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domingo, 18 de novembro de 2012

As canções de "Os saltimbancos" e a ditadura militar - considerações finais



Em vias gerais, todo ciclo tem seu começo e seu fim, dando espaço a outro que venha lhe ocupar o lugar, exceto em raros e bons casos cujo percurso se faz infinito pelo saber dos ventos e dos tempos. Sem fugir a regra, encerramos com essa postagem um ciclo* destinado a trazer nossas considerações a respeito da obra Os Saltimbancos, versão de Chico Buarque da consagrada montagem Os músicos de Bremmen, dos irmãos Grimm, tingidas sobre as cores de um passado cinzento que cobriu o céus de nossa nação, ganhando nas entrelinhas a crítica sublime de quem reprova e age com as armas que lhe são inerentes: as palavras. Ressaltamos aqui, que apesar do número de postagens dedicadas ao tema e do trabalho que se empreendeu (cuidadoso com as análises alegóricas, trechos e sentidos), não tivemos a pretensão de esgotar as possibilidades de leitura, de abordagem e de estudo, visto que a obra por si só tem como aspecto positivo estar aberta a interpretações, sendo atualizada cada vez que se aponta novo norte de interesses e curiosidades.
 
De acordo com Rufino (2008), durante o período ditatorial brasileiro, todo tipo de produção cultural (jornais, teatro, música, cinema etc.) foi influenciada pela situação sociopolítica do país, já que após os atos institucionais I, II e III, as atividades culturais ganharam grande função política como local de possíveis discussões e resistência à ditadura, devido ao seu caráter de formadoras de opinião e comportamento. Assim, os artistas, somados aos estudantes e intelectuais, sentiram a pressão do governo que tentou calar quem tinha algo a falar.
 
Segundo o site Virtuália – O Manifesto Digital, Chico Buarque foi um dos compositores mais censurados durante a ditadura. Tanto as canções de protesto quanto as que se referiam aos costumes da época sofreram com a censura.
 
Os problemas de Chico Buarque com a censura começaram junto com a sua carreira. Em 1966, a música “Tamandaré”, incluída no repertório do show “Meu Refrão”, com Odete Lara e MPB-4, é proibida após seis meses em cartaz, por conter frases consideradas ofensivas ao patrono da marinha. Era o começo de um longo namoro entre a censura e a obra de Chico Buarque.
 
No período tornou-se comum a estratégia de compositores utilizarem muitos discursos metafóricos para burlar a censura (como por exemplo, os animais das canções já descritas que poderiam, se compreendidaos como alegorias, representar vários tipos humanos). Rufino (2008) ressalta que uma frase muito difundida no meio artístico era: “Silêncio ou metáfora”, e que as ações de cantar e gritar, nas músicas da gata e do jumento, “funcionam como metáforas para a resistência” e para a rebeldia. Ambos se rebelaram contra seus donos na fábula quando decidiram abandoná-los e seguir para a cidade, do mesmo modo se rebelaram por meio da música (a gata cantando e o jumento berrando). Rufino (2008) faz uma leitura de que os dois animais são tomados metaforicamente como o “povo” e seus senhores como o governo ditatorial (isso foi muito abordado na análise das quatro canções dos animais principais da peça).
 
Em seu estudo, Rufino (2008) aponta que as canções História de uma Gata e O Jumento enquadram-se em um paradigma de produção que buscava burlar “a censura e as leituras feitas pelos órgãos governamentais”. As canções, avaliando todas da peça Os Saltimbancos como um geral,
 
possuem um público bem específico (infantil) a ser persuadido. Para alcançar seu objetivo, o enunciador se desdobra com esmero para conquistar o enunciatário, que, como vimos, tornou-se um leitor que espera ser surpreendido a todo momento. As estratégias de persuasão que foram evidenciadas em nossa análise possuem como traço característico o aspecto lúdico. Elas interpelam a criança, colocando-a sempre numa situação de estranhamento (Rufino, 2008, p.124).
 
Assim, as letras das canções da peça Os Saltimbancos, utilizando-se da figuração, pretendiam conquistar os públicos adulto  e infantil mostrando-lhes que a rebeldia era possível e necessária, o que era exemplificado (ou melhor, sugerido alegoricamente) pelos animais deixando seus donos, se livrando da submissão e da exploração.


* Link para as outras análises das canções de Os saltimbancos:

1. Teatro, música e poesia: Os saltimbancos, de Chico Buarque

2. Um dia de cão: latidos e lamúrias em Os saltimbancos

3. A galnha de Os saltimbancos: uma análise marxista

4. Acomodação e consciência: faces de um mesmo jumento em Os saltimbancos, de Chico Buarque

 
 
Referências
 
RUFINO, Janaína de Assis. Entre homens e animais: análise semiótica de letras de canções infantis. In: Mal-Estar e Sociedade. Ano 1, v. 1, n. 1. -- Barbacena, MG : EdUEMG, 2008.

Site Virtuália. URL: http://virtualiaomanifesto.blogspot.com.br/2008/07/msica-e-censura-da-ditadura-militar.html

GT4 - Teatro e música infanto-juvenil

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Acomodação e consciência: faces de um mesmo jumento em "Os saltimbancos"

Trecho do espetáculo "Os Saltimbancos", fruto do projeto "Teatro e Voz",
realizado por alunos do colégio Mackenzie no segundo semestre de 2009. 
Mais informações:


O Jumento
Composição: Enriquez - Bardotti - Chico Buarque

Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
O pão, a farinha, feijão, carne seca
Quem é que carrega? Hi-ho
O pão, a farinha, o feijão, carne seca
Limão, mexerica, mamão, melancia
Quem é que carrega? Hi-ho
O pão, a farinha, feijão, carne seca
Limão, mexerica, mamão, melancia
A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira
Quem é que carrega? Hi-ho
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça
Mas quando a carcaça ameaça rachar
Que coices, que coices
Que coices que dá
Hi-hooooooooo

Podemos ver nessa música, tal como ocorre nas demais letras compostas para a peça Os saltimbancos, um cuidado linguístico rigoroso por parte de Chico Buarque, conciliando sonoridade, significação, ambiguidades (tão ricas para a semântica do texto e tão necessárias ao momento vivenciado no país, sendo necessário concentrar e condensar o conteúdo crítico nas entrelinhas dos textos).
 
Na peça, o jumento, cansado de tanto trabalhar sem recompensa, decide fugir para a cidade, sonhando trabalhar como músico. No caminho encontra o cachorro, desiludido com seu antigo dono, por só lhe obedecer sem nunca receber nenhum tipo de reconhecimento. O jumento vendo o cachorro como seu semelhante o convida para ir à cidade. Pouco depois, ambos encontram a galinha, que também tinha fugido de um dono mau, e mais adiante, a gata que não suportava mais viver presa. Assim, o jumento é aquele que inicia o processo de revolução, e parte rumo à cidade em busca de uma nova concepção, de uma nova chance, de um novo ideal.
 
Logo de início o autor tenciona apresentar quem é o personagem de quem irá falar, ou seja, o jumento. Para apresentá-lo, Chico Buarque, de modo muito sagaz, se utiliza de uma construção que tange a duplicidade semântica. A canção apresenta o animal jumento como não sendo o malandro da praça, com figura de destaque/esperteza, o que pode implicar a leitura de que o termo jumento possui um valor de adjetivação e conotação pejorativa, assim como o nome do animal “burro” constantemente utilizado no nosso cotidiano.
 
No decorrer da letra nos deparamos com a sentença “trabalha e trabalha de graça”. Valendo-nos de uma abordagem marxista, podemos considerar que essa assertiva estabelece diálogo direto com o conceito de mais valia, consistindo no lucro obtido pela diferença entre o valor da mercadoria que se produz e a somatória dos gastos e meios de produção. Na canção, o jumento pode representar o homem também considerado uma mercadoria, fazendo parte dos meios de produção, assim, revela-se a exploração e a subversão da condição humana.

Logo em seguida temos uma sequência muito significativa “Não agrada a ninguém, nem nome não tem, é manso e não faz pirraça”. A ausência de nomeação pode ser definida como clara perda de identidade ou generalização. Isso é reforçado pelo fato de a história do jumento ser narrada em terceira pessoa mostrando que o animal pode ser qualquer indivíduo que trabalhe e seja explorado como ele.
 
Aproximando-se novamente de uma análise marxista, temos que o indivíduo passa a ser meramente um número a representar cifras e força de trabalho. Possível se faz também ampliarmos um pouco o leque de interpretações e considerar que o cerceamento da liberdade, característica marcante do período ditatorial, resulta em perda de consciência, em alienação e, consequentemente, na ausência de uma identidade. A mansuetude, originalmente postulada como virtude irmã da paciência, também possui no texto seu significado transfigurado, correspondendo a um estado de passividade indesejável. Não fazer pirraça compreende essa mesma passividade,. A ausência de reações, ou seja, de revoltas contra a ordem de repressão vigente, logo assume na letra um valor disfórico. Entretanto, em certa altura, há uma reviravolta na direção da descrição do jumento. A partir da sentença “mas quando a carcaça ameaça rachar, que coices, que coices, que coices que dá”, em que o indivíduo percebe que a sua posição está posta em jogo, há uma mudança de postura, resultando em um enfrentamento, em uma resposta ativa perante o caráter opressivo e violento. Dar coices assume um valor eufórico, pois é a tomada de consciência do jumento. O ato de rebelar-se, dando coices, aponta a afirmação da identidade do animal, mostrando seu modo de defesa (assim como as bicadas da galinha).  Ainda, percebe-se a tomada de voz pelo jumento na canção, através do discurso direto, quando ele responde às questões sobre quem faz o trabalho pesado, com as expressões onomatopeicas “hi-ho” e “hi-hoooo” nas segunda e terceira estrofes.

Tais considerações nos remetem a dois pontos distintos. O primeiro ponto a ser considerado é o poder de superação. De um modo geral, o ser humano desconhece a força e o potencial que tem até que seja colocado à prova, isto é, até que uma situação extrema sirva como intermediária para que se possa vislumbrar aquilo que de fato se pode fazer. O segundo ponto diz respeito à indiferença. Verificamos que até esse trecho da canção o personagem é tido como alguém que se mantém alheio, e que só toma alguma atitude quando a ausência de um posicionamento afetar diretamente o seu estado. Diferentemente do ideal utópico de igualdade pregado pelo socialismo, vemos, a cada dia, um avanço do lema “cada um por si, Deus por todos”, em uma sociedade corrompida pela gana excessiva, pela valorização do ter em detrimento ao ser, pela posse e o consumismo. Assim podemos considerar que a música passa de um valor disfórico (de opressão) para um valor eufórico (de ataque).
 
Em uma análise de caráter mais abrangente, podemos ler esse texto musical como uma carta de engajamento por uma sociedade mais justa, de modo a levar os indivíduos a refletirem sobre sua condição alienada e abandonarem o estado passivo. Todos aqueles que se encontram imersos na massa, levados ao sabor dos ventos, poderiam tomar para si a conotação positiva do adjetivo jumento e, desta forma, poderiam lutar por mudar suas vidas para melhor.
GT4 - Teatro e música infanto-juvenil



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um dia de cão: latidos e lamúrias em "Os saltimbancos"


Continuando as postagens sobre o musical “Os Saltimbancos”, hoje trataremos da música “Um dia de cão”, da personagem do cachorro, a qual nos remete aos militares, figuras muito presentes no contexto histórico em que a obra foi adaptada à realidade brasileira. Durante o período ditatorial brasileiro os militares formaram a linha de frente na defesa do regime, sendo o soldado aquele que cumpria as ordens de maneira fiel e sem questionamentos, pautado na lealdade e defesa da pátria.

Interessante se faz notar que o texto se inicia com uma frase que pode ser tomada em um sentido denotativo, expressando o dia-a-dia do animal em questão, personagem da peça, como pode ser entendido por um sentido conotativo, remetendo a uma expressão de cunho popular utilizada para se referir a dias tortuosos, complicados, em que nada parece dar certo.

 
Podemos tomar como exemplo do rigor militar e da obediência cega ao regime em vigor, o seguinte no trecho:
 
Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas

Nesta parte da canção vemos o comportamento ideal de um soldado que: sempre leal não se opor ao regime e obedece sempre. O uso da palavra “caserna” deixa claro que a personagem se refere aos militares, pois “caserna” é o termo utilizado para se referir a uma construção destinada ao alojamento de soldados. “Não fazer baderna” pode remeter a ideia de não se revoltar, não se rebelar, ou manter a ordem vigente. A frase ‘o rabo entre as pernas’ faz remissão a obediência, a impossibilidade de se ter algo diferente do que lhe é imposto, mandado. Ainda, na última estrofe, o cão fala das suas obrigações, como militar, de guardar os interesses do regime:

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão

Porém o cachorro apresenta seu descontentamento com a situação da obediência cega e, em um momento de iluminação reflete sobre o seu trabalho e percebe que, na verdade, a única fidelidade que ele tem é a sua necessidade de sobreviver. Assim, termina percebendo a degradação pela qual sua vida vem passando:

Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão

 
Letra completa da canção:

Um dia de cão

Apanhar a bola-la
Estender a pata-ta
Sempre em equilíbrio-brio
Sempre em exercício-cio
Corre, cão de raça
Corre, cão de caça
Corre, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu,
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin

Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas
Volta, cão de raça
Volta, cão de caça
Volta, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Estou às ordens
Sempre, sim, senhor

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome

Sempre mordomo
E cada vez mais cão

Segue abaixo o link inerente a música dessa postagem.


A galinha de "Os saltimbancos": uma análise marxista


Dando continuidade à análise das músicas da peça Os saltimbancos, trazemos como conteúdo dessa postagem algumas considerações acerca da música A Galinha, de composição de Enriquez, Bardotti e Chico Buarque. Segue abaixo um vídeo em que Ana Cláudia Padilha  interpreta "A galinha":


 


A Galinha

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô
Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada
A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
"Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja"
Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada
Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda
Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
Com rimas que se alternam entre emparelhadas e alternadas, com palavras de fácil compreensão e colocando como centro de autoria do discurso a galinha, um dos quatro animais protagonistas do drama Os saltimbancos, a música A galinha figura em um primeiro momento como uma produção tipicamente infantil. Entretanto, lembremos, caro leitor, que não só estamos tratando de produções feitas no período da ditadura, em que a repressão e a censura se faziam da ordem vigente, como estamos falando de Chico Buarque, autor de inteligência e sensibilidade ímpares no processo de criatividade. Desse modo, é preciso aprofundar nosso olhar para algumas relações que se apresentam no nível do não dito, a fim de realizar algumas inferências que nos permitam chegar mais perto de uma compreensão significativa desta composição.
 
Atentemos inicialmente para a escolha do “narrador” da história em questão, ou melhor, da história relatada na canção. Mesmo se tratando de um texto fabular, em que os animais aparecem como protagonistas dos diálogos e das ações, percebemos que a escolha do personagem a partilhar as ideias presentes na letra da música não foi casual. Dentre os personagens, o único animal que fornece alimento, de modo direto, é a galinha (seja por meio de sua própria carne ou do ovo que a mesma bota). Sabemos, segundo algumas abordagens psicológicas que o corpo é instância inviolável do ser, aquilo que possui  de exclusivamente seu. Desse modo, a galinha apareceria como um dos personagens mais estigmatizados, o que justificaria a construção da composição em tons de lamento e desabafo.
 
No início da canção a galinha, que canta a música, diz: "Todo ovo/ Que eu choco/ Me toco/ De novo/ Todo ovo/ É a cara/ É a clara/ Do vovô". Quando verificamos o uso feito pela galinha do verbo tocar, precisamos ir além do que o significado tradicional com o qual estamos acostumados, ligado as questões sensitivas do tato. Temos aqui a multiplicidade dos sentidos em ação, trazendo para o texto a possibilidade de fazer remissão também à gíria “tocar”, em que o verbo aparece agora pronominalizado, ganhando como definição o "cair em si" sobre alguma coisa. No caso do texto analisado, "cair em si" sobre o fato de que todo o ovo que ela choca não vinga, ou seja, não vira um filho seu – um pintinho com as características hereditárias de seus ancestrais (o vovô) -, mas sim um ovo para consumo.
 
Na segunda estrofe, a galinha afirma que ficou bloqueada em relação à produção de ovos, e pela noite, ao invés de chocar, ela só sonha com gemadas. Essa estrofe parece ter dado humanização aos “sentimentos animais”, como se a galinha ao pensar que todos os ovos que bota fossem parar em gemadas, ficasse chocada e, por isso, bloqueada, ou seja, incapaz (por razões psicológicas) de botar os ovos. O termo bloqueada, aliado a simbologia do objeto ovo, pode também remeter ao cerceamento da liberdade, e, consequentemente, da vida por conta da repressão vivenciada nos anos de ditadura militar.
 
Passando a terceira estrofe do poema, temos uma remissão crítica aos processos de reificação e exploração do trabalho e ao fetiche da mercadoria, muito comentados nos trabalhos e abordagens socialistas de Lucáks e Goldman, em que o ser passa a ter seu valor de uso e de troca, tornando-se descartável quando sua produção não mais se concretiza. Da mesma forma, se um animal não produz com sucesso – se a galinha não bota mais como antes – ele é vendido ou abatido para virar alimento – no caso da galinha, uma canja -, e assim ainda gera lucro ao seu “dono”. A parte da canção “As galinhas sérias/ Jamais tiram férias” carrega forte carga de ironia, pois pauta-se em um grande oximoro. Para atender as necessidades do comércio, as galinhas produzem ovos durante todo o ano. Entretanto, quanto mais trabalham, sendo “mais produtivos”, mais se cansam, se degradam, passando a um estado de improdutividade. Tal reflexão nos remete diretamente ao estilo de produção fabril iniciado no final do século XIX, em que os funcionários eram submetidos a longas e penosas jornadas, quase ininterruptamente, a fim de contribuir fisicamente com seu quinhão para os lucros de quem tivesse a posse dos meios de produção.
 
Ressaltamos também um aspecto mais linguístico verificado na letra da música. A repetição dos pontos de exclamação e interrogação evidenciam que a galinha furiosa reclama ao seu “dono” pelo troco que ele a dá – a morte – por anos de choco, produção e lucro: Ah !!! é esse o meu troco/ Por anos de choco???/ Dei-lhe uma bicada/ E fugi, chocada”. Nas duas últimas frases percebemos o quão frágeis são os animais em relação ao homem, a única coisa que uma galinha podia fazer era bicar o homem, enquanto este pode matá-la facilmente.
 
Mais uma vez a galinha é humanizada, pelo fato de se expressar que ela queria cantar, enfim ser livre e feliz. E a canção termina com mais uma profunda crítica ao dizer que “um bico a mais/ Só faz mais feliz/ A grande gaiola/ Do meu país”, ou seja, um animal a mais é lucro a mais. Do mesmo modo podemos perceber uma transferência de sentido, no qual o bico simboliza um homem, um homem a mais num país, caracterizado como gaiola, é só mão de obra a mais. A gaiola é um elemento de forte correlação simbólica com aprisionamento, com uma visão fechada de mundo, com o conservadorismo que possibilita a visão, mas engessa a ação daquele que está dentro dela.         


Link para as outras análises das canções de Os saltimbancos:

Teatro, música e poesia: Os saltimbancos, de Chico Buarque

Um dia de cão : latidos e lamúrias em Os saltimbancos

Acomodação e consciência: as faces de um jumento em "Os saltimbancos"


GT 4 - Teatro e música infantojuvenis                            

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Teatro, poesia e música: "Os Saltimbancos", de Chico Buarque


 
Texto, música, teatro. Uma rápida e superficial observação e você, caro leitor dessa página, será levado a pensar que se tratam de unidades estanques, cujo único diálogo se dá na soma dos dois primeiros para a configuração do último. 
“Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres. Senhor, senhora, ou senhorio. Felino, não reconhecerás”. Quem é que nunca ouviu esse trecho da música “História de uma gata”, de Chico Buarque?
Pois bem, visto que nossa disciplina tem por conteúdo a abordagem de tópicos de literatura infantojuvenil, e que ficamos incumbidos de tecer algumas considerações acerca de teatro infanto-juvenil e música, não poderia faltar em nossas postagens uma referência a peça Os Saltimbancos.
Os Saltimbancos constituiu-se em um musical elaborado no ano de 1977, tendo por base uma adaptação de  texto homônimo do italiano Sergio Bardotti, texto esse que bebe na consagrada fonte das fábulas dos Irmãos Grimm, explorando o conto Os músicos de Bremem. Interessante se faz, antes de podermos adentrar as especificidades do texto, verificar seu contexto de produção. 
No período em que foi produzida, o Brasil estava mergulhado em um terrível momento de censura decorrente da imposição das forças militares no comando da ditadura. Anos negros que cobriram os céus de nossa pátria até o ano de 1985, pois foram marcados por intensa repressão a toda e qualquer forma de expressão que se voltasse contra o regime. Em meio a tantas barreiras, aguçaram-se as habilidades fundamentais de nossos grandes autores, que souberam explorar as riquezas da linguagem, a infinidade de palavras e a multiplicidade dos sentidos, colocando por detrás das máscaras de simplicidade densas críticas e reflexões. Tal tessitura pode ser verificada nos escritos de Chico Buarque, estando inclusa a peça em questão.
O enredo da peça apresenta grande fidelidade quando comparado ao conto original dos Grimm, tendo, no entanto, modificações pontuais de Chico Buarque, as quais possibilitam um novo olhar acerca da fábula. A peça relata o encontro de quatro animais, sendo eles um jumento, uma galinha, um cachorro e uma gata, que possuíam em comum o fato de terem sido maltratados pelos seus respectivos donos. Encontrando-se, tem a ideia de juntos formarem uma banda, rumando para a cidade com o objetivo de se apresentarem e lá viverem. No meio de sua jornada, deparam-se com os antigos donos, instalados em uma casa. Então, juntos decidem encará-los, com o intuito de não mais sofrerem com os abusos e violências de seus antigos mandatários. Saem vitoriosos desse embate de forças, e percebem que a partir daquele instante, poderiam, como uma equipe, superar toda e qualquer adversidade.
Citamos como primeira modificação no texto dos Grimm o motivo pelo qual os animais acabam fugindo de seus antigos lares. No conto Os músicos de Bremem temos a partida dos quatro animais em decorrência da eminência de morte que lhes competia pela ausência de serventia perante seus donos. O jumento, pela idade avançada, já se mostrava fatigado e não conseguia desempenhar seu trabalho; o cão não servia mais para a caça; o gato preferia ficar deitado e ronronar do que caçar ratos; e o galo serviria de alimento aos convidados de seu senhor - realidade mais próxima de um lado“natural” postulado nos demais contos e fábulas dos Grimm. Já na adaptação de Bardotti e Chico Buarquepodemos pensar uma “suavização” dos motivos, visto que, os animais fogem devido aos maus tratos sofridos. Pensando no contexto em que foi adaptada por Chico Buarque, podemos pensar também que, ao invés de uma suavização, têm-se a materialização da violência e da repressão vividas no período do regime militar. 
Um segundo ponto que vale a pena ser mencionado como diferença significativa entre os textos se faz na inserção, no texto de Chico Buarque, de personagens femininas. No conto dos Grimm todos os personagens são masculinos (jumento, cão, gato e galo). Já na adaptação de Chico, temos uma gata ao invés de um gatoe uma galinha ao invés de um galo. Tal troca poderia ser justificada por mera causalidade. Mas lembre-se, caro leitor, de duas coisas  em primeiro lugar, estamos lidando com um autor de inteligência perspicaz, como é o caso de Chico Buarque, em que nada aparece de modo solto; segundo, que pensando no contexto em que o texto é escrito, efervesciam discussões e ganhava corpo a revolução feminista. Desse modo, colocando duas personagens femininas e duas masculinas, Chico consegue abordar as questões de igualdade dos sexos. 

Uma segunda explicação, segundo alguns críticos, reside em uma leitura alegórica do texto: cada animal serviria como importante alegoria para pensarmos sobre o que estava acontecendo no contesto ditatorial. Desse modo, o burro corresponderia à inteligência; a galinha representaria a classe trabalhadora (operários); o cachorro, os soldados na hierarquia militar e a gata estaria representando a classe artística. Por sua vez, o barão, que aparece textualmente como antagonista, seria uma representação da elite, da classe detentora de poder e, pensando em um âmbito mais fabril, dos meios de produção. 

Música

A música exerce função fundamental dentro dos processos de compreensão da peça. Muito mais do que suscita a superficialidade das músicas infantis, apresentando canções que se ligam mais ou menos a cada um dos animais e dos momentos, aborda em suas letras verdadeiros planos de conscientização, de reflexão e de poesia. As músicas intercalam alguns momentos da peça, sendo interpretadas por um ou alguns personagens. 
Nessa postagem abordaremos a música História de uma gata, que tem como preâmbulo um diálogo entre os animais. Com um refrão aparentemente simples, Chico discute a questão da liberdade, dialogando com a condição financeira das classes: “nós, gatos, já nascemos pobres/ porém, já nascemos livres”.

Os “pobres” são livres, e por livres podemos entender a liberdade de convenções sociais, de aparências e, principalmente, livres por não terem essa mesma ilusão de liberdade que hoje nos rodeia, quando não percebemos sermos escravos de nossas próprias criações e necessidades. A canção critica ainda a naturalização de elementos que se dão por meio dessas mesmas convenções sociais, o automatismo a que nos atamos. Utiliza verbos fortes, que se não forem entendidos em seu sentido mais amplo, aparecem apenas como meras figuras de estilo e de retórica, como na parte que segue: Me alimentaramMe acariciaramMe aliciaram/ Me acostumaram. Podemos imaginar toda essa parte como uma gradação, em que “alimentar” se refere aos sonhos e esperanças que nos injetam e nos penetram dia e noite ao longo de nossas vidas. Acariciar poderia estar simbolizando uma tentativa de remediar as dores causadas pelo mundo, ou uma forma de atrair uma falsa impressão amistosa, rodeada pelos mais mundanos interesses, o que levaria ao passo seguinte, aliciar, com sentido de seduzir, convocar. Por fim, "me acostumaram" pode referir-se a uma das maiores violências que ainda vemos presente em nossa sociedade: aquela imperceptível, decorrente das imposições e naturalizações a que somos acostumados.
Seguem abaixo os links com a letra da música e com um vídeo que ilustra a montagem da peça. Nas próximas publicações abordaremos as outras canções da peça!

Quem quiser ficar com aquele gostinho de quero mais, vale a pena conferir um vídeo curtinho que mostra uma das montagens da peça no Teatro Folha. 
 
História de uma gata
Jumento: Querem saber? Me sinto melhor agora que somos três.
Gata: Quatro!
Cachorro: Que? Quem está aí?
Gata: Sou eu, estou aqui na árvore, miau, eu sou uma gatinha.
Cachorro: Au au
Gata: ui ai
Jumento: Para, cachorro. 1ª lição do dia, o melhor amigo do bicho é o bicho. E você gata desce da arvore.
Gata: Depende do programa.
Galinha: Nós vamos à cidade, vamos fazer um cocococonjunto você também sabe cantar a sim, infelizmente...
Todos (menos a gata): Infelizmente? ? ?
Gata: Porque fazer um som não foi nada jóia pra mim.
Jumento: Perdão como disse?
Gata: Porque cantar um musica me custou muitíssimo, miau.
Todos (menos gata): Conta.

Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram
O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás
De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria
Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás.

PS: sobre os questionamentos levantados pelo professor nos comentários (primeiro comentário), vejam o desenvolvimento de nossa análise  das canções nos seguintes textos:

Um dia de cão : latidos e lamúrias em Os saltimbancos

A galinha de "Os saltimbancos": uma análise marxista

Acomodação e consciência: as faces de um jumento em "Os saltimbancos"

As canções de Os saltimbancos e a ditadura militar - considerações finais
 

domingo, 9 de setembro de 2012

Chapezinho Vermelho x Chapeuzinho Amarelo: medo do Lobo, medo bobo.

    Os contos de fadas folclóricos - que eram orais -  foram adaptados com o passar do tempo à classe emergente, a burguesia, sendo depurados de seus elementos inadequados às educação infantil, uma vez que, originalmente, não eram voltados à infância, apresentando por vezes dose elevada de violência e ou erotismo.

   Por terem o objetivo de educar as crianças, os contos de fadas artísticos (às vezes chamados de tradicionais), tiveram uma função utilitáriaapresentando um discurso identificável com os interesses pedagógicos e familiares. Geralmente, os maus acabam punidos e os bons recompensados, porém, há as histórias em que os bons acabam morrendo de maneira violenta. Estes são os contos de susto ou admoestação, feitos com o objetivo de alertar sobre um perigo ou impedir certas ações. Dentre essas histórias, está a história de Chapeuzinho Vermelho.
 
  As versões mais conhecidas de Chapeuzinho Vermelho são as de Perrault e dos irmãos Grimm, apresentando, ambas, um forte caráter educativo., pois a ação narrada exemplifica os terríveis males que podem acontecer a uma criança desobediente, servindo, portanto,  de admoestação. Para tanto, utiliza uma pedagogia do medo, o que não contribui ao desenvolvimento de um caráter autônomo e autoconfiante. A narração é pautada pela relação de poder e saber do adulto sobre a criança representada como ingênua e ignorante. No entanto, na famosa versão de Chico Buarque – intitulada Chapeuzinho Amarelo – há um rompimento com esta atitude. Não se abandona a função utilitária do texto infantil, mas se muda o foco da mesma, que deixa de ser autoritária, de admoestação, e passa a apresentar-se como libertária na medida em que valoriza a reflexão, a autocrítica e a autonomia da criança.


       
Ao invés do medo, Chico Buarque  utiliza o o humor como recurso pedagógico e literário de tal modo que, na sua versão paródica de Chapeuzinho vermelho, se  desestabilizam completamente os sentidos da versão tradicional. O  discurso libertário - ou emancipador - substitui o autoritário; a imagem do medo cede lugar ao não-medo, pois, através do riso, o Lobo se transforma de amedrontador em amedrontado e a menina de Chapeuzinho com medo (por isso sua cor amarela) em Chapeuzinho sem medo. O Lobo tenta amedrontar a menina, porém,não há sucesso em sua empreitada; desanimado acaba virando um bolo.
 
Outro aspecto inovador, característico da literatura infantil brasileira após 1970, é o fato de a narrativa brincar com as palavras, o que evidencia uma valorização da linguagem e, por conseguinte, do estético.   A valorização da estrutura lúdica  ocorre especialmente no resultado da repetição insistente da palavra "lobo", que acaba resultando - por uma inversão da ordem das sílabas que a compõem - na palavra "bolo". Imagem que simbolicamente representa a mudança de status do lobo: de  o predador virou presa, pois deixou de ser aquele que pode comer para se transformar no que pode ser comido.
 
  Por fim, é muito importante observar que não há na história a presença da mãe, de maneira que não há desobediência por parte da menina e, consequentemente, castigo. A menina percebe que seus medos são construídos por ela mesma e que somente existem até o momento em que são enfrentados.



 

     A história Chapeuzinho amarelo feita por Chico Buarque propõe uma mudança no comportamento socialmente desejado para a criança. Poderíamos afirmar que sua paródia às versões tradicionais constitui uma adaptação à atualidade na medida em que incorpora uma nova identidade infantil assim como uma nova postura educacional.
 
     As diferenças analisadas nas duas versões marcam a diferença de sentido que adquire, assim como, a diferença de objetivo que se deseja alcançar, daí a importância da apresentação de ambas as histórias à criança para que possa perceber a diferença entre elas e, desta forma, desenvolver seu pensamento critico.
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     Confira a seguir comparando as histórias mencionadas, e boa reflexão!

     E não deixe de assistir ao vídeo de Chapeuzinho amarelo, do grande Chico Buarque:

 

Referências:
 
Chapeuzinho Vermelho  - versão de Charles Perrault:

GT 1 - Contos de fadas e narrativas orais (mitos e lendas)

domingo, 6 de novembro de 2011

Chapeuzinho Amarelo - Livros Prêmiados


O livro Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque, lançado em 1979 é considerado um clássico da literatura infantil brasileira. Narra a história de uma garota, a chapeuzinho amarelo, que tinha medo de tudo e por isso não levantava da cama de jeito nenhum, ela tinha medo principalmente dos boatos da existência de um lobo, até que encontra o lobo e perde o medo, deixando assim todos os medos que tinha para traz e começa a viver a vida e ser feliz. O livro conta com as ilustrações de Ziraldo e esta em sua 27ª edição. A obra recebeu o selo Altamente Recomendável para Crianças da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em 1979, e ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (CBL), em 1998. E atualmente tem sido distribuído pela Fundação Itaú Social em uma campanha pelo incentivo a leitura “Leia para uma criança”, para quem tiver interesse basta se cadastrar no site do banco que o livro é enviado para qualquer endereço no Brasil, sem custos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Chapeuzinho (nem tão) Amarelo Assim

  O livro de literatura infantil escrito por Chico Buarque na década de 70, intitulado Chapeuzinho Amarelo, faz uma releitura de um dos contos de fadas mais conhecidos mundialmente: Chapeuzinho Vermelho.
 
  O conto Chapeuzinho Amarelo traz ilustrações de Ziraldo que dão ainda maior riqueza à obra que pode ser resumida como a história de uma menina que tinha medo de tudo. Medo até de ter medo. Por isso a referência à cor amarela, no sentido de amarelar. Essa menina, no entanto, enfrenta o desconhecido e seu maior medo – o lobo – conseguindo superar seus medos e inseguranças.
 
  Diferentemente do conto de fadas tradicional de Chapeuzinho Vermelho, o texto de Chico Buarque explicita o tema do amadurecimento. Primeiramente, a questão do medo é colocada em evidência, o que pode sugerir a relação com a criança na sociedade moderna que vive amedrontada devido às condições da vida urbana hoje. Ao conseguir enfrentar seus medos, porém, a personagem amadurece. Assim, a inversão dos papéis é outra questão de fundamental importância. No final da história, o lobo deixa de ser o forte, dominador, o ser que causa medo para ser a figura dominada, enquanto que Chapeuzinho não é mais a figura dominada e sim, a forte e dominadora. Essa desconstrução é feita sem nenhuma entidade mágica o que afasta essa versão de Chico Buarque dos contos tradicionais.
 
  Ao não trazer um elemento fantástico ou a figura de alguém forte e corajoso – que na versão dos irmãos Grimm se revela pelo lenhador que salva Chapeuzinho e sua avó - para a solução dos conflitos da personagem, expõe-se que a criança é capaz de vencer os seus mais terríveis medos por sua própria capacidade e alcançar um nível de maturidade quando os enfrenta.

 


Grupo 4: Contos de Fadas na Atualidade