domingo, 25 de agosto de 2013

Aspectos linguísticos da literatura infantojuvenil de Ruth Rocha: uma análise de "Marcelo, marmelo, martelo"

Uma análise de Marcelo, Marmelo, Martelo

“Cada época irá proferir o discurso que revela seus ideais e expectativas em relação a criança.” (SANTOS, 2001, p. 13)
 
 
A autora Ruth Rocha parece sempre ter demonstrado um interesse particular e criterioso pelo jogo de ideias dentro universo infantil, assim como pela linguagem de suas obras. Sua primeira obra publicada, intitulada “Palavras, muitas palavras”, já nos conduz a esse pensamento. Por meio da linguagem literária, a autora cria universos únicos, em que as palavras utilizadas exercem um papel tão fundamental quanto os personagens.
 
Em seu livro “Marcelo, Marmelo Martelo”, a autora cria uma possibilidade de vivência, por parte do leitor, de situações cotidianas na busca do “eu”, uma vez que demonstra que a criança também deve e pode ter questionamentos, opiniões, atitudes, enfim, até mesmo tomar decisões. Destacamos esses aspectos psicossociais, pois não podemos nos esquecer que a imagem da criança por ela mesma e pela sociedade vem mudando gradativamente, de uma criança sem expressividade, imersa em um mundo à parte dos adultos e da realidade,  para uma criança que começa a aparecer, a se expressar e a ocupar, cada vez mais, um lugar social.

  A visão que temos hoje da criança é uma visão muito especial, que se transformou através dos tempos.”( SANTOS, 2001, p.14)

Nesse processo diacrônico da visão infantil, a literatura passou a ocupar uma função utilitária, pedagógica, e por que não dizer: educadora. E é esse aspecto que destacamos nas obras da autora Ruth Rocha: a educação por meio do raciocínio e do jogo de ideias.

Em entrevista à revista Nova Escola, a resposta da autora em relação à linguagem infantil e à linguagem desse gênero literário foi: “Dou um tom mais infantil à obra, mas não fico tentando buscar palavras que sejam mais fáceis. O livro também é uma forma de enriquecer o vocabulário, [...]”. Isso reforça a ideia de que a escritora deve utilizar a linguagem não apenas com uma finalidade narrativa, mas também pedagógica.
 
Podemos observar uma reflexão linguística em diversas obras de Rocha, no entanto, vamos nos ater a sua obra mais famosa e vendida: Marcelo, Marmelo, Martelo. As possibilidades linguísticas já são apresentadas no próprio título, em que observamos nos vocábulos "Mar-ce-lo", "Mar-me-lo" e "Mar-te-lo" a forma como a simples troca da primeira letra da segunda sílaba ("c" por "m" e depois por "t" - ce, me, te) realiza, de forma simples e descontraída, uma amostra de como funciona o sistema linguístico tão complexo da nossa língua portuguesa. A narrativa inicia com o personagem Marcelo questionando a existência das coisas, como a chuva, o mar, o cachorro.

Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo:
— Papai, por que é que a chuva cai?
— Mamãe, por que é que o mar não derrama?
— Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas?

E em seguida esses questionamentos se expandem para o campo da análise crítica sobre as escolhas realizadas pelos adultos, no caso, seu pai e sua mãe.


Uma vez, Marcelo cismou com o nome das coisas:
— Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?
— Ora, Marcelo foi o nome que eu e seu pai escolhemos.
— E por que é que não escolheram martelo?
— Ah, meu filho, martelo não é nome de gente! É nome de
ferramenta...
— Por que é que não escolheram marmelo?

A história continua numa gradação que passa à uma análise feita pelo personagem sobre a sociedade de forma geral, e suas escolhas linguísticas.


Daí a alguns dias, Marcelo estava jogando futebol com o pai:
— Sabe, papai, eu acho que o tal de latim botou nome errado nas coisas.
Por exemplo: por que é que bola chama bola?

 
A partir desse ponto, o personagem evolui de uma criança que observava, questionava e criava hipóteses, para uma criança que toma suas próprias decisões.

E Marcelo continuou pensando:
"Pois é, está tudo errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo [...] Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. [...] Também, agora, eu só vou falar assim".
[...]
Logo de manhã, Marcelo começou a falar sua nova língua:
— Mamãe, quer me passar o mexedor?
— Mexedor? Que é isso?
— Mexedorzinho, de mexer café.

Gostaríamos de chamar a atenção para dois aspectos em especiais nesse livro, a evolução do personagem, e sua expressividade linguística. Por meio da linguagem, Marcelo vai se afirmar como ser por meio de uma espécie de idiossincrasia, relacionando os nomes com as coisas. Nesse momento, a autora levanta a importância da linguagem como meio de comunicação, quer entre pessoas ou grupos sociais, mas ainda assim, Marcelo vai insistir em sua autonomia enquanto pessoa, por assim dizer, por meio da linguagem, mantendo "sua forma de falar".

O pai de Marcelo resolveu conversar com ele:
— Marcelo, todas as coisas têm um nome.
E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome porque, senão, ninguém se entende...
— Não acho, papai. Por que é que eu não posso inventar o nome das coisas?


A história prossegue com vários neologismos que mostram as possibilidades de formação de palavras com termos da própria língua portuguesa, e não um neologismo com estrangeirismos, o que aponta para uma valorização da língua. O ápice da narrativa acontece quando a casinha do cachorrinho de Marcelo pega fogo e ele não consegue se fazer entender por meio de sua maneira de falar, isto é, por meio de seu vocabulário próprio. Com isso, a autora demonstra que a comunicação é essencial entre as pessoas, assim como a compreensão daquilo que é comunicado. O personagem Marcelo fica frustrado pelo fato dos adultos não entenderem o que ele queria dizer, e Ruth, quase que metaforicamente, expõe que, não apenas a comunicação da criança, quando direcionada a um adulto,  não recebe o devido valor/atenção, mas também que as crianças não são compreendidas pelos adultos.

Quando Seu João chegou a entender do que Marcelo estava
falando, já era tarde.
A casinha estava toda queimada. Era um montão de brasas.
O Godofredo gania baixinho...
E Marcelo, desapontadíssimo, disse para o pai:
— Gente grande não entende nada de nada, mesmo!

Ao final da obra, podemos observar mais uma vez o papel fundamental da linguagem e da boa comunicação, como meio de aceitação do indivíduo.

E agora, naquela família, todo mundo se entende muito bem.
O pai e a mãe do Marcelo não aprenderam a falar como ele, mas
fazem força pra entender o que ele fala.

Isso demonstra também, como dissemos ao início, como a imagem que da criança está em evolução, ou seja, como a criança, com o passar dos anos, vem sendo cada vez mais valorizada e cuidada. Podemos perceber, então, que a linguagem literária, mesmo para crianças, não necessita ser restrita, da mesma forma que as reflexões possibilitadas pelas obras infantis não precisam se restringir a simples observações de cunho moral, mas podem, como bem nos mostra Ruth Rocha, abarcar reflexões complexas, não apenas sobre o indivíduo, a sociedade, família, etc., mas também uma reflexão sobre a linguagem. Reflexões essas que, dado o sucesso da obra, nos demonstram que podem ser realizadas pelas crianças.
 
Reforçando o aspecto linguístico da literatura infantil de Ruth Rocha, ressaltamos que essa utilização linguisticamente rica da autora se encontra em todas as suas obras, com palavras que não menosprezam a capacidade intelectual de seu leitor, no caso, infantil/juvenil, mas também não lhe é incompreensível, inalcançável. Com uma linguagem de aspecto simples, porém de grande profundidade, a escritora é capaz de conciliar a reflexão moral, social e interna da criança, com uma reflexão sobre a linguagem e seus usos.

Assim, encerramos com uma citação de Moreira, que embora um pouco longa, consideramos essencial:

“[..] a linguagem constitui a chave que abrirá as portas de um mundo novo, desconhecido, mas repleto de perspectivas fantásticas. Por meio dela, a literatura se concretiza. A palavra é o instrumento de que se utiliza o escritor para transmitir seu pensamento; por isso, manipulá-la de forma criativa, mas com clareza e eficiência, é o desafio proposto a quem usa a palavra artisticamente. Assim, o jovem leitor, ao dominar a palavra escrita, entra no jogo para se acostumar com ela, explorando-lhe as possibilidades, desvendando os seus mistérios, tendo prazer no seu convívio. A linguagem se produz de modo integral quando intervem as estruturas fonológica, morfossintática e semântica. [...] A criatividade buscada na linguagem encontra-se na maneira de trabalhar, combinar e (re)aproveitar a imensa gama de recursos linguísticos da língua materna, sendo criado, pelo escritor, um sistema eficiente, mas, sobretudo, instigante e original. As combinações linguísticas engendradas resultam em marcas próprias que alcançam efeitos surpreendentes com fatos da língua simples e comuns, mas operacionalizados com mestria. A palavra, considerada em diferentes níveis, numa abordagem linguística plena, será apreciada, mesmo inconscientemente, porque possibilitará divertimento, aliado à sensibilidade.”

Sem dúvida, podemos observar claramente essa "criatividade buscada na linguagem", na literatura de Ruth Rocha.

BIBLIOGRAFIA
MOREIRA, S. M. Neologismos lexicais e aspectos lúdicos em obras literárias contemporâneas para crianças e jovens. Disponível em: http://revistas.unibh.br/index.php/dchla/article/view/403  

ROCHA, R. Marcelo, Marmelo, Martelo e outras histórias. Disponível em: http://www.unilago.com.br/download/arquivos/20996/[Infantil]_Ruth_Rocha_-_Marcelo_Marmelo_Martelo.pdf 

SANTOS; M. A.C. A compreensão de ser criança na contemporaneidade brasileira: A família , a sociedade e a escola. Disponível em: http://www.nead.unama.br/site/bibdigital/monografias/SER_CRIANCA.pdf

TALAMONI, Daniela. "Ruth Rocha": Leitura não pode ser só folia. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/leitura-nao-pode-ser-so-folia-423575.shtml 

GT 6

Literatura infantil indígena: questões de identidade e representação

 De acordo com o Censo 2012, no Brasil vivem cerca de 896 mil índios advindos de 305 etnias das quais 180 ainda preservam suas línguas nativas.

Dados do Núcleo de escritores e Artistas Indígenas, órgão vinculado ao Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual, mostram que desse total apenas 35 ocupam a profissão de escritores.  Ainda segunda a Instituição, estima-se a publicação de pouco mais de 200 títulos, entre produções impressas por universidades e nas aldeias. A cultura indígena ainda é pouco conhecida e respeitada no Brasil, uma vez que, não é dada nas escolas a devida atenção que merece. Diante disso, faz-se necessário entender que, diferente do que pensam e abordam algumas pessoas, os índios não são tribos canibais e possuem sua cultura, que outrora era apenas passada pelos pajés e índios anciãos, e hoje é escrita e publicada em livros.
 
Daniel Munduruku, principal nome do movimento de autores indígenas, e Olívio Jekupé são exemplos de escritores que nasceram em aldeias e hoje escrevem literatura infanto-juvenil de temática indígena.

“Somos parte de uma teia que se inscreve dentro de cada pessoa. Somos PARTE, não donos. É isto que essa literatura que escrevemos traz de novidade: ela lembra que não podemos ser arrogantes, nos considerando o ápice da natureza. A educação só fará sentido se contribuir para que as crianças pensem uma forma nova de mantermos o planeta vivo. É isso que, de certa forma, os povos indígenas brasileiros continuam a nos ensinar”, diz Daniel Munduruku.

Para Olívio Jekupé, a história oral sempre foi e será importante, e tem a consciência de que a escrita juntamente com essa tradição, ajudará a fortalecer e a eternizar as origens culturais dos povos indígenas.  
 

Os livros indígenas apresentam histórias com as lendas e convívios com a natureza que é do domínio das tribos. E também de alguns mitos e costumes que hoje são praticados por nós, mas que iniciaram nas atitudes dos índios.

Fontes
Acesso em 8/08/2013
 
GT 3

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ana Maria Machado: a história de quem faz história

 


De acordo com Marisa Lajolo (1983), Ana Maria Machado, foi uma menina de infância feliz, criada no meio das fantasias e encantos das letras, apresentadas e contadas em forma de histórias por seus avós Ceciliano, Rita e por amigos, tendo como cenário principal a praia de Manguinhos no Espírito Santo, onde passava longas temporadas de férias. Com todos estes elementos instigadores, não poderíamos esperar outra coisa se não a revelação de uma grande “fada” das palavras. No entanto, com toda sua criatividade, não poderia imaginar o longo caminho que percorria e a pessoa importante que se tornaria na literatura infantil, não somente a brasileira, mas a mundial. 
  Nascida no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, no dia 24 de dezembro de 1941, a escritora, jornalista, professora e pintora é a filha mais velha de Mário de Souza Martins e Dinah Almeida de Souza Martins. A própria Ana Maria Machado ressalta que quando criança foi uma menina que aprendeu a ler antes mesmo de completar 5 anos de idade e passava horas de seu tempo fazendo leituras de livros como: Reinações de Narizinho, que era seu preferido. O gosto e a prática da leitura e da escrita resultaram em sua primeira publicação as 12 anos de idade, o texto “Arrastão”, publicado na revista Folclore.
 Ao conhecermos a história desta autora, percebemos que sua educação foi prestigiada por um mundo de livros e leituras. Em todos os relatos de suas experiências, observamos o universo literário que a cerca, não só a família, mas também a companhia dos amigos. Ainda de acordo com a escritora, mais tarde estudou pintura na Escolhinha de Arte de Artes do Brasil, em seguida no Museu da Arte Moderna. Posteriormente, ingressou na faculdade, e como no momento não havia formado nenhuma opinião sobre que curso realizar, optou por Geografia. No entanto, desistiu do curso para estudar Letras na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, nomeada atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 Como professora, prosseguiu seus estudos voltados para a literatura, lecionando em colégios e faculdades. Também foi neste mesmo período em que a autora foi procurada pela Editora Abril com a proposta de que escrevesse textos infantis para a revista Recreio, que iniciava um trabalho promissor dirigido ao leitor infantil. Ela aceitou o convite e seus textos foram muito bem aceitos pelo público. Ana Maria Machado começou a mostrar seu trabalho e a encantar os apaixonados por literatura infantil, uma oportunidade que lhe abril grandes portas como escritora.
Em meio a Ditadura Militar, Machado sentiu todas as consequências dessa situação de desraizamento e viu-se obrigada a sair do Brasil na tentativa de escapar da situação politica e imparcial que se apresentava no país. No final de 1972, voltou ao Brasil e deu continuidade a sua carreira de jornalista. Em 1977, Ana Maria Machado começa a transformar seus textos em livros de literatura infantil, como "Bento – que – Bento – é – o – Frade", e no ano seguinte recebe o prêmio João De Barro pelo livro “História Meio ao Contrário”, o primeiro de muitos prêmios de sua carreira. Em 1979, ao sentir uma grande dificuldade em encontra livros específicos da literatura infantil, Ana Maria Machado revela ter tido a ideia de organizar e inaugurar, no Rio de Janeiro, uma livraria especializada nesse público, a livraria Malasartes. 
Para ilustrar, este vídeo retrata um pouco sobre a grande trajetória de nossa Ana Maria Machado. aqui você poderá conferir suas principais obras de sua vasta literatura para crianças e também para adultos.

Fontes:
LAJOLO, Marisa. Ana Maria Machado: seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e critico e exercícios. São Paulo: Abril Educação, 1983.
MACHADO, Ana Maria. [Biografias: Livros: Cadernos de notas: Novidades: Correio]. [2011]. disponível em . Acesso: 12/08/2013
 
GT5

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ruth Rocha, algo sobre...


Ruth Machado Louzada Rocha, filha de casal carioca, mas paulistana de nascença. Ruth Rocha se encontra hoje entre os maiores nomes da Literatura Infanto Juvenil, com várias coleções lançadas, e centenas de livros publicados, atinge a marca de mais de 10 milhões de exemplares vendidos, não apenas no Brasil, mas também em outros países.

Socióloga, formada pela Universidade de São Paulo, com pós graduação em Orientação Educacional. Antes de se consagrar como escritora, atuou como orientadora no Colégio Rio Branco, trabalhou como escritora de artigos sobre educação, participou da criação da revista recreio, da editora Abril, onde surgiu a oportunidade de publicar suas primeiras histórias.
 
As obras de Ruth Rocha, ganhadoras do prêmio Jabuti de literatura, são:

a) “Uma história de rabos presos” (na categoria Literatura Infantil, em 1990);

b) Coleção “Escrever e criar. É só começar”. 5ª e 8ª séries do ensino fundamental (na categoria Livro Didático, em 1997);

c) Coleção “escrever e criar. Uma nova opção”. 1º e 2º graus (essa coleção foi vencedora nas categorias: livro do ano – não ficção e Livro Didático, no ano de 2002);

 d) Coleção “Pessoinhas” (na categoria Didáticos e Paradidáticos, em 2011).

Outros prêmios

Em1998 foi condecorada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Em 2002, recebeu também o Prêmio Moinho Santista de Literatura Infantil, da Fundação Bunge.

Ganhou também o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2003, na categoria Literatura Infantil, pela adaptação de  “Odisséia”.

Enfim, a escritora Ruth Rocha recebeu várias premiações e homenagens, das quais não haveria como listÁ-las todas aqui. Atualmente, ela é membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta.

Para encerrar
 
O vídeo a seguir, relata de forma bastante precisa toda a trajetória desta grande autora, suas premiações, publicações, etc. Ela que, antes de tudo, é também mãe, avó, mulher, profissional da área de educação e um exemplo para muitos, ensinando aos jovens, crianças e até mesmo os adultos, por meio de suas obras repletas de conteúdos sócio-educativos e pedagógicos.





FONTES VIRTUAIS
 


GT 6

sábado, 8 de dezembro de 2012

Os Contos de Fadas atuais e sua contribuição para o desenvolvimento infantil



Ao longo do trabalho realizado com os Contos de Fadas, percebemos a contribuição desse gênero para a formação da personalidade das crianças. Essas histórias desenvolvem as noções de respeito, educação e auxiliam no preparo para a resolução de problemas na vida adulta. Em outras postagens já nos detivemos na importância dos Contos de Fadas tradicionais na formação da criança. Nesta, para encerrar as postagens deste ano, referentes ao gênero, discutiremos algumas das questões que o tornam relevantes principalmente para, mas não somente,  os leitores infantojuvenis.

Os Contos de Fadas atuais retomam as histórias clássicas de princesas, príncipes, mágicos, rainhas, reis e bruxas. Porém, em suas tramas, na maioria deles, há ausência de maniqueísmo, pois os conflitos não são obrigatoriamente derivados da ação de uma personagem má. A ausência de personagens "do mal" é uma novidade que subverte o paradigma tradicional.

Outro aspecto inovador diz respeito ao caráter educativo pois apresentam um discurso mais sedutor  e menos autoritário e utilitarista, conforme discute Edmir Perrotti em  seu livro O texto sedutor na literatura infantil (1986). Vejamos alguns procedimentos e características inovadoras do gênero na atualidade:

- A quebra de expectativa: muitas histórias rompem com estereótipos do gênero de modo que o leitor se depara com fatos ou atitudes não esperadas. Um exemplo é a caracterização de Cinderela na história O fantástico mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira, pois sua atitude, que vemos no excerto abaixo, não condiz com a imagem idealizada que os Contos de Fadas tradicionais apresentavam de seus protagonistas, fossem príncipes ou princesas:


[…] a discussão já não estava mais naquele nível elegante que se espera de duas senhoras princesas de fino trato. Dona Cinderela já empunhava o sapatinho de cristal, disposta a dar uma sapatada na amiga. (BANDEIRA, 1986:23, apud SORIANO, 2009)

 

Os novos contos de fadas buscam acompanhar a mudança de valores da sociedade vigente. A princesa não precisa mais esperar pelo príncipe encantado para tramar uma fuga e nem sonham somente com o casamento. As novas princesas enlaçam o romântico ao ousado, ao atrevido, ao indelicado, fato este que as aproxima de seres “mais humanos” em comparação ao modelo tradicional.

 

 

- Formação de um leitor crítico: A partir dessa quebra de expectativa, o pequeno leitor não somente é levado a pensar sobre os conflitos como também é levado a questionar-se a respeito dos estereótipos, clichês e modelos narrativos "já prontos", uma vez que estes são "quebrados", quer dizer, desfeitos. Com isso, o texto proporciona, ou melhor, exige uma atitude mais crítica por parte de seu leitor. Para isso muito contribui a metalinguagem e o diálogo do narrador com o leitor de modo a incitá-lo à reflexão não somente sobre os temas tratados e a história narrada, mas também sobre o próprio caráter ficcional e artístico da obra. 

 

- A realidade representada é mais próxima dos leitores: Os Contos de Fadas atuais possuem temas mais polêmicos e presentes no cotidiano. A abordagem de temas como a exclusão social e o preconceito (seja racial, de gênero, social etc.) são recorrentes e levam o leitor pensar criticamente questões como   o comportamento/papel da mulher em sociedade ou mesmo a exclusão/diferença social, conforme abordamos em uma das postagens anteriores intitulada Valentina, a princesa da “Beira do Longe”- uma história atual.


- Ausência do maravilhoso/mágico:  A resolução dos conflitos em muitas histórias não ocorre graças à intervenção de elementos mágicos, maravilhosos, mas é decorrente da ação crítica dos próprios protagonistas. Desta forma, as narrativas atuais valorizam a iniciativa das crianças, transmitindo-lhes a ideia de que elas podem ser capazes de resolver seus problemas de forma autônoma. Novamente exemplificamos com a obra Valentina.

- Predomínio do discurso sedutor sobre o utilitário: Ao nos depararmos com os Contos de Fadas atuais, percebemos, dentre muitos fatores que tornam este gênero inovador, o foco narrativo pertinente ao seu caráter discursivo.

Os contos de fadas tradicionais, adaptados às demandas de uma prática pedagógica, que visava, principalmente, um modelo entendido como “educativo” pela sociedade “burguesa” da época, compreendiam um discurso utilitário, o qual é apontado por Perrotti (1986) da seguinte forma:


O discurso utilitário procurou sempre oferecer a crianças e jovens atitudes morais e padrões de conduta a serem seguidos, ordenando os elementos narrativos em função de tal finalidade exterior. Tais atitudes e padrões, evidentemente, inseriram-se na ordem da sociedade que os promoveu, uma vez que tal discurso buscou não somente adaptá-lo a um determinado modelo social: o burguês. (PERROTTI, 1986, p.117)


Esse caráter utilitário, além de tentar moldar um exemplo de comportamento a ser seguido, tinha como propósito resguardar as crianças e adolescentes dos perigos do mundo, e que se fundamentava na classificação normativa dos atos como “certos” ou “errados”. Com isso, as histórias adquiriam esse tom moralista, mencionado por Perrotti (1986).

Diferentemente deste modelo, os atuais contos de fadas surgem de modo a trazer à tona um discurso estético, nos quais consta uma veemência ideológica, tornando-se objeto com valor em si mesmo, discurso este sobreposto ao utilitarismo. Assim, o discurso estético já constitui a própria arte e, por ser arte, apresenta desejos, vozes, intuições, como assinala Perrotti (1986) ao dizer que a literatura voltada ao caráter estético tem as suas próprias leis, suas dinâmicas e requisições internas, que “se violadas em nome de um valor exterior como a eficácia junto ao leitor, pode comprometer irremediavelmente sua integridade estética”.
 

Outro aspecto a ressaltar é a questão do narrador pertinente a cada discurso. No discurso estético, o narrador pode, por exemplo, dialogar com seus leitores, de forma que se coloca em uma condição inferior a real, de adulto, para que seja compatível à realidade da criança (embora ainda exista uma assimetria com relação autor e obra), utilizando-se de intrusões, de humor e ironia, como também pode apresentar uma narrativa de caráter metalinguístico, tal qual ocorre em História meio ao contrário, de autoria de Ana Maria Machado.  

Quanto ao discurso utilitário, o narrador se manifesta autoritário, de modo a repreender, ensinar a partir de com uma perspectiva pedagógica, sem dar margem à interação autor-leitor. Esta questão referente ao discurso utilitário, e simultaneamente, ao narrador, foi abordada na postagem  Chapezinho Vermelho x Chapeuzinho Amarelo: medo do Lobo, medo bobo, na qual o grupo (GT1) responsável pela postagem, ressaltou, a respeito do discurso utilitário, que a “narração é pautada pela relação de poder e saber do adulto sobre a criança ingênua e ignorante”.


O novo estilo de se fazer literatura, incluindo os contos de fadas, surge na década de 70, a fim de trazer ao público infantojuvenil não apenas uma literatura voltada ao ensino, mas também com o objetivo de construir histórias que valorizassem a natureza humanizadora da obra de arte literária.

Ao retornarmos à postagem Uma fadinha atrevida com sua varinha de condão., a qual traz uma abordagem a respeito do livro A Fada que tinha ideias, de autoria de Fernanda Lopes de Almeida, observamos um exemplo do discurso estético, que funciona conjuntamente ao discurso utilitário às avessas, já que leva a criança a pensar e questionar a respeito das condições e ações pré-estabelecidas, que visam um padrão de conduta, porém sem apresentar uma proposta moralista.
 
Também citamos Ana Maria Machado como um exemplo, dentre vários autores que inovaram, nas décadas de 70 e 80, não só a respeito do gênero Conto de Fadas como também com relação às obras destinadas ao público infantil, pois:


A obra de Ana Maria Machado sinalizava, na virada dos anos 70 para os anos 80, que a literatura infantil não apenas se insubordinava  contra o sistema vigente, fosse ele o literário, o  político ou o  econômico. Revelava igualmente que era hora de se fazer uma nova história, “meio ao contrário”, porque, se dava seguimento ao que de melhor a literatura infantil fornecera até então, tinha, na mesma proporção, de procurar seu rumo e traçar os caminhos da estrada que se abria à sua frente, conforme uma aventura inovadora e plena de desafios. (ZILBERMAN, 2005, p. 54 apud SILVA, 2010)


Dessa maneira, notamos que, nos contos de fadas atuais, há a predominância do estético. Contudo, não podemos considerar que no discurso dos novos contos de fadas não exista nenhuma marca do utilitarismo.

Considerações finais

Esses novos contos de fadas ampliam a visão crítica de seus leitores, visto que eles saem de uma zona “estabilizada”, que é o conto de fadas tradicional, que apresenta sempre personagens boas e más (princesas e bruxas, respectivamente)  subordinação a um príncipe encantado e há sempre o final feliz relacionado ao casamento, diferentemente dos atuais, já que nem sempre há um conflito resolvido com o matrimônio. Algumas vezes nem há o maravilhoso na superfície do conto, como acontece em Valentina, mas ela o cria de forma a valorizar a sua realidade e mostrar que as diferenças estão muito mais no olhar do outro, do que vê de fora.

Desde os primórdios da humanidade, contar histórias é uma atividade importante na transmissão de conhecimentos e valores humanos. Essa atividade tão simples, mas tão fundamental, pode se tornar uma rotina banal ou representar um momento de grande valia na educação das crianças.

O que nos importa aqui é referenciar o valor dos contos de fadas no desenvolvimento intelectual e emocional das crianças. No que se refere à educação, este gênero proporciona condições que favorecem o amadurecimento psicológico, assim contribuindo para a formação da personalidade, visto que a criança pode aprender, por meio deles, a refletir e reconhecer pensamentos e sentimentos que ajudam ou atrapalham sua relação consigo mesmo e com os outros. Desta forma ela aprende a conviver com “o seu mundo interno” e a compreender que os problemas fazem parte da vida, mas podem ser superados. 


Referências


Era uma Vez... Letras Português. 2012.  Uma fadinha atrevida com sua varinha de condão. Post consultado em 05/12/2012. Disponível em: http://eraumavezuem.blogspot.com.br/2012/11/uma-fadinha-atrevida-com-sua-varinha-de.html


Era uma Vez... Letras Português. 2012. Valentina, a princesa da “Beira do Longe”- uma história atual.


Post consultado em 30/11/2012. Disponível em: http://eraumavezuem.blogspot.com.br/2012/10/valentina-princesa-da-beira-do-longe.html

 

Perrotti, Edmir. O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Ícone, 1986.

Soriano, M. E. A. Contos de Fadas e Identidade Infantil. Monografia. UERJ. Faculdade de Formação de Professores, 2009. Disponível em: http://www.ffp.uerj.br/arquivos/dedu/monografias/MEAS.2009.pdf

STUDZINSKI, N. G. & HOLZSCHUH, M. S.  Contos de Fada e o Desenvolvimento Infantil. 2012.


SILVA, V. R. F. da. A recepção de Ana Maria Machado no âmbito escolar. 2010.


GT 5: Contos de Fadas na Atualidade


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Didático e maravilhoso: O Saci, de Monteiro Lobato


Olá leitores, depois de uma aula de Literatura Infanto-juvenil com nosso professor da graduação (criador do blog), em que foi discutida a obra de Monteiro Lobato, resolvemos trazer à tona esse maravilhoso escritor que com sua obra foi o marco inicial da literatura infantil no Brasil.

Percebemos que não há na obra de Lobato uma leitura simplista e maniqueísta do mundo, pois a literatura do autor tem o viés de desenvolver o senso crítico no espirito da criança e, para tanto, não a trata como incapaz de desenvolver um olhar crítico sobre a literatura e a sociedade. No livro Caçadas de Pedrinho, por exemplo, quando os animais apavorados pela morte da companheira onça, fazem uma assembleia e traçam um plano de ação para resolverem a situação. Assim, o autor humaniza os animais, pois eles falam, incentivando/ensinando a criança que a organização faz parte da sociedade, e que devemos nos organizar para resolvermos assuntos que dizem respeitos a determinado grupo. Os animais não vencem, mas dão o maior susto nos moradores do sítio.

Na obra não paradidática do autor não há construção de narrativas voltadas predominantemente para a dimensão educativa, pois se há elementos que expressam preocupações didáticas, eles não convergem para o final. Há uma preocupação com o ensinar, mas isso não se sobrepõe ao fantástico, ao lúdico e ao maravilhoso. Não há amarração do discurso pedagógico voltado para o final feliz. Por exemplo, no fim da história de O saci, a personagem Narizinho é pega pela vilã Cuca e transformada em pedra e a luta então dos personagens Pedrinho e  Saci por reverter a mágica é o foco da narrativa, sobrepondo-se ao discurso escolar presente nas falas do personagem Saci, que ensina a Pedrinho os segredos da floresta e seus habitantes, sejam vegetais ou animais. E mesmo apresentando uma dimensão educativa, propícia para ser explorada nas auas de biologia ou ciências, seu discurso não parece um corpo estranho à ação narrativa pois se insere perfeitamente na trama, apresentando-se  natural à situação vividas pelos protagonistas, Pedrinho e Saci.  Como o primeiro desconhece a floresta e seus habitantes por ser criado no meio urbano e tenha curiosidade sobre esse mundo que lhe é desconhecido, as explicações do Saci são justificadas por uma necessidade da ação narrativa. Como se pode ver,  a obra pode ser explorada na sua dimensão mágica, pois a narrativa se apresenta como gênero de aventuras, juntamente com a sua  dimensão pedagógica, pois apresenta um olhar cientifico sobre a natureza, chegando mesmo a discutir de maneira muito crítica a relação homem x natureza através dos diálogos entre o Saci e Pedrinho.

 


Assim como argumentamos com respeito à obra O Saci, o discurso pedagógico também está em segundo plano, pois ocorre “perfeitamente” entrelaçado ao literário, de modo que, segundo Perrotti (1986), podemos considerar esse tipo de discurso como estético e, por consequência, o texto como sedutor.

Outro aspecto positivo de  O Saci é que a obra depõe contra a ideia de que Lobato é racista, pois o Saci é o herói da história e é dez vezes mais inteligente que Pedrinho. Essa questão do racismo em obras do autor já foi discutida aqui no blog, e pode ser vista por meio dos seguintes links: http://migre.me/caAR0; http://migre.me/caAS7; http://migre.me/caAU4.

Para finalizar, sem duvidas um dos grandes achados de Lobato foi conseguir mostrar o “maravilhoso” como possível de ser vivido por qualquer um. Com a mistura do imaginário com a realidade concreta ele mostra no mundo prosaico do cotidiano a possibilidade de ali acontecerem aventuras maravilhosas que, em geral, só eram possíveis nos contos de fadas ou no mundo das fábulas, e mesmo assim só vividas por seres extraordinários.
 
Por fim, uma observação a ser feita: essa postagem foi elaborada com base nas aulas da disciplina de Literatura infantojuvenil ministrada pelo Professor Doutor Marciano Lopes e Silva sobre Monteiro Lobato e as obras em questão.
 

Dicas:
 

Para quem quiser ler a obra Caçadas de Pedrinho completa: http://migre.me/cawK2
 
Para conhecer a vida e obra de Monteiro Lobato: http://migre.me/c5t21
 
Para quem não conhece a história do inicio da literatura infanto-juvenil em nosso país, no link http://migre.me/c5tlJ encontramos um pouco sobre marco inicial dessa literatura, um pouco sobre as contribuições e importância das obras “lobatianas” para o público infantil e também a ligação de seus personagens com o folclore, cuja presença na obra tinha como objetivo valorizar a cultura popular brasileira.
 

Referências

PERROTTI, Edmir.  O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Ícone, 1986
 

GT 2: Autores Consagrados