livros infantis eram editados em Portugal.
 
Os Contos da Carochinha compreende contos de Perrault, Grimm e Andersen, fábulas, apólogos, alegorias, contos exemplares, lendas, parábolas, provérbios, contos jocosos, etc.
 
Em 1996, Ana Maria Machado publica pela  primeira vez uma adaptação da História da Dona Baratinha,  pela editora FTD, na coleção Lê pra mim. Em 2002, o mesmo título faz parte da sua nova coleção Histórias à Brasileira, publicada  pela editora Companhia das Letrinhas, composta de três volumes com diversos contos tradicionais europeus e fábulas. A História da Dona Baratinha faz parte do primeiro volume que, segundo a autora, é o resultado de uma soma de pesquisas e de um mergulho na memória e na tradição, mas também, acrescentamos, de sua contribuição crítica - pois ela mesmo confessa adaptar e narrar as histórias de maneira pessoal e de acordo com seu estilo literário.
 
Em História da Dona Baratinha, Ana Maria Machado vai adaptar o conto ao contextualizá-lo  no Brasil dos anos 90, ou seja, em uma sociedade em plena mutação dentro de um país em desenvolvimento, aberto às mudanças do século XX, mas, paradoxalmente, ainda apegado a valores tradicionais como o casamento e a religião.  Neste contexto, Dona Baratinha representa a mulher moderna, independente e senhora de si, que trabalha, tem poder financeiro e legitimidade social para tomar decisões. Entretanto, carrega a herança de gerações anteriores, ou seja, a visão de que para se realizar e ser feliz tem obrigatoriamente que se casar e constituir uma família.


Dona Baratinha, a dona do seu nariz.
É importante salientar que este conto, oriundo da tradição oral e  popular do norte de Portugal, não fazia parte do repertório da literatura infantil e juvenil. Somente a partir da versão de Figueiredo Pimentel é que ele passa a ter como público alvo a criança, inclusive se vê de maneira explícita a função pedagógica e moral que vai sendo incorporada às diversas modificações que o transformam em um discurso mais próximo desse novo leitor.
 
A versão do conto por Ana Maria Machado também é narrada na terceira pessoa e inicia com a célebre frase: “Era uma vez”, frase esta que estabelece o contrato com o maravilhoso e que também se encontra no fato de ele se inscrever na tradição dos bestiários (contos protagonizados por animais): todas as personagens fazem parte do mundo animal. A personagem principal, Dona Baratinha é antropomórfica, tendo todas as características e ocupações da mulher dona de casa. Já na primeira ação do conto, encontramos ela varrendo a casa.


         A aclimatação (adaptação de temas, personagens, linguagem etc.) à realidade de um público leitor diverso do original já tinha sido feita por Figueiredo Pimentel na primeira versão. Uma carochinha é o diminutivo de carocha, um besouro dourado originário do norte do Portugal. No Brasil, tal inseto era desconhecido, razão pela qual Pimentel o  transformou em barata, um inseto comum a todas as regiões do país.
 
Essa primeira ação é a peripécia que vai desencadear a história: ao achar uma moeda quando está varrendo a casa, Dona Baratinha pensa ter ficado rica e que já pode se casar. É importante destacar que, na versão original, Dona Carochinha acha o dinheiro e não sabe o que fazer com ele, razão pela qual vai pedir conselhos às vizinhas. Resposta de uma delas: ir para a janela e procurar um marido. Na versão de Figueiredo Pimentel,  a preocupação também está centrada na moralidade, Nela, Dona Baratinha procura por toda parte o dono do dinheiro, mas dado que não o encontra, resolve fazer um rico enxoval e sai em busca de um marido.
 
Já Ana Maria Machado constrói sua Dona Baratinha como a representação da mulher moderna, tal como discorremos mais acima. Sua personagem não necessita de conselhos, pode decidir sozinha que vai por uma fita no cabelo e ir para a janela procurar um marido. O individualismo da sociedade brasileira dos anos 90 está presente nessa ação da personagem.  No entanto, a relação entre o dinheiro e a ascensão social é novamente posto em evidência. É através do  dinheiro, representado pelo dote, que ela pode ascender ao casamento.
 
 
Nas primeiras  versão do conto, devido ao contexto histórico e cultural, é compreensível que o casamento seja o objetivo  principal na vida da mulher do século XIX.  Concluímos que a personagem recriada por Ana Maria Machado é uma Dona Baratinha moderna, cujo objetivo principal na vida não é apenas se casar. Entretanto, ela sofre do chamado  “complexo de  cinderela”, tese que defende que toda a mulher tem uma necessidade psicológica de ser dependente. Não importa o quanto ela  seja inteligente, bem-sucedida ou sofisticada, toda mulher quer se salva da sua própria independência.
 
Conforme o conto de Machado, Dona Baratinha vai para a janela e diz:
 
Quem quer casar com a Dona Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha”? (MACHADO, 1996, p. 51)
 
Com essa frase a personagem põe em evidência  duas qualidades: a beleza e a vaidade, pois ela tem fita no cabelo, mas também sua condição social, dado que ela tem dinheiro na caixinha. A segunda ação é a escolha do marido, a cada pretendente ela faz a seguinte pergunta:
 
“-E como é que você faz de noite?” (MACHADO, 1996, p. 51).
O boi, por exemplo, responde:
MUUUUUU! (MACHADO, 1996, p. 51)
Ouvindo as respostas dos pretendentes, que não se encaixavam no perfil procurado por ela, então contestava:
- Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir! Sai fora! (MACHADO, 1996, p. 52).
A resposta irreverente de Dona Baratinha mostra que ela é uma mulher segura de si e preocupada com seu conforto pessoal, que parece ser o principal critério de seleção do futuro marido. Ainda, é importante citar que na versão original de Adolfo Coelho, a personagem Dona Carochinha faz a mesma pergunta aos pretendentes, porém ao escutar a resposta diz:
 
- Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite. (COELHO, 1890, p.80)
Na versão analisada, entre os bichos que passam e que serão os futuros pretendentes, estão boi, burro, cachorro, bode, carneiro, gato, galo, papagaio, ratinho. Tais pretendentes são animais do mundo rural à exceção do papagaio, que introduzido por Ana Maria Machado é um elemento de aclimatação, que tem a função de abrasileirar o conto. O papagaio não aparece no texto original e tampouco no texto de Figueiredo Pimentel. Dona Baratinha escolhe o ratinho, o único animal que tem a fala discreta e que não vai incomodá-la.

A questão da classe social é novamente posta em evidência, Dona Baratinha contrata as abelhas para preparar o bolo e os doces; delega os preparativos, o que mostra que deve ser uma mulher burguesa, acostumada a delegar. O trabalho não é valorizado.
 
O ratinho, insatisfeito, diz que em casamento tem que ter feijoada, imaginamos que ele venha de uma classe social inferior. Devido a sua preocupação com a comida e por sua vontade de fazer uma refeição completa, isso mostra que talvez ele tenha passado necessidade e tenha conhecido a fome e a falta de alimentos.
 
Dona Baratinha cede ao pedido do noivo e contrata as melhores cozinheiras. Novamente ela delega o trabalho, encomenda os melhores produtos. Na versão original há apenas o feijão. A feijoada é um prato brasileiro derivado de um prato português do mesmo nome, mas os ingredientes indicam que se trata de uma feijoada brasileira, o que pode ser considerado como mais um elemento de aclimatação com intuito de abrasileirar o conto.
 
O casamento é na igreja. Ela se casa na igreja e tem um padrinho que vai acompanhá-la, como determina a tradição católica (na ausência do pai é o padrinho quem acompanha a noiva até o altar), o que mostra que, embora seja uma mulher moderna, independente, ela é apegada às tradições da sociedade em que vive. A questão do padrinho deixa em evidência que talvez ela seja órfã ou bastarda e que, com o casamento, ela busque completar esse vazio da presença paterna e masculina em sua vida.
 
Ela chega à igreja de caramujo, fazendo referência a uma suposta carruagem, e novamente evidenciando seu complexo de cinderela; a questão social é novamente trazida pelo tema dos convidados bem-vestidos. O noivo guloso come a feijoada antes do casamento e acaba caindo na panela, tendo como fim a morte.
 
Na segunda parte do conto, na versão transcrita por Adolfo Coelho, a morte de João Ratão vai desencadear uma série de ações que afetarão as outras personagens do conto. Ao fazê-lo, Coelho põe em evidência o fato de que a desgraça de um indivíduo pode afetar toda uma comunidade, assim valorizando o coletivo sobre o individual.
 
A solução para o desfecho da Dona Baratinha de Figueiredo Pimentel é que a personagem decide que nunca mais vai se casar. Já em Ana Maria Machado, Dona Baratinha decide aproveitar a vida:
 
 Coitado do ratinho! Mas para mim foi uma sorte. Não podia dar certo um casamento com um noivo que gosta mais de feijão do que de mim. Melhor eu ficar sozinha e gastar meu dinheiro para me divertir. E assim fez (MACHADO, 1996, p. 57).
 
Com a morte de João Ratão, ela finalmente se libera do seu “complexo de Cinderela” e vai enfim tornar-se mulher e dona do seu nariz. Ao mesmo tempo, ela passa a imagem de uma mulher extremamente egoísta diante da morte do noivo, uma vez que julga que o noivo não merecia se casar com ela e que sua morte não merece nenhuma consideração.
 
Ana Maria Machado produz em seu texto uma transvalorização, o que, segundo Gérard Genette, é uma transformação de natureza axiológica da imagem de uma personagem. Existem dois tipos de transformação: a revalorização - processo pelo qual uma personagem que era antipática ou que tinha uma imagem negativa vai se tornar simpática e ter uma imagem positiva ou neutra no hipertexto - e a desvalorização, que é o processo inverso.

Em História da Dona Baratinha de Ana Maria Machado temos uma desvalorização da personagem que, recriada segunda a imagem da mulher moderna dos anos 90, acaba aos olhos do leitor sendo vista como uma mulher fria e calculista.

Veja abaixo o  vídeo com a  versão  de Alberto Figueredo Pimentel.
 

Para visualizar a história na versão de Ana Maria Machado acesse o link:
 


 
Fontes:

COELHO, Adolfo. Contos Populares Portugueses. Lisboa: Dom Quichote, 1890
GENETTE, Gérard. Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982
MACHADO, Ana Maria. História da Dona Baratinha. São Paulo: FTD, 1996
PIMENTEL, Figueiredo. Contos da Carochinha. Rio de Janeiro- Belo Horizonte: Quaresma, 1992 
GT5

A representação do negro na literatura infantil de Ana Maria Machado e Ruth Rocha


A literatura continua sendo um espaço privilegiado para a discussão de assuntos que extrapolam o meramente convencional. No caso específico da Literatura Infantojuvenil, uma série de obras chama a atenção pelo fato de, sem abrir mão da fantasia e do maravilhoso, abarca temas que dizem respeito à realidade do leitor, levando-o a olhar o mundo a partir de uma perspectiva diferenciada e questionadora. É importante salientar que a incursão pela fantasia não descarta a realidade. Pelo contrário, pode iluminá-la sob outros prismas e provocar sua releitura a partir da ficção.
Atualmente, a inclusão do negro na Literatura Infantojuvenil atende, em geral, à preocupação política de valorizar sua identidade cultural, seus costumes, sua autonomia expressiva, entre outros aspectos, colocando-o como o herói de sua própria história, como vemos em O amigo do rei, de Ruth Rocha, e em Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado.

No livro “O amigo do rei”, Matias é um menino negro, escravo e é o personagem principal. Na sua utopia,  a condição de escravo seria superada no momento em que reencontrasse seu povo: “um dia eu vou ser rei”, afirmava Matias com otimismo.

Ioiô, filho dos senhores donos do engenho e dos escravos, era o melhor amigo desse "rei", apesar da diferença de classe social. Certo dia, depois de uma surra que ambos levaram do pai de Ioiô, como represália a uma “trela” cometida pelos dois, Ioiô, que não estava acostumado com os castigos, propõe uma fuga. Assim é que, guiado pelo protagonista, os dois chegam ao reino dos negros, onde o herói Matias é reverenciado com honras de rei. Enfim, chegara o seu dia...

No segundo texto “Menina bonita do laço de fita, abrindo a história com a magia do “era uma vez”, o narrador nos apresenta traços da beleza negra: “uma menina linda”, de olhos brilhantes como “duas azeitonas pretas”, “cabelos enroladinhos”, “pele escura e lustrosa, que nem o pêlo da pantera negra quando pula na chuva”. Tudo isso na ótica de “um coelho branco” que morava ao lado da tal menina. Em vários momentos do enredo, observa-se a insistência do coelhinho para que esta revelasse o segredo de sua linda cor: “Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?” Após algumas tentativas frustradas do coelho, para se tornar pretinho como aquela menina, e de justificativas infundadas da menina, “a mãe dela, que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter”, dizendo tratar-se de “Artes de uma avó preta que ela tinha...” Então, o coelho branco se apaixonou por “uma coelhinha escura como a noite”; namoraram, casaram-se e tiveram uma ninhada de filhotes de diversas cores, “e até uma coelha bem pretinha” (...), que se tornou afilhada daquela Menina bonita do laço de fita. O desfecho da história, apesar dos argumentos não convincentes da menina bonita, há uma construção progressiva de um sentido positivo, cujo efeito, indiscutivelmente, projeta a valorização da raça negra.

Considerando-se os níveis temáticos  e estruturais, as duas histórias concedem importante destaque aos papéis desempenhados pelos protagonistas, destacando, no caso de O amigo do rei, a atuação do negro Matias, representando a busca da identidade cultural perdida, e a adesão de Ioiô, cujo papel coadjuvante representa o reconhecimento dessa identidade e a valorização da cultura negra. Em Menina bonita do laço de fita, vê-se uma belíssima representação de superação do preconceito; em cada cena/quadro, a construção narrativa corrobora para bem-humoradas ilustrações, representando um imaginário inclusivo de forma graciosa e afetuosa.


As histórias da série “vou te contar” foram escritas pela Ruth Rocha durante os anos de 1969 a 1981 em várias revistas infantis que ela dirigiu, publicações que faziam um grande sucesso entre os pequenos.
São histórias que mostram situações e personagens que valorizam a independência de pensamento e a ousadia: um coelhinho que não queria ser coelho de Páscoa e escolhe outra profissão, um menino fazendeiro que se torna amigo de um menino escravo, um macaco e um porco que são companheiros de aventuras e saem pelo mundo ajudando as pessoas e muitas outras coisas mirabolantes, que a gente lê, relê e sempre dão muito que pensar.
Na obra “Menina bonita do laço de fita” Ana Maria Machado convida o leitor para a leitura do texto do mundo. Sua obra contribui para que as crianças se apropriem de valores como o respeito a si próprias e aos outros, além de elevar a autoestima da criança negra.
Ambas as autoras colocam como personagem central o negro, tipo de personagem até então marginalizado na literatura. O belo está justamente nas diferenças e não nas igualdades e as obras fazem lembrar dessa forma, de que é preciso se preservar a identidade cultural do negro.
Sendo assim, a Literatura infantil contribui para o processo de formação do pensamento de cada criança na sociedade. A partir dela, pode-se descortinar o espelho da vida, na busca do conhecimento de si, dos outros e de mundo, frente ao jogo mágico da fantasia e da realidade.


Para visualização da história "O amigo do rei" Acesse o link:

 Assista agora o vídeo " Menina bonita do laço de fita".
 Fontes:
MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita. Ilustração de Claudius. 4. ed. São Paulo: Ática, 1999.

ROCHA, Ruth. O amigo do rei. Ilustração de FURNARI, Eva. São Paulo: Ática, 1993. 


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Ana Maria Machado: contribuições à Literatura Infantil


Quando abordamos Ana Maria Machado e sua carreira de escritora na literatura infantil, sentimos a necessidade de citar um nome importante que influenciou positivamente sua formação: Monteiro Lobato. Segundo a autora, a busca pela renovação da literatura infantil deve-se ao fato de que, no Brasil, ela era pouco valorizada e o que se encontrava em circulação eram apenas algumas obras traduzidas para o português, de modo que o contexto das histórias, assim como os sentimentos e os interesses nelas discutidos, eram distantes da realidade de nossas crianças.   A influência e a importância da obra infantil de Lobato é assumida por Ana Maria Machado ao declarar que  “cresceu lendo e vivendo o universo lobatiano, foi virando gente grande e começou a mostrar a marca disso.”  (apud LAJOLO, 1983, p.102).
Ana Maria Machado defende a presença simultânea do real e do faz-de-conta nas diversas situações sociais do universo infantil. Assim como Monteiro Lobato em sua época discutiu questões de seu tempo, ela se preocupa em tratar das preocupações dos seus contemporâneos quando escreve. É notável como, sem deixar de lado o encanto e singeleza da linguagem, Ana Maria Machado busca evidenciar e trabalhar as situações reais da sociedade quando escreve, discorrendo sobre seus valores e ideais, abordando e discutindo diferentes e relevantes temas sociais de forma clara e interessante.


Veja a seguir alguns exemplos de temáticas sociais apresentadas por Ana Maria Machado em suas obras de literatura infantil:

De olho nas penas (Colonização, exílio e crítica à tradição)
Um pra lá, outro pra cá (Separação conjugal)

Beto, o carneiro (Identidade e respeito às diferenças)

Menina bonita do laço de fita (O preconceito e a diversidade cultural)
Bento que bento é o frade (Solidariedade)

História meio ao contrário (Crítica à tradição)


        Ana Maria Machado trouxe para a literatura brasileira um novo olhar e uma nova maneira  de contar histórias sem deixar de lado a função social da literatura infantil, tão importante para a formação do indivíduo e de um cidadão participante e crítico. Por isso, para ela, escrever para crianças pode ser tão ou mais complexo do que criar para adultos. Talvez, por esta razão, Ana Maria Machado não se preocupe apenas com a criação literária infantil, mas também com a reflexão acadêmica sobre o gênero, conforme comprova sua pesquisa “Contador que conta um conto faz contato em algum ponto”, monografia em que mostra as semelhanças entre nossas histórias populares com as que foram reunidas pelos Irmãos Grimm. Neste trabalho, a escritora também levanta questões importantes sobre a qualidade da literatura infantil e principalmente das edições, colocando os livros para crianças em local de destaque, longe da imagem de “bobinhos e simples”, que leitores, pais e até educadores têm sobre esse gênero literário.

           O trabalho, dedicação e cuidado com a literatura infantil levou Ana Maria Machado à conquista de vários prêmios:

João de Barro (Pref. Municipal de Belo Horizonte)
Altamente Recomendável (Fund. Nac. do Livro Infantil e Juvenil)
Prêmio Maioridade Crefisul (Crefisul)
Altamente Recomendável (Fundalectura, Bogotá, Colômbia)
Américas Award for Children's and Young Adult Literature (CLASP)
Lista de Honra (IBBY) 
Lista Melhores do Ano (Fundalectura, Bogotá, Colômbia)
Melhor Ilustração-Noma (Japão)
Melhor livro (Fund. Nac. Livro Infantil e Juvenil)
Melhor Livro Infantil Latino-americano (ALIJA - Buenos Aires)
Os 40 Livros Essenciais (Nova Escola)
Prêmio Casa de Las Americas (Casa de Las Americas, Cuba)
Prêmio APPLE (Instituto Jean Piaget, Suiça)
Prêmio Ofélia Fontes - O melhor para a criança (FNLIJ)
Selo de Ouro (Fund. Nacional do Livro Infantil e Juvenil)
Prêmio Jabuti (Câmara Brasileira do Livro)

Fontes:

www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe.sys/start.htm?infoid=133&sid=92

LAJOLO, Marisa. Ana Maria Machado: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico crítico e exercícios. São Paulo: Abril educação, 1983.

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