Mostrando postagens com marcador Teatro infanto Juvenil e Música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teatro infanto Juvenil e Música. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A leveza e a comicidade de O fantástico mistério de Feiurinha







O fantástico mistério de Feiurinha é uma peça infantojuvenil escrita por Pedro Bandeira publicada em 1986. No mesmo ano, ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro infantil.
 
Feiurinha é uma menina extremamente linda que foi criada por três bruxas (chamadas Ruim, Malvada e Pior Ainda) junto com Belezinha, a afilhada das bruxas. Feiurinha se acha realmente feia porque não sabe o que é o belo e porque acredita no que as bruxas lhe dizem. Junto de Feiurinha havia sempre um bode, que vinha a ser um príncipe que estava enfeitiçado; quando o feitiço se quebrou, Feiurinha se descobriu princesa, bela e amada por seu príncipe.
 
A história apresenta um aspecto inovador no tocante ao modo como inicia, pois a frase de abertura é a expressão cristalizada dos finais dos contos de fada tradicionais “e eles viveram felizes para sempre”. Feito esse preâmbulo, mostra como está a vida das princesas dos contos de fadas após o final ditoso das narrativas conhecidas. Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel e a Bela (da fera) estão todas casadas com seus príncipes encantados (agora são todas chamadas pelo sobrenome do marido: Branca Encantado, Cinderela Encantado...e por aí vai), grávidas e à véspera de comemorar as Bodas de Prata com seus maridos. A única que não se casou foi a Chapeuzinho Vermelho, que continuou solteirona e meio amarga com a vida por não ter conseguido um marido.
 
Chapéu (como agora é chamada) alarma as amigas sobre o desaparecimento de Feiurinha. Todas se reúnem no castelo de Dona Branca Encantado para procurar a solução para esse mistério.  As princesas descobrem que Feiurinha desapareceu porque sua história não foi escrita e decidem procurar um escritor. Por sorte do destino, a empregada do escritor conhece a história de Feirurinha e conta essa história para as princesas e para o escritor que registra a história em um livro.
 
Além da inovação no modo de abrir a narrativa, podemos encontrar em “O fantástico mistério de Feiurinha” mais dos aspectos que em que se verifica uma mudança crítica da estrutura canônica dos contos de fadas tradicionais: o conceito de beleza e a representação das princesas. Em Feiurinha o conceito de beleza foi invertido até certo ponto, pois feiurinha, apesar de sua beleza incomparável, sempre procura por “defeitos” (verrugas, manchas, etc.) em seu corpo, mas nunca os encontra e se acha muito feia porque não se parece com as bruxas que a criaram e com as quais vive.
 
Com respeito à inovação na representação das princesas, podemos observar que elas não são apresentadas como nos contos tradicionais, pois ao invés de seerem jovens e belas, elas estão todas casadas, grávidas (exceto Chapéu) e já são senhoras com cabelos brancos. Branca Encantado é um pouco burrinha (tem dificuldades para entender o que Chapéu lhe fala), Chapéu é gorduchinha e um pouco amarga com a vida, Bela (adormecida) só dorme e ronca, Rapunzel reclama que está com dor de cabeça porque seu marido está gordinho e insiste em subir pelas suas tranças, Cinderela tem calos nos pés devido ao sapato de cristal... todas as princesas tem defeitos! Estão mais velhas! São mulheres “de verdade”!
 
Conforme se vê, a peça apresenta uma intertextualidade com os contos de fadas mais conhecidos do público infantil. Entretanto, Pedro Bandeira humaniza, de forma leve e engraçada, as princesas ao mesmo tempo em que satiriza a ideia simplória de que o casamento deve é a realização mais importante na vida das pessoas, pois demonstra que ele não é a garantia de uma vida  perfeitamente feliz, sem problemas e tristezas.

 

Referências:
 

http://www.pedrobandeira.com.br/conheca-o-pedro/historia.aspx



GT 4: Teatro e música infantojuvenis

Pluft, o fantasminha legal de Maria Clara Machado




A peça intitulada Pluft, o Fantasminha, faz parte do cabedal de obras e montagens da autora Maria Clara Machado, grande nome da literatura e dramaturgia infantojuvenil. Escrita e encenada  pela primeira vez no ano de 1955 pelo grupo de teatro Tablado - grupo fundado pela própria autora no ano de 1951, no Rio de Janeiro -, o qual tinha por objetivos a formação e a produção de espetáculos por parte de seus membros.

 
Devido ao sucesso da peça, tanto no âmbito do público quanto por parte da crítica, a peça ganhou uma versão cinematográfica no ano de 1961, com o cineasta franco-brasileiro Romain Lesage, e uma versão em forma de minissérie, estralada na Rede Globo de Televisão, no ano de 1975, em uma aliança estabelecida com a TV Educativa.

O próprio título da obra já aponta para dois aspectos peculiares à literatura infantojuvenil. O primeiro  é a presença do fantástico/maravilhoso, “categoria” literária que encontra segura definição, conceituação e explicação nos traçados e linhas do filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, sobretudo em seu livro Introdução à Literatura Fantástica, e que desde os tempos mais ermos ocupa significante espaço em meio à curiosidade e ao imaginário humano, materializada na peça pela presença dos fantasmas. O segundo é a marca do diminutivo como representação de afetividade, aliando-se ao longo do texto com uma linguagem simples, elaborada para atender ao público infantojuvenil, fato que se apresenta como tentativa de minimizar a assimetria inerente às produções do gênero (na grande maioria escritas por adultos para crianças).
 
A peça retrata a existência, em um sótão de uma antiga casa, de uma família de fantasmas muito simpática, composta por Pluft, sua mãe e o Tio Gerúndio. Pluft, personagem protagonista, é caracterizado como alguém que possui um medo imenso de pessoas (percebam ao mesmo tempo uma inversão de uma estrutura tradicional, visto que o que se tem por convencional é o medo que as pessoas possuem dos fantasmas e a exploração do conceito de que tememos aquilo que não conhecemos). Sua mãe, que não é singularizada por um nome próprio, é exímia cozinheira de pasteis de vento. Tio Gerúndio,  por sua vez, é caracterizado a partir do seu nome próprio, que se apresenta relacionado com a manutenção de seu hábito primordial de manter-se dormindo dentro de um enorme baú (sabemos que o gerúndio, marcado morfologicamente pelo acréscimo da terminação "ndo", é uma marcação de forma nominal dos verbos que atribui um efeito de continuidade às ações representadas ).
A aparente tranquilidade em que vivia a família fantasmagórica é quebrada quando o Capitão Perna de Pau, desejoso por encontrar o antigo tesouro do Capitão Bonança (nome intimamente ligado à sua condição moral como nobre Capitão) e acreditando que ele estja localizado no sótão em que moravam os fantasmas, rapta a neta do antigo capitão, a muito simpática e bondosa Maribel, a qual maném uma relação de amizade com Pluft (ponto em que se pode ver uma “indicação moral” em relação ao respeito às diferenças e ao valor da amizade). Sua amizade com Pluft é importante pois  faz com que ele passe a confiar nas pessoas, crie coragem e se mostre engajado no resgate da moça juntamente com João, Julião e Sebastião, todos nomes com aumentativo, o que causa uma expectativa de seriedade com respeito à trama e aos próprios personagens. Entretanto, os  amigos marinheiros da moça, sempre muito atrapalhados, conferem  bons momentos de comicidade, proporcionando uma ruptura com a expectativa apontada.

GT 04 : Teatro e música infanto-juvenis

domingo, 18 de novembro de 2012

Maria Clara Machado, o maior nome do teatro infantil.


No quesito teatro infantil brasileiro, o nome de maior destaque é Maria Clara Jacob Machado. Nascida em Belo Horizonte em 1921 e criada no Rio de Janeiro onde morreu em 2001 aos 80 anos de idade, foi escritora, diretora, professora e atriz.
 
O seu aprendizado teatral se iniciou na década de 1940 quando Maria Clara se dedicou ao teatro de bonecos. No início da década de 1950 foi para a França estudar teatro e depois para a Inglaterra.
 
Juntamente com alguns amigos a autora funda, em 1951, o grupo de teatro O Tablado. Para o público infantil Maria Clara Machado escreveu 27 peças teatrais e, para o público adulto, escreveu 5 peças teatrais.Sua primeira peça teatral voltada para o público infantil foi O Boi e o Burro a Caminho de Belém, a qual ela mesma escreveu e dirigiu em 1953. Depois vieram diversas outras peças infantis, dentre as mais famosas Pluft, o Fantasminha, O Cavalinho Azul e A Bruxinha que Era Boa. A linguagem das peças de Maria Clara Machado é uma linguagem simples e os temas, tais como o medo de crescer, o descobrimento do outro, são temas atemporais.
 
Imagem de A Bruxinha que Era boa:
 

Imagem de Pluft, o Fantasminha:
 

Imagem de O Cavalinho Azul:


 

GT-4: Teatro e música infanto-juvenil

As canções de "Os saltimbancos" e a ditadura militar - considerações finais



Em vias gerais, todo ciclo tem seu começo e seu fim, dando espaço a outro que venha lhe ocupar o lugar, exceto em raros e bons casos cujo percurso se faz infinito pelo saber dos ventos e dos tempos. Sem fugir a regra, encerramos com essa postagem um ciclo* destinado a trazer nossas considerações a respeito da obra Os Saltimbancos, versão de Chico Buarque da consagrada montagem Os músicos de Bremmen, dos irmãos Grimm, tingidas sobre as cores de um passado cinzento que cobriu o céus de nossa nação, ganhando nas entrelinhas a crítica sublime de quem reprova e age com as armas que lhe são inerentes: as palavras. Ressaltamos aqui, que apesar do número de postagens dedicadas ao tema e do trabalho que se empreendeu (cuidadoso com as análises alegóricas, trechos e sentidos), não tivemos a pretensão de esgotar as possibilidades de leitura, de abordagem e de estudo, visto que a obra por si só tem como aspecto positivo estar aberta a interpretações, sendo atualizada cada vez que se aponta novo norte de interesses e curiosidades.
 
De acordo com Rufino (2008), durante o período ditatorial brasileiro, todo tipo de produção cultural (jornais, teatro, música, cinema etc.) foi influenciada pela situação sociopolítica do país, já que após os atos institucionais I, II e III, as atividades culturais ganharam grande função política como local de possíveis discussões e resistência à ditadura, devido ao seu caráter de formadoras de opinião e comportamento. Assim, os artistas, somados aos estudantes e intelectuais, sentiram a pressão do governo que tentou calar quem tinha algo a falar.
 
Segundo o site Virtuália – O Manifesto Digital, Chico Buarque foi um dos compositores mais censurados durante a ditadura. Tanto as canções de protesto quanto as que se referiam aos costumes da época sofreram com a censura.
 
Os problemas de Chico Buarque com a censura começaram junto com a sua carreira. Em 1966, a música “Tamandaré”, incluída no repertório do show “Meu Refrão”, com Odete Lara e MPB-4, é proibida após seis meses em cartaz, por conter frases consideradas ofensivas ao patrono da marinha. Era o começo de um longo namoro entre a censura e a obra de Chico Buarque.
 
No período tornou-se comum a estratégia de compositores utilizarem muitos discursos metafóricos para burlar a censura (como por exemplo, os animais das canções já descritas que poderiam, se compreendidaos como alegorias, representar vários tipos humanos). Rufino (2008) ressalta que uma frase muito difundida no meio artístico era: “Silêncio ou metáfora”, e que as ações de cantar e gritar, nas músicas da gata e do jumento, “funcionam como metáforas para a resistência” e para a rebeldia. Ambos se rebelaram contra seus donos na fábula quando decidiram abandoná-los e seguir para a cidade, do mesmo modo se rebelaram por meio da música (a gata cantando e o jumento berrando). Rufino (2008) faz uma leitura de que os dois animais são tomados metaforicamente como o “povo” e seus senhores como o governo ditatorial (isso foi muito abordado na análise das quatro canções dos animais principais da peça).
 
Em seu estudo, Rufino (2008) aponta que as canções História de uma Gata e O Jumento enquadram-se em um paradigma de produção que buscava burlar “a censura e as leituras feitas pelos órgãos governamentais”. As canções, avaliando todas da peça Os Saltimbancos como um geral,
 
possuem um público bem específico (infantil) a ser persuadido. Para alcançar seu objetivo, o enunciador se desdobra com esmero para conquistar o enunciatário, que, como vimos, tornou-se um leitor que espera ser surpreendido a todo momento. As estratégias de persuasão que foram evidenciadas em nossa análise possuem como traço característico o aspecto lúdico. Elas interpelam a criança, colocando-a sempre numa situação de estranhamento (Rufino, 2008, p.124).
 
Assim, as letras das canções da peça Os Saltimbancos, utilizando-se da figuração, pretendiam conquistar os públicos adulto  e infantil mostrando-lhes que a rebeldia era possível e necessária, o que era exemplificado (ou melhor, sugerido alegoricamente) pelos animais deixando seus donos, se livrando da submissão e da exploração.


* Link para as outras análises das canções de Os saltimbancos:

1. Teatro, música e poesia: Os saltimbancos, de Chico Buarque

2. Um dia de cão: latidos e lamúrias em Os saltimbancos

3. A galnha de Os saltimbancos: uma análise marxista

4. Acomodação e consciência: faces de um mesmo jumento em Os saltimbancos, de Chico Buarque

 
 
Referências
 
RUFINO, Janaína de Assis. Entre homens e animais: análise semiótica de letras de canções infantis. In: Mal-Estar e Sociedade. Ano 1, v. 1, n. 1. -- Barbacena, MG : EdUEMG, 2008.

Site Virtuália. URL: http://virtualiaomanifesto.blogspot.com.br/2008/07/msica-e-censura-da-ditadura-militar.html

GT4 - Teatro e música infanto-juvenil

Adaptações de clássicos da literatura para o teatro infantojuvenil - O guarani, de josé de Alencar


O GUARANI "O AMOR DE PERI E CECI"
Inspirado na obra de José de Alencar “O Guarani” (1857) a companhia maringaense Circo Teatro Sem Lona, dirigida por Pedro Uchoa, criou o espetáculo O Guarani “O amor de Peri e Ceci” que é apresentado há mais de uma década. A montagem utiliza linguagem e técnicas circenses (características da companhia), sendo irreverente, satírico, musical, permeado por doses de humor.
Peri (índio forte e valente) e Ceci (moça branca de olhos azuis, herdeira de moralidades familiares) são os personagens principais do romance O Guarani, considerado um “mito brasileiro” por sugerir a criação de uma raça pura para o povo do Brasil. Carregado de nacionalismo, a obra faz Peri e Ceci os únicos sobreviventes de uma forte tempestade que se transforma num dilúvio. Então ambos iniciariam uma nova raça para o Brasil.
Na montagem do Circo Teatro Sem Lona, a história é encenada por quatro clowns, que através do amor platônico de Peri por Ceci tentam transmitir um pouco da obra de Alencar para as crianças. As encenações geralmente acontecem num picadeiro onde são valorizadas as cores e vegetações brasileiras (elementos muito trabalhados por José de Alencar no livro). A encenação é conduzida por arranjos e músicas nacionais. Também enriquecem as estripulias os sons incidentais.
Para quem não sabe, clown refere-se a tipos de palhaços de palco e circo, inspirados no bobo da corte que evidenciava seus próprios “defeitos” para se fazer engraçado. O trabalho cênico com a figura do palhaço, ou clown, segue a mesma regra de apropriação das próprias características em função do cômico. Os clowns possuem uma mesma essência: expor a estupidez do ser humano, considerando verdades sociais sob um ponto de vista relativo, e não absoluto. O palhaço apresenta-se como o ser que falha, que erra, que se confunde, se atrapalha, e vem dizer “eu sou como você”, mostrando que não há mal nenhum nisto. O clown põe em desordem uma certa ordem. Erra onde não esperamos, e, outras vezes, acerta onde não esperamos, tendo um aspecto sempre inusitado.
Segundo o site da companhia O GuaraniO amor de Peri e Ceci” já participou de vários festivais nacionais, dentre eles o de Florianópolis (Isnard de Azevedo) no qual conquistou o prêmio de melhor espetáculo, e recentemente participou do FILO, Festival Internacional de Londrina (não premiativo). Também participou do projeto “Comboio Cultural”, do governo do estado do Paraná em 2003. E em 2005 participou da Caravana Funarte de Circulação Regional com 20 espetáculos nos estado de São Paulo e Paraná.
Aqui está um vídeo com um trecho do espetáculo da companhia. Vale a pena conferir o espetáculo!

 

Um pouco sobre o Circo Teatro Sem Lona ...
 
É uma companhia independente criada com o objetivo de pesquisar e criar uma linguagem teatral inspirada nas companhias de circo-teatro que movimentaram a circulação de espetáculos pelo interior do Brasil, desde a década de 50. Devido a falta de espaço adequado para a prática teatral, a companhia adotou o procedimento de promover espetáculos para espaços alternativos. O grupo desenvolveu, ao longo dos anos, uma linguagem própria fundamentada em estudos, pesquisas de campo com a realização de espetáculos em localidades inusitadas, o que confere aos trabalhos uma característica própria e inédita.

Referências

GT 4: Teatro e música infantojuvenis

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Acomodação e consciência: faces de um mesmo jumento em "Os saltimbancos"

Trecho do espetáculo "Os Saltimbancos", fruto do projeto "Teatro e Voz",
realizado por alunos do colégio Mackenzie no segundo semestre de 2009. 
Mais informações:


O Jumento
Composição: Enriquez - Bardotti - Chico Buarque

Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
O pão, a farinha, feijão, carne seca
Quem é que carrega? Hi-ho
O pão, a farinha, o feijão, carne seca
Limão, mexerica, mamão, melancia
Quem é que carrega? Hi-ho
O pão, a farinha, feijão, carne seca
Limão, mexerica, mamão, melancia
A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira
Quem é que carrega? Hi-ho
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
Hi-hooooooooo

Podemos ver nessa música, tal como ocorre nas demais letras compostas para a peça Os saltimbancos, um cuidado linguístico rigoroso por parte de Chico Buarque, conciliando sonoridade, significação, ambiguidades (tão ricas para a semântica do texto e tão necessárias ao momento vivenciado no país, sendo necessário concentrar e condensar o conteúdo crítico nas entrelinhas dos textos).
 
Na peça, o jumento, cansado de tanto trabalhar sem recompensa, decide fugir para a cidade, sonhando trabalhar como músico. No caminho encontra o cachorro, desiludido com seu antigo dono, por só lhe obedecer sem nunca receber nenhum tipo de reconhecimento. O jumento vendo o cachorro como seu semelhante o convida para ir à cidade. Pouco depois, ambos encontram a galinha, que também tinha fugido de um dono mau, e mais adiante, a gata que não suportava mais viver presa. Assim, o jumento é aquele que inicia o processo de revolução, e parte rumo à cidade em busca de uma nova concepção, de uma nova chance, de um novo ideal.
 
Logo de início o autor tenciona apresentar quem é o personagem de quem irá falar, ou seja, o jumento. Para apresentá-lo, Chico Buarque, de modo muito sagaz, se utiliza de uma construção que tange a duplicidade semântica. A canção apresenta o animal jumento como não sendo o malandro da praça, com figura de destaque/esperteza, o que pode implicar a leitura de que o termo jumento possui um valor de adjetivação e conotação pejorativa, assim como o nome do animal “burro” constantemente utilizado no nosso cotidiano.
 
No decorrer da letra nos deparamos com a sentença “trabalha e trabalha de graça”. Valendo-nos de uma abordagem marxista, podemos considerar que essa assertiva estabelece diálogo direto com o conceito de mais valia, consistindo no lucro obtido pela diferença entre o valor da mercadoria que se produz e a somatória dos gastos e meios de produção. Na canção, o jumento pode representar o homem também considerado uma mercadoria, fazendo parte dos meios de produção, assim, revela-se a exploração e a subversão da condição humana.

Logo em seguida temos uma sequência muito significativa “Não agrada a ninguém, nem nome não tem, é manso e não faz pirraça”. A ausência de nomeação pode ser definida como clara perda de identidade ou generalização. Isso é reforçado pelo fato de a história do jumento ser narrada em terceira pessoa mostrando que o animal pode ser qualquer indivíduo que trabalhe e seja explorado como ele.
 
Aproximando-se novamente de uma análise marxista, temos que o indivíduo passa a ser meramente um número a representar cifras e força de trabalho. Possível se faz também ampliarmos um pouco o leque de interpretações e considerar que o cerceamento da liberdade, característica marcante do período ditatorial, resulta em perda de consciência, em alienação e, consequentemente, na ausência de uma identidade. A mansuetude, originalmente postulada como virtude irmã da paciência, também possui no texto seu significado transfigurado, correspondendo a um estado de passividade indesejável. Não fazer pirraça compreende essa mesma passividade,. A ausência de reações, ou seja, de revoltas contra a ordem de repressão vigente, logo assume na letra um valor disfórico. Entretanto, em certa altura, há uma reviravolta na direção da descrição do jumento. A partir da sentença “mas quando a carcaça ameaça rachar, que coices, que coices, que coices que dá”, em que o indivíduo percebe que a sua posição está posta em jogo, há uma mudança de postura, resultando em um enfrentamento, em uma resposta ativa perante o caráter opressivo e violento. Dar coices assume um valor eufórico, pois é a tomada de consciência do jumento. O ato de rebelar-se, dando coices, aponta a afirmação da identidade do animal, mostrando seu modo de defesa (assim como as bicadas da galinha).  Ainda, percebe-se a tomada de voz pelo jumento na canção, através do discurso direto, quando ele responde às questões sobre quem faz o trabalho pesado, com as expressões onomatopeicas “hi-ho” e “hi-hoooo” nas segunda e terceira estrofes.

Tais considerações nos remetem a dois pontos distintos. O primeiro ponto a ser considerado é o poder de superação. De um modo geral, o ser humano desconhece a força e o potencial que tem até que seja colocado à prova, isto é, até que uma situação extrema sirva como intermediária para que se possa vislumbrar aquilo que de fato se pode fazer. O segundo ponto diz respeito à indiferença. Verificamos que até esse trecho da canção o personagem é tido como alguém que se mantém alheio, e que só toma alguma atitude quando a ausência de um posicionamento afetar diretamente o seu estado. Diferentemente do ideal utópico de igualdade pregado pelo socialismo, vemos, a cada dia, um avanço do lema “cada um por si, Deus por todos”, em uma sociedade corrompida pela gana excessiva, pela valorização do ter em detrimento ao ser, pela posse e o consumismo. Assim podemos considerar que a música passa de um valor disfórico (de opressão) para um valor eufórico (de ataque).
 
Em uma análise de caráter mais abrangente, podemos ler esse texto musical como uma carta de engajamento por uma sociedade mais justa, de modo a levar os indivíduos a refletirem sobre sua condição alienada e abandonarem o estado passivo. Todos aqueles que se encontram imersos na massa, levados ao sabor dos ventos, poderiam tomar para si a conotação positiva do adjetivo jumento e, desta forma, poderiam lutar por mudar suas vidas para melhor.
GT4 - Teatro e música infanto-juvenil



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um dia de cão: latidos e lamúrias em "Os saltimbancos"


Continuando as postagens sobre o musical “Os Saltimbancos”, hoje trataremos da música “Um dia de cão”, da personagem do cachorro, a qual nos remete aos militares, figuras muito presentes no contexto histórico em que a obra foi adaptada à realidade brasileira. Durante o período ditatorial brasileiro os militares formaram a linha de frente na defesa do regime, sendo o soldado aquele que cumpria as ordens de maneira fiel e sem questionamentos, pautado na lealdade e defesa da pátria.

Interessante se faz notar que o texto se inicia com uma frase que pode ser tomada em um sentido denotativo, expressando o dia-a-dia do animal em questão, personagem da peça, como pode ser entendido por um sentido conotativo, remetendo a uma expressão de cunho popular utilizada para se referir a dias tortuosos, complicados, em que nada parece dar certo.

 
Podemos tomar como exemplo do rigor militar e da obediência cega ao regime em vigor, o seguinte no trecho:
 
Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas

Nesta parte da canção vemos o comportamento ideal de um soldado que: sempre leal não se opor ao regime e obedece sempre. O uso da palavra “caserna” deixa claro que a personagem se refere aos militares, pois “caserna” é o termo utilizado para se referir a uma construção destinada ao alojamento de soldados. “Não fazer baderna” pode remeter a ideia de não se revoltar, não se rebelar, ou manter a ordem vigente. A frase ‘o rabo entre as pernas’ faz remissão a obediência, a impossibilidade de se ter algo diferente do que lhe é imposto, mandado. Ainda, na última estrofe, o cão fala das suas obrigações, como militar, de guardar os interesses do regime:

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão

Porém o cachorro apresenta seu descontentamento com a situação da obediência cega e, em um momento de iluminação reflete sobre o seu trabalho e percebe que, na verdade, a única fidelidade que ele tem é a sua necessidade de sobreviver. Assim, termina percebendo a degradação pela qual sua vida vem passando:

Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão

 
Letra completa da canção:

Um dia de cão

Apanhar a bola-la
Estender a pata-ta
Sempre em equilíbrio-brio
Sempre em exercício-cio
Corre, cão de raça
Corre, cão de caça
Corre, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu,
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin

Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas
Volta, cão de raça
Volta, cão de caça
Volta, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Estou às ordens
Sempre, sim, senhor

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome

Sempre mordomo
E cada vez mais cão

Segue abaixo o link inerente a música dessa postagem.


A galinha de "Os saltimbancos": uma análise marxista


Dando continuidade à análise das músicas da peça Os saltimbancos, trazemos como conteúdo dessa postagem algumas considerações acerca da música A Galinha, de composição de Enriquez, Bardotti e Chico Buarque. Segue abaixo um vídeo em que Ana Cláudia Padilha  interpreta "A galinha":


 


A Galinha

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô
Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada
A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
"Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja"
Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada
Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda
Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
Com rimas que se alternam entre emparelhadas e alternadas, com palavras de fácil compreensão e colocando como centro de autoria do discurso a galinha, um dos quatro animais protagonistas do drama Os saltimbancos, a música A galinha figura em um primeiro momento como uma produção tipicamente infantil. Entretanto, lembremos, caro leitor, que não só estamos tratando de produções feitas no período da ditadura, em que a repressão e a censura se faziam da ordem vigente, como estamos falando de Chico Buarque, autor de inteligência e sensibilidade ímpares no processo de criatividade. Desse modo, é preciso aprofundar nosso olhar para algumas relações que se apresentam no nível do não dito, a fim de realizar algumas inferências que nos permitam chegar mais perto de uma compreensão significativa desta composição.
 
Atentemos inicialmente para a escolha do “narrador” da história em questão, ou melhor, da história relatada na canção. Mesmo se tratando de um texto fabular, em que os animais aparecem como protagonistas dos diálogos e das ações, percebemos que a escolha do personagem a partilhar as ideias presentes na letra da música não foi casual. Dentre os personagens, o único animal que fornece alimento, de modo direto, é a galinha (seja por meio de sua própria carne ou do ovo que a mesma bota). Sabemos, segundo algumas abordagens psicológicas que o corpo é instância inviolável do ser, aquilo que possui  de exclusivamente seu. Desse modo, a galinha apareceria como um dos personagens mais estigmatizados, o que justificaria a construção da composição em tons de lamento e desabafo.
 
No início da canção a galinha, que canta a música, diz: "Todo ovo/ Que eu choco/ Me toco/ De novo/ Todo ovo/ É a cara/ É a clara/ Do vovô". Quando verificamos o uso feito pela galinha do verbo tocar, precisamos ir além do que o significado tradicional com o qual estamos acostumados, ligado as questões sensitivas do tato. Temos aqui a multiplicidade dos sentidos em ação, trazendo para o texto a possibilidade de fazer remissão também à gíria “tocar”, em que o verbo aparece agora pronominalizado, ganhando como definição o "cair em si" sobre alguma coisa. No caso do texto analisado, "cair em si" sobre o fato de que todo o ovo que ela choca não vinga, ou seja, não vira um filho seu – um pintinho com as características hereditárias de seus ancestrais (o vovô) -, mas sim um ovo para consumo.
 
Na segunda estrofe, a galinha afirma que ficou bloqueada em relação à produção de ovos, e pela noite, ao invés de chocar, ela só sonha com gemadas. Essa estrofe parece ter dado humanização aos “sentimentos animais”, como se a galinha ao pensar que todos os ovos que bota fossem parar em gemadas, ficasse chocada e, por isso, bloqueada, ou seja, incapaz (por razões psicológicas) de botar os ovos. O termo bloqueada, aliado a simbologia do objeto ovo, pode também remeter ao cerceamento da liberdade, e, consequentemente, da vida por conta da repressão vivenciada nos anos de ditadura militar.
 
Passando a terceira estrofe do poema, temos uma remissão crítica aos processos de reificação e exploração do trabalho e ao fetiche da mercadoria, muito comentados nos trabalhos e abordagens socialistas de Lucáks e Goldman, em que o ser passa a ter seu valor de uso e de troca, tornando-se descartável quando sua produção não mais se concretiza. Da mesma forma, se um animal não produz com sucesso – se a galinha não bota mais como antes – ele é vendido ou abatido para virar alimento – no caso da galinha, uma canja -, e assim ainda gera lucro ao seu “dono”. A parte da canção “As galinhas sérias/ Jamais tiram férias” carrega forte carga de ironia, pois pauta-se em um grande oximoro. Para atender as necessidades do comércio, as galinhas produzem ovos durante todo o ano. Entretanto, quanto mais trabalham, sendo “mais produtivos”, mais se cansam, se degradam, passando a um estado de improdutividade. Tal reflexão nos remete diretamente ao estilo de produção fabril iniciado no final do século XIX, em que os funcionários eram submetidos a longas e penosas jornadas, quase ininterruptamente, a fim de contribuir fisicamente com seu quinhão para os lucros de quem tivesse a posse dos meios de produção.
 
Ressaltamos também um aspecto mais linguístico verificado na letra da música. A repetição dos pontos de exclamação e interrogação evidenciam que a galinha furiosa reclama ao seu “dono” pelo troco que ele a dá – a morte – por anos de choco, produção e lucro: Ah !!! é esse o meu troco/ Por anos de choco???/ Dei-lhe uma bicada/ E fugi, chocada”. Nas duas últimas frases percebemos o quão frágeis são os animais em relação ao homem, a única coisa que uma galinha podia fazer era bicar o homem, enquanto este pode matá-la facilmente.
 
Mais uma vez a galinha é humanizada, pelo fato de se expressar que ela queria cantar, enfim ser livre e feliz. E a canção termina com mais uma profunda crítica ao dizer que “um bico a mais/ Só faz mais feliz/ A grande gaiola/ Do meu país”, ou seja, um animal a mais é lucro a mais. Do mesmo modo podemos perceber uma transferência de sentido, no qual o bico simboliza um homem, um homem a mais num país, caracterizado como gaiola, é só mão de obra a mais. A gaiola é um elemento de forte correlação simbólica com aprisionamento, com uma visão fechada de mundo, com o conservadorismo que possibilita a visão, mas engessa a ação daquele que está dentro dela.         


Link para as outras análises das canções de Os saltimbancos:

Teatro, música e poesia: Os saltimbancos, de Chico Buarque

Um dia de cão : latidos e lamúrias em Os saltimbancos

Acomodação e consciência: as faces de um jumento em "Os saltimbancos"


GT 4 - Teatro e música infantojuvenis                            

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Vídeo com animação de "Menina bonita com laço de fita", de Ana Maria Machado

Já que estamos falando de relações etnicorraciais e ideologia na literatura infantojuvenil, não podemos deixar de mencionar, ler e discutir "Menina bonita do laço de fita", obra premiada e consagrada de Ana Maria Machado devido ao tratamento conferido à questão racial.
 

Abaixo, link para vídeo de uma dramatização do texto de Ana Maria Machado feita por alunos da Escola Evangélica Daniel Berg em Araguatins-TO.

http://ciberensino.blogspot.com.br/2010/05/dramaatizacao-de-menina-do-laco-de-fita.html

prof. Marciano Lopes
 
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Teatro, poesia e música: "Os Saltimbancos", de Chico Buarque


 
Texto, música, teatro. Uma rápida e superficial observação e você, caro leitor dessa página, será levado a pensar que se tratam de unidades estanques, cujo único diálogo se dá na soma dos dois primeiros para a configuração do último. 
“Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres. Senhor, senhora, ou senhorio. Felino, não reconhecerás”. Quem é que nunca ouviu esse trecho da música “História de uma gata”, de Chico Buarque?
Pois bem, visto que nossa disciplina tem por conteúdo a abordagem de tópicos de literatura infantojuvenil, e que ficamos incumbidos de tecer algumas considerações acerca de teatro infanto-juvenil e música, não poderia faltar em nossas postagens uma referência a peça Os Saltimbancos.
Os Saltimbancos constituiu-se em um musical elaborado no ano de 1977, tendo por base uma adaptação de  texto homônimo do italiano Sergio Bardotti, texto esse que bebe na consagrada fonte das fábulas dos Irmãos Grimm, explorando o conto Os músicos de Bremem. Interessante se faz, antes de podermos adentrar as especificidades do texto, verificar seu contexto de produção. 
No período em que foi produzida, o Brasil estava mergulhado em um terrível momento de censura decorrente da imposição das forças militares no comando da ditadura. Anos negros que cobriram os céus de nossa pátria até o ano de 1985, pois foram marcados por intensa repressão a toda e qualquer forma de expressão que se voltasse contra o regime. Em meio a tantas barreiras, aguçaram-se as habilidades fundamentais de nossos grandes autores, que souberam explorar as riquezas da linguagem, a infinidade de palavras e a multiplicidade dos sentidos, colocando por detrás das máscaras de simplicidade densas críticas e reflexões. Tal tessitura pode ser verificada nos escritos de Chico Buarque, estando inclusa a peça em questão.
O enredo da peça apresenta grande fidelidade quando comparado ao conto original dos Grimm, tendo, no entanto, modificações pontuais de Chico Buarque, as quais possibilitam um novo olhar acerca da fábula. A peça relata o encontro de quatro animais, sendo eles um jumento, uma galinha, um cachorro e uma gata, que possuíam em comum o fato de terem sido maltratados pelos seus respectivos donos. Encontrando-se, tem a ideia de juntos formarem uma banda, rumando para a cidade com o objetivo de se apresentarem e lá viverem. No meio de sua jornada, deparam-se com os antigos donos, instalados em uma casa. Então, juntos decidem encará-los, com o intuito de não mais sofrerem com os abusos e violências de seus antigos mandatários. Saem vitoriosos desse embate de forças, e percebem que a partir daquele instante, poderiam, como uma equipe, superar toda e qualquer adversidade.
Citamos como primeira modificação no texto dos Grimm o motivo pelo qual os animais acabam fugindo de seus antigos lares. No conto Os músicos de Bremem temos a partida dos quatro animais em decorrência da eminência de morte que lhes competia pela ausência de serventia perante seus donos. O jumento, pela idade avançada, já se mostrava fatigado e não conseguia desempenhar seu trabalho; o cão não servia mais para a caça; o gato preferia ficar deitado e ronronar do que caçar ratos; e o galo serviria de alimento aos convidados de seu senhor - realidade mais próxima de um lado“natural” postulado nos demais contos e fábulas dos Grimm. Já na adaptação de Bardotti e Chico Buarquepodemos pensar uma “suavização” dos motivos, visto que, os animais fogem devido aos maus tratos sofridos. Pensando no contexto em que foi adaptada por Chico Buarque, podemos pensar também que, ao invés de uma suavização, têm-se a materialização da violência e da repressão vividas no período do regime militar. 
Um segundo ponto que vale a pena ser mencionado como diferença significativa entre os textos se faz na inserção, no texto de Chico Buarque, de personagens femininas. No conto dos Grimm todos os personagens são masculinos (jumento, cão, gato e galo). Já na adaptação de Chico, temos uma gata ao invés de um gatoe uma galinha ao invés de um galo. Tal troca poderia ser justificada por mera causalidade. Mas lembre-se, caro leitor, de duas coisas  em primeiro lugar, estamos lidando com um autor de inteligência perspicaz, como é o caso de Chico Buarque, em que nada aparece de modo solto; segundo, que pensando no contexto em que o texto é escrito, efervesciam discussões e ganhava corpo a revolução feminista. Desse modo, colocando duas personagens femininas e duas masculinas, Chico consegue abordar as questões de igualdade dos sexos. 

Uma segunda explicação, segundo alguns críticos, reside em uma leitura alegórica do texto: cada animal serviria como importante alegoria para pensarmos sobre o que estava acontecendo no contesto ditatorial. Desse modo, o burro corresponderia à inteligência; a galinha representaria a classe trabalhadora (operários); o cachorro, os soldados na hierarquia militar e a gata estaria representando a classe artística. Por sua vez, o barão, que aparece textualmente como antagonista, seria uma representação da elite, da classe detentora de poder e, pensando em um âmbito mais fabril, dos meios de produção. 

Música

A música exerce função fundamental dentro dos processos de compreensão da peça. Muito mais do que suscita a superficialidade das músicas infantis, apresentando canções que se ligam mais ou menos a cada um dos animais e dos momentos, aborda em suas letras verdadeiros planos de conscientização, de reflexão e de poesia. As músicas intercalam alguns momentos da peça, sendo interpretadas por um ou alguns personagens. 
Nessa postagem abordaremos a música História de uma gata, que tem como preâmbulo um diálogo entre os animais. Com um refrão aparentemente simples, Chico discute a questão da liberdade, dialogando com a condição financeira das classes: “nós, gatos, já nascemos pobres/ porém, já nascemos livres”.

Os “pobres” são livres, e por livres podemos entender a liberdade de convenções sociais, de aparências e, principalmente, livres por não terem essa mesma ilusão de liberdade que hoje nos rodeia, quando não percebemos sermos escravos de nossas próprias criações e necessidades. A canção critica ainda a naturalização de elementos que se dão por meio dessas mesmas convenções sociais, o automatismo a que nos atamos. Utiliza verbos fortes, que se não forem entendidos em seu sentido mais amplo, aparecem apenas como meras figuras de estilo e de retórica, como na parte que segue: Me alimentaramMe acariciaramMe aliciaram/ Me acostumaram. Podemos imaginar toda essa parte como uma gradação, em que “alimentar” se refere aos sonhos e esperanças que nos injetam e nos penetram dia e noite ao longo de nossas vidas. Acariciar poderia estar simbolizando uma tentativa de remediar as dores causadas pelo mundo, ou uma forma de atrair uma falsa impressão amistosa, rodeada pelos mais mundanos interesses, o que levaria ao passo seguinte, aliciar, com sentido de seduzir, convocar. Por fim, "me acostumaram" pode referir-se a uma das maiores violências que ainda vemos presente em nossa sociedade: aquela imperceptível, decorrente das imposições e naturalizações a que somos acostumados.
Seguem abaixo os links com a letra da música e com um vídeo que ilustra a montagem da peça. Nas próximas publicações abordaremos as outras canções da peça!

Quem quiser ficar com aquele gostinho de quero mais, vale a pena conferir um vídeo curtinho que mostra uma das montagens da peça no Teatro Folha. 
 
História de uma gata
Jumento: Querem saber? Me sinto melhor agora que somos três.
Gata: Quatro!
Cachorro: Que? Quem está aí?
Gata: Sou eu, estou aqui na árvore, miau, eu sou uma gatinha.
Cachorro: Au au
Gata: ui ai
Jumento: Para, cachorro. 1ª lição do dia, o melhor amigo do bicho é o bicho. E você gata desce da arvore.
Gata: Depende do programa.
Galinha: Nós vamos à cidade, vamos fazer um cocococonjunto você também sabe cantar a sim, infelizmente...
Todos (menos a gata): Infelizmente? ? ?
Gata: Porque fazer um som não foi nada jóia pra mim.
Jumento: Perdão como disse?
Gata: Porque cantar um musica me custou muitíssimo, miau.
Todos (menos gata): Conta.

Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram
O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás
De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria
Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás.

PS: sobre os questionamentos levantados pelo professor nos comentários (primeiro comentário), vejam o desenvolvimento de nossa análise  das canções nos seguintes textos:

Um dia de cão : latidos e lamúrias em Os saltimbancos

A galinha de "Os saltimbancos": uma análise marxista

Acomodação e consciência: as faces de um jumento em "Os saltimbancos"

As canções de Os saltimbancos e a ditadura militar - considerações finais