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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Didático e maravilhoso: O Saci, de Monteiro Lobato


Olá leitores, depois de uma aula de Literatura Infanto-juvenil com nosso professor da graduação (criador do blog), em que foi discutida a obra de Monteiro Lobato, resolvemos trazer à tona esse maravilhoso escritor que com sua obra foi o marco inicial da literatura infantil no Brasil.

Percebemos que não há na obra de Lobato uma leitura simplista e maniqueísta do mundo, pois a literatura do autor tem o viés de desenvolver o senso crítico no espirito da criança e, para tanto, não a trata como incapaz de desenvolver um olhar crítico sobre a literatura e a sociedade. No livro Caçadas de Pedrinho, por exemplo, quando os animais apavorados pela morte da companheira onça, fazem uma assembleia e traçam um plano de ação para resolverem a situação. Assim, o autor humaniza os animais, pois eles falam, incentivando/ensinando a criança que a organização faz parte da sociedade, e que devemos nos organizar para resolvermos assuntos que dizem respeitos a determinado grupo. Os animais não vencem, mas dão o maior susto nos moradores do sítio.

Na obra não paradidática do autor não há construção de narrativas voltadas predominantemente para a dimensão educativa, pois se há elementos que expressam preocupações didáticas, eles não convergem para o final. Há uma preocupação com o ensinar, mas isso não se sobrepõe ao fantástico, ao lúdico e ao maravilhoso. Não há amarração do discurso pedagógico voltado para o final feliz. Por exemplo, no fim da história de O saci, a personagem Narizinho é pega pela vilã Cuca e transformada em pedra e a luta então dos personagens Pedrinho e  Saci por reverter a mágica é o foco da narrativa, sobrepondo-se ao discurso escolar presente nas falas do personagem Saci, que ensina a Pedrinho os segredos da floresta e seus habitantes, sejam vegetais ou animais. E mesmo apresentando uma dimensão educativa, propícia para ser explorada nas auas de biologia ou ciências, seu discurso não parece um corpo estranho à ação narrativa pois se insere perfeitamente na trama, apresentando-se  natural à situação vividas pelos protagonistas, Pedrinho e Saci.  Como o primeiro desconhece a floresta e seus habitantes por ser criado no meio urbano e tenha curiosidade sobre esse mundo que lhe é desconhecido, as explicações do Saci são justificadas por uma necessidade da ação narrativa. Como se pode ver,  a obra pode ser explorada na sua dimensão mágica, pois a narrativa se apresenta como gênero de aventuras, juntamente com a sua  dimensão pedagógica, pois apresenta um olhar cientifico sobre a natureza, chegando mesmo a discutir de maneira muito crítica a relação homem x natureza através dos diálogos entre o Saci e Pedrinho.

 


Assim como argumentamos com respeito à obra O Saci, o discurso pedagógico também está em segundo plano, pois ocorre “perfeitamente” entrelaçado ao literário, de modo que, segundo Perrotti (1986), podemos considerar esse tipo de discurso como estético e, por consequência, o texto como sedutor.

Outro aspecto positivo de  O Saci é que a obra depõe contra a ideia de que Lobato é racista, pois o Saci é o herói da história e é dez vezes mais inteligente que Pedrinho. Essa questão do racismo em obras do autor já foi discutida aqui no blog, e pode ser vista por meio dos seguintes links: http://migre.me/caAR0; http://migre.me/caAS7; http://migre.me/caAU4.

Para finalizar, sem duvidas um dos grandes achados de Lobato foi conseguir mostrar o “maravilhoso” como possível de ser vivido por qualquer um. Com a mistura do imaginário com a realidade concreta ele mostra no mundo prosaico do cotidiano a possibilidade de ali acontecerem aventuras maravilhosas que, em geral, só eram possíveis nos contos de fadas ou no mundo das fábulas, e mesmo assim só vividas por seres extraordinários.
 
Por fim, uma observação a ser feita: essa postagem foi elaborada com base nas aulas da disciplina de Literatura infantojuvenil ministrada pelo Professor Doutor Marciano Lopes e Silva sobre Monteiro Lobato e as obras em questão.
 

Dicas:
 

Para quem quiser ler a obra Caçadas de Pedrinho completa: http://migre.me/cawK2
 
Para conhecer a vida e obra de Monteiro Lobato: http://migre.me/c5t21
 
Para quem não conhece a história do inicio da literatura infanto-juvenil em nosso país, no link http://migre.me/c5tlJ encontramos um pouco sobre marco inicial dessa literatura, um pouco sobre as contribuições e importância das obras “lobatianas” para o público infantil e também a ligação de seus personagens com o folclore, cuja presença na obra tinha como objetivo valorizar a cultura popular brasileira.
 

Referências

PERROTTI, Edmir.  O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Ícone, 1986
 

GT 2: Autores Consagrados

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A ilustração da obra de Monteiro Lobato ao longo do tempo



Monteiro Lobato é um dos autores consagrados da literatura infantojuvenil brasileira e um dos que mais contribuíram para ela. Qual adulto ou qual criança nunca ouviu falar do “Sítio do Picapau Amarelo”, das peripécias da Emília e das aventuras de Pedrinho e Narizinho? Nessa postagem vamos analisar, especificamente, a ilustração no livro “A chave do tamanho”, escrita pelo autor, e as várias capas que representam as suas diferentes edições.

Nas edições dos textos de Monteiro Lobato, por exemplo, dos anos de 1940 a 1960, percebe-se a presença de imagens, além do trabalho da capa, que acompanham o desenvolvimento do texto. Nesse caso, temos ilustrações em preto e branco (com as técnicas de xilogravura, de gravura em metal ou de litografia) esporádicas ao longo dos livros, mas que já apontam para a leitura que os ilustradores realizam das obras em questão (GOMES, 2010, p. 215).

           
            Apesar da importância das ilustrações nos livros de literatura infantojuvenil, principalmente nas capas, encontramos uma edição mais antiga do livro “A chave do tamanho” que não as apresenta, salvo uma pequena imagem da personagem Emília na capa, como podemos perceber na imagem abaixo:





            Também encontramos outras edições desse livro, mas que já possuem ilustrações em sua capa, respectivamente, em 1960, 1986 e 2008:




            
            Na edição mais antiga, sem ilustrações na capa, percebemos, mesmo que pequena, a presença da personagem Emília. Não observamos, porém, a presença de elementos que chamem a atenção da criança para a leitura, como exemplo, cores, recursos gráficos, outros personagens, como se observa nas outras capas. Nas capas de 1960 e 1986, há um enfoque sobre o personagem Visconde de Sabugosa, que aparece no centro das duas capas, colorido e de forma expressiva. Já na capa de 2008, o enfoque é voltado para a Emília, a natureza e outros personagens, sendo uma capa bem mais atrativa e colorida. Essas diferentes ilustrações podem nos mostrar que com o passar dos anos, a depender da época, mudam-se os valores e também as ilustrações.


Análise dos personagens Visconde e Rabicó:
Um contraponto entre 1986 e 2008


         Agora analisaremos, especificamente, as ilustrações dos personagens destacados presentes na edição do livro de Monteiro Lobato em 1986, comparando-as com ilustrações mais atuais. No ano de 86 as ilustrações foram produzidas por Manoel Vitor Filho, já no ano de 2008, pela Editora Globo:

(1986)   

   
(2008)
 

Notamos que há uma diferença gritante em relação as duas ilustrações acima. Na primeira, o personagem Visconde de Sabugosa é apresentado em preto e branco e com o tamanho real de um sabugo de milho. Em contrapartida, no ano de 2008, esse personagem é retratado com cores e do  tamanho de um adulto.

Em relação ao personagem Marquês de Rabicó também observamos essas diferenças:

(1986)
(2008)
          
Novamente, percebemos uma grande transformação na representação desse personagem. Em 1986, o personagem Rabicó possui aparência do animal porco, era quadrúpede e não usava roupas. No entanto, no ano de 2008, o personagem passa a apresentar características humanas, como o uso de roupas, na forma de andar e também na sua aparência. Dessa forma, nas palavras de Camargo:

“Se entendemos que a ilustração é uma imagem que acompanha um texto e não seu substituto; e se entendemos que a relação entre ilustração e texto não é de paráfrase ou tradução, mas de coerência, então abre-se para o ilustrador um amplo leque de possibilidades de convergência com o texto, convergência esta que não limita a exploração de linguagem visual, mas, ao contrário, pode incentivá-la (CAMARGO apud GOMES, 2010, p.218).”



Podemos então concluir que os ilustradores estão sempre buscando aperfeiçoar sua forma de representar por meio da imagem os sentidos do texto. Um mesmo texto pode ser ilustrado de diferentes formas, influenciado pela época, pelos valores, pela cultura, mostrando que ilustração e sociedade estão sempre relacionadas.


Referências:

GOMES, M. Lendo imagens: ilustrações das obras de Monteiro Lobato. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. Passo Fundo, v. 6, n. 2, p. 215-226. Jul./dez. 2010

LOBATO, M. A chave do tamanho. 29. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.

Grupo 06 - Ilustração do livro infantojuvenil