domingo, 26 de agosto de 2012

A Moça tecelã, de Marina Colasanti, e o novo papel feminino nos Contos de Fadas


O conto “A moça tecelã” apresenta traços do gênero tradicional entrelaçados com uma situação social moderna, na qual a autora questiona os dogmas do casamento e da família e busca apresentar um processo de individualização, desejo de liberdade e independência.

O conto de Marina Colasanti fala sobre a vida de uma moça que passava os dias tecendo. Ela tecia desde a claridade do dia até os alimentos que consumia. Porém um dia, a moça percebeu que se sentia sozinha e começou a tecer um marido para lhe fazer companhia. Então, antes que a moça tecesse o último fio dos sapatos do futuro marido, um homem bateu à porta. Naquela noite, junto com seu amor, a tecelã pensou na família que teceria para aumentar sua alegria.

Mas logo o marido começou a fazer pedidos para a moça tecelã. Ele desejou uma casa melhor e depois um palácio cheio de criados. Quanto mais a esposa tecia mais ele pedia. Ela já não tinha tempo para tecer o sol e o dia e percebeu que seria bom estar novamente sozinha. Durante a noite, enquanto o marido dormia, ela desfez tudo que havia criado. Toda a riqueza construída para o amado desapareceu. A noite estava acabando e o marido, ao começar a acordar, sentiu-se estranho. Mas ele não pode levantar-se.

A moça tecelã desfazia o tecido dos sapatos do marido e aos poucos ele todo desapareceu. Novamente, em sua pequena casa, a tecelã pôde tecer as coisas que realmente lhe faziam feliz. E foi com uma linha clara como o sol que a moça tecelã começou a tecer os traços de luz que se reproduziam no horizonte.


(...) A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.


Ao compararmos este conto de fadas de Marina Colasanti com os tradicionais, percebemos o quão este é moderno, no que se refere ao tema, à crítica desenvolvida ao longo da história e ao desenvolvimento do conto, misturando o real e o mágico, que se faz pelo ato do tecer.


Quando começamos a ler o conto, temos a sensação de que se trata de mais uma história na qual a mulher está submetida às tarefas realizadas no lar, pois a protagonista é uma tecelã dedicada ao ofício. Outro aspecto que se assemelha demasiadamente às características do conto de fadas tradicional é no momento em que a moça tecelã se sente sozinha e acredita que um homem é capaz de ampará-la e torná-la feliz, assim como construir a família “padrão”, um sonho da moça tecelã.

Mas, com a chegada do homem a rotina da protagonista toma outro rumo, e a mesma passa a desempenhar o ofício que antes era realizado com satisfação apenas para atender às exigências do marido. Temos aqui a “coisificação” da personagem, que serve de instrumento para suprir aos desejos capitalistas do marido, e consequentemente, uma quebra de expectativa da protagonista em relação ao propósito de possuir um marido e o que este realmente deseja. Neste ponto, a autora critica a submissão da mulher, o seu papel na sociedade. Há uma desconstrução da ideia de que a vida ideal seja a dedicação ao matrimônio, aos filhos e que estes sejam a “fonte da felicidade”.

O conto distancia-se dos contos de fadas tradicionais: a mocinha da história não atinge um “... e foram felizes para sempre” que leva ao desfecho do conto, ao contrário, o casamento é que traz em si a problemática da história: é com o casamento que ela começa a obedecer ordens e realizar tarefas matematicamente, a fim de servir aos anseios do marido, o qual coloca em primeira instância o capitalismo e o sentimento de posse.


Porém há a presença do “final feliz”, que se dá quando a protagonista percebe que antes do casamento era mais feliz e desconstrói, “desmanchando o que havia tecido”, tudo que adquiriu durante o matrimônio e que para ela não tinha propósito e torna à estabilidade retornando ao quotidiano, ao ato de tecer, ofício que antes realizava com muito apreço.


Referências:

Conto completo disponível em:

Entrevista com a autora Marina Colasanti:

Imagens: 




Grupo 5: Contos de Fadas na atualidade.




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